Depois daquele dia

por Rodrigo Grilo

A ex-ginasta Lais Souza fala da sensação de voltar a ficar de pé, do prazer de sentir cócegas, das pequenas conquistas e da falta que sente de dar um abraço

Faz cinco anos que a paulista Lais Souza não compete. Ex-integrante da seleção brasileira de ginástica artística e com participação nos Jogos Olímpicos de Atenas (2004) e Pequim (2008), ela viu sua vida mudar em um salto. Em 2014, acabou lesionando a terceira vértebra (C3) da coluna cervical ao colidir em uma árvore, em Salt Lake City, nos Estados Unidos, quando treinava para estrear na modalidade esqui aéreo nos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, na Rússia. Incapacitada de movimentar os membros superiores e inferiores, Lais mantém, no entanto, uma condição própria a atletas de alta performance: a rotina exaustiva de dedicação a exercícios físicos.

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Foi graças às sessões quase diárias de fisioterapia e, principalmente, eletroestimulação, que fortalece o tônus muscular e melhora a pressão arterial, que Lais conseguiu levantar as pernas recentemente. “Sinto cócegas nos pés e debaixo dos braços também”, diz ela, sobre o retorno da sensibilidade. Muito além de importantes conquistas físicas – há pouco tempo, com o auxílio de um estabilizador, voltou a experimentar, de pé, a sensação de ter uma conversa olho no olho –, são as afetivas que mexem com o emocional da ex-atleta nascida em Ribeirão Preto.

Em 25 de janeiro, Lais, 30 anos, e a noiva, a advogada Paula Alencar, de 27, irão se casar. Conheceram-se pelo Instagram há pouco mais de dois anos e vivem juntas em um apartamento alugado em Vila Velha, Espírito Santo, cidade natal da companheira. “Sempre sonhei em casar na praia e assim será”, diz ela, sem querer detalhar a vida com a parceira, com quem já planeja ter um filho. Passa a maior parte do tempo em casa, na companhia dos profissionais de fisioterapia e dos bichos de estimação: o cachorro Skank e o gato Baguera. O celular também é um parceiro constante. Por meio dele, com o auxílio de uma caneta manuseada com a boca, responde a mensagens, e-mails e atende ligações quando não está envolvida com as aulas à distância do curso de história na Estácio de Sá. 

Matriculada na faculdade desde o início do ano, a ex-atleta, que recebe uma pensão vitalícia do Governo Federal próxima dos R$ 6 mil, reforça a renda como palestrante e com ajuda financeira que recebe do cavaleiro Doda Miranda e de Neymar. A seguir, Lais fala sobre a sua rotina na condição de tetraplégica, de saudade, sonhos e da vontade de ser mãe.

Tpm. Como você leva a vida em Vila Velha? 
Lais Souza. Adoro ir ao teatro, assistir a musicais, palestras e documentários. Ir ao cinema é outro programa, mas perdi o tesão porque tenho muito frio e o ar condicionado da sala me congela. Amo levar a minha esposa a restaurantes – e sou exigente com a comida. Com a Paula, vou à praia e a parques. E curto muito fazenda, a natureza como um todo. Ter uma casa de campo é meu próximo objetivo, para poder respirar melhor e tomar sol. 

Sente saudade de fazer coreografias de ginástica? Demais. Sinto falta de tudo: de escovar os dentes, tomar banho sozinha, sair correndo e ir à praia. A aceitação [da minha condição] ainda é muito crua. É um processo demorado e, na real, não sei se vai ter um fim. Algumas pessoas dizem que não. 

Você sonha que está competindo, dando saltos mortais? Sonho. Mais do que dar um mortal para frente ou para trás, o que mais queria voltar a fazer é pular em uma cama elástica e sentir aquela sensação de liberdade. Nos meus sonhos, ainda realizo coreografias. Nunca sonhei que eu não andava mais.

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Você assiste a campeonatos de ginástica? Não mais. Parei de ver para não me frustrar e não alimentar tanta coisa dentro de mim. A questão tem dois lados: eu amo relembrar, mas, ao mesmo tempo dá uma raiva, porque nunca mais vou praticar ginástica novamente. Não tenho mais contato com o pessoal da Confederação nem com os treinadores. Soube que a seleção brasileira feminina não se classificou para os Jogos de Tóquio, no ano que vem. Mas sei que as meninas treinam demais e as exigências são cada vez maiores. E elas estão de parabéns por nos representar seja onde for.

O que a emociona mais, atualmente? Família. Eu sou chorona. Quando estou de TPM, também me emociono facilmente.

Sente que é hora de construir uma família? A maternidade exige uma dedicação tremenda. Eu e a Paula já encaramos muitas dificuldades no dia a dia. Temos muito o que maturar ainda para, em algum momento, estarmos com o nosso bebê no colo. Mas ser mãe é o meu sonho de vida; não gostaria que demorasse. Podemos adotar ou optar por uma inseminação. Seremos muito felizes com o que Deus preparar para nós. 

Fale um pouco mais da sua atual autonomia física. Eu não tenho movimento algum do peito para baixo. Mexo bem pouco os ombros. O pescoço está normal; consigo virá-lo sem ajuda. E a minha deglutição, que já foi bem debilitada, está bem melhor. Não mexo nenhuma outra parte do corpo. Tenho uma cadeira simples, que não é motorizada. Mas a intenção é ter outra com a qual consiga me movimentar sozinha. Nos Estados Unidos, há uma cadeira parecida às motorizadas usadas por seguranças em shopping, com apenas duas rodas. Mas custa US$ 18 mil e eu precisaria ir para lá testá-la. Mas não consigo voar de classe econômica, porque tenho dores fortes no bumbum quando fico muitas horas sentada. Teria que viajar deitada e com acompanhante. E mais: arcar com os custos todos por lá, como transporte. Então, preciso trabalhar muito ainda. Ou talvez encontrar um patrocinador que queira cooperar.

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Você foi a primeira tetraplégica com lesão alta, sem movimento algum, a receber células-tronco. Qual a sensação de ser cobaia de protocolos médicos?  Tive medo. Ao mesmo tempo, estando debilitada e sem saída, transformei isso em motivação, para ir à luta. Foram três aplicações durante oito meses, nos Estados Unidos. Aos poucos, fui sentindo a sensibilidade voltar. Para resumir, ter recorrido à aplicação de células-tronco deixou evidente o que realmente sobrou no meu corpo depois do acidente. Já consigo sentir a minha bexiga cheia e sei quando tenho de fazer xixi, por exemplo. 

Mas a sensibilidade voltou primeiramente em qual parte do corpo? Nos pés. Sabe dálmata? Hoje, é como se eu tivesse algumas bolinhas pretas espalhadas em algumas partes do corpo que representam os pontos mais sensíveis, como a barriga e as costas. Na minha perna, por exemplo, não há tanta sensibilidade. Também não transpiro como uma pessoa normal. Meu suor é como um efeito colateral.  Por outro lado, sinto cócegas na sola dos pés e debaixo do braço. Mas eu demoro para perceber que alguém está fazendo cócegas, caso eu não esteja olhando para o ato, sabe? 

Quando voltou ao Brasil, foi um choque perceber a dificuldade que o cadeirante enfrenta em um país que não está adaptado a essa condição? Vou dizer que dá medo de sair de casa. É um esforço enorme, ninguém imagina, para ficar pronta para sair e fazer algo. E é muito frustrante quando não dá certo. Já teve taxista que recusou corrida por eu ser cadeirante, ônibus que dizia ser adaptado, mas não era, estabelecimento no qual não pude entrar porque não havia vaga para carro de cadeirante e por aí vai. Sinto falta de boa vontade e de terem um olhar mais carinhoso em relação a nós.

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Você postou, não faz muito tempo, uma foto em que aparece em pé com o auxílio de um aparelho. Quão importante foi aquele momento? A sensação de estar em pé é maravilhosa. Além disso, acabo trabalhando a pressão arterial. Como meus músculos não bombeiam sangue com força, a pressão desce para os pés quando fico ereta no Ortowalk. Ele é um estabilizador, uma espécie de robô, que tem as minhas medidas. Eu sou encaixada nele pelos pés e pela cintura. O aparelho me trava pelo quadril e, uma vez em pé, coloco o peso sobre uma perna enquanto a outra vai pra frente. É possível, então, andar devagarzinho, acompanhada de alguém segurando nas alças que ficam na minha cintura. Enfim, utilizo o estabilizador de acordo com a minha rotina e saúde. Quando acordo com a pressão muito baixa ou indisposta, não o uso.  

Estar em pé novamente é ver a vida em outra perspectiva? É gostoso estar nessa posição. Tenho vontade de dar um abraço, por exemplo. Também é uma delícia o olho no olho com outra pessoa e poder relembrar a minha altura. São pequenas sensações que só eu mesma sinto. Hoje, valorizo muito poder ficar em pé. Com a eletroestimulação, faço alguns exercícios e realmente percebo o meu músculo funcionando sozinho. Quem se mexe, corre, anda, cuida do filho, tem de dar muito valor a essas coisas, porque em um segundo tudo pode mudar. Eu estava treinando, competindo e, de repente, já não estava mais respirando, me mexendo. O momento de fazer tudo o que tem vontade, de amar, é agora.  

Créditos

Imagem principal: Arquivo pessoal

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