Um ser indignado

por Anita Pompeu

A ativista Sueli Carneiro faz de sua indignação uma arma contra o preconceito

Sueli Carneiro abraça, beija e agradece cada integrante da equipe da Trip. Na despedida, o olho no olho e um agradecimento individual, em referência a algo que foi dito ou relatado durante o dia. “Carol, obrigada pelo exemplo que você deu ao seu filho nesse caso de racismo que ele viveu”; “Anita, obrigada por tratar sua diarista da forma que trata. Isso não é pouco. Se todo mundo fizer isso, o mundo muda”; “Pedro, muito legal a lição que você deu ao seu irmão no episódio de discriminação que vocês sofreram na Hungria.”

Fazia sete horas que a equipe tinha chegado ao prédio no Centro de São Paulo que abriga o Geledés – Instituto da Mulher Negra, fundado por Sueli há 30 anos, ao lado de outras nove mulheres negras. “Vocês me enganaram”, ri a ativista ao ver as câmeras. “Detesto essa coisa de fotos, vídeos. Não sou celebridade! E vocês sabem muito bem que a mídia é responsável pela estigmatização das pessoas negras como sinônimo de pobreza e risco à sociedade.”

Filósofa e doutora em educação, Sueli foi escolhida para 
receber o prêmio Trip Transformadores deste ano por sua 
atuação com os movimentos feminista e negro, principalmente, e por sua posição no comando do Geledés, do qual é coordenadora executiva.

 

Racismo à vista

A organização nasceu com a vocação de evidenciar o nível de exclusão que as mulheres negras sofrem na sociedade. Veio também para cobrar políticas de inclusão social e para “enegrecer” (palavra de Sueli) o feminismo, por meio do reconhecimento de que racismo produz desigualdades e de que é preciso encontrar ações efetivas que combatam esse mal. “Sou uma mulher muito indignada”, diz. “Injustiça me deixa profundamente indignada, e essa indignação leva à luta. Não tolero violência contra a mulher, desigualdade de gênero, racismo, nenhum tipo de discriminação. Acho que é uma condição necessária de afirmação da nossa plena humanidade rejeitar visceralmente toda e qualquer forma de exclusão ou aceitar qualquer forma de privilégio proveniente disso. Sou muito orgulhosa da minha plena humanidade.”

Sueli Carneiro nasceu há 67 anos em São Paulo, em uma família que a estimulava a encarar a questão racial de frente. Até porque fugir dela não era opção. A primeira lembrança de racismo de que recorda era ser chamada de Pelezinho pelas crianças da vizinhança. “Meus pais nos alertavam sobre os problemas que a gente ia ter de encarar na vida e diziam que teríamos que resolver isso”, conta. “Quando era criança, resolvia batendo, porque quando a gente não tem argumento, a gente bate.”

Aos 20 e poucos anos, Sueli entendeu que aquela dor não era individual. Encontrou nos movimentos feminista e negro o lugar para transformar suas angústias e inconformismos em luta. “A primeira vez que vi uma palestra de Lélia Gonzalez [1935-1994], ativista negra, foi extremamente marcante”, diz. “Foi a pessoa que mais me inspirou a definir a que dimensão da questão racial iria me dedicar. Ela foi pioneira na crítica ao feminismo, no sentido de que ele não abarcava a experiência de todas as mulheres brasileiras. A construção do nosso feminino, o negro, se dá a partir da violência e da escravidão. Então, ouvir pela primeira vez Lélia foi organizar toda a minha inquietação”, diz.

“Se antes eu era uma moça negra indignada que teve a sorte de encontrar pessoas que deram sentido para aquela indignação, hoje sou uma senhora negra muito feliz e orgulhosa com o caminho percorrido e por ter o privilégio de ser mais uma pessoa nessa luta. Alguém que deu alguma contribuição e que está deixando um legado do qual se orgulha, para uma população que está emergindo com mais coragem, força e resistência.”

A entrevista começara havia pouco tempo. Era dia de jogo da Copa do Mundo. A equipe estava em fase de aquecimento, quando ficou claro que, para a entrevistada, a partida já se aproximava dos 40 do segundo tempo: “Isto aqui não vai muito longe, não, né? Vocês vão me deixar ver o jogo da Argentina!”.

É hora do almoço. No restaurante, Sueli Carneiro, a sobrinha e funcionária do Geledés, Natália, e a equipe da Trip dividem a mesa e histórias de vida, entre um lance e outro da seleção argentina na TV. De volta ao instituto, agora para uma nova sessão de fotos, já passava das 4 da tarde, quando alguém descobre o terraço do prédio: “Sueli, vamos ter que fotografar você lá em cima. Não vai ter jeito...”, diz o fotógrafo, receoso da resposta. Elevador, escadas em caracol, fôlego, e lá está ela. Drone sobrevoando, nova bateria de cliques, fotos de encerramento com a equipe, pôr do sol avermelhado de fundo, e uma Sueli à vontade, satisfeita e com fé na humanidade.

Créditos

Imagem principal: Mario Ladeira/Acervo Trip

Fotos: Mario Ladeira/Acervo Trip

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