por Cesar Calejon

Dan Mancina: o americano cego que superou seus limites e é melhor skatista hoje do que era quando enxergava

Estereótipos são geralmente utilizados para definir e limitar alguém ou grupos inteiros de pessoas, ideias que avançam em direção a reducionismos e preconceitos, invariavelmente. Das mais clássicas, como “lugar de mulher é na cozinha” ou “esse é um trabalho de homem”, até coisas mais específicas, como “cegos não podem andar sozinhos”, essas falácias servem para não mais do que reafirmar medos e ansiedades que são naturais a todos os seres humanos. Trata-se de uma forma de perceber o mundo e a vida.

“O skate me oferece a possibilidade de mostrar um lado meu que representa a forma como eu quero ser percebido: capaz e fazendo o que eu amo”
Dan Mancina

Daniel Mancina, skatista americano da cidade de Livonia, em Michigan (EUA), poderia ser estigmatizado pelo estereótipo do vulnerável, mas atravessa este e qualquer estereótipo que as pessoas achem que lhe cabe. “A melhor parte de ser cego é a minha carreira de skatista, porque eu não poderia seguir este caminho de outra forma. Ela me oferece a possibilidade de desafiar o que as pessoas geralmente pensam sobre o que um deficiente visual ou um cego podem fazer”, afirma Dan, que aos 13 anos de idade foi diagnosticado com Retinite Pigmentosa, doença genética e degenerativa dos olhos que causa a perda da visão gradualmente. “O skate me oferece a possibilidade de mostrar um lado meu que representa a forma como eu quero ser percebido: capaz e fazendo o que eu amo. É uma expressão muito forte de quem eu realmente sou por dentro. Assim, quando as pessoas me conhecem, elas não sentem pena ou tristeza, mas ficam felizes”, complementa o atleta.

Dan deu as primeiras remadas no carrinho por influência de um primo, aos 7 anos, mas realmente começou a andar de skate aos 12. “Eu costumava fazer snowboard e li um artigo em uma revista que dizia que o skate poderia melhorar o nível do snowboard durante o verão, então comecei a partir daí”, lembra. 

Segundo ele, que hoje tem 32 anos, a doença não o atrapalhou muito até o início da vida adulta. “Depois dos vinte anos, comecei a perder a visão de fato e isso me afetou, porque eu não podia sair de casa sozinho ou sequer dar uma volta no meu quarteirão sem algum tipo de guia. Foi uma época muito estressante da minha vida, mesmo desconsiderando a minha perda de visão. Eu parei de andar de skate e não fiz muita coisa nesta ocasião, além de me focar no meu filho. Eu me tornei ansioso e triste, com uma sensação de vazio. Fiquei perdido. Mudei de escola, trabalhei como massagista, mas estava infeliz”, explica Mancina.

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No começo de 2018, Dan ainda tinha “a percepção de luz, das sombras e contrastes”, porque lhe restava 5% de visão no campo periférico do olho direito. “Eu não tenho mais esses 5%. Algumas coisas são mais desafiadoras agora, mas eu ainda as faço. Apesar de totalmente cego, estou na minha melhor fase. Sou hoje o melhor skatista que já fui na vida. Minha última edição do skatepark JenKem foi feita sem qualquer visão. Estou trabalhando na minha próxima parte e os clipes que tenho até agora estão muito além do que pensei que seria capaz de produzir”, acrescenta Mancina.  

Após uma década em que a cegueira foi progressiva e lentamente se estabelecendo de forma inexorável, Dan encontra-se hoje no auge da sua habilidade e da sua carreira de skatista e vem literalmente reunindo multidões por onde passa, além de possuir centenas de milhares de seguidores em suas redes sociais.

“Minha experiência com o skate é inclusiva como uma pessoa que é cega. É um dos poucos lugares onde eu posso me expressar totalmente”
Dan Mancina

Além disso, alguns dos principais nomes do skate no mundo, como Daewon Song, Aaron Homoki (Jaws) e Tony Hawk, tornaram-se seus fãs. “Minha experiência com o skate é inclusiva. É um dos poucos lugares onde eu posso me expressar totalmente. O skate oferece uma liberdade imensa, porque, com o treino, você pode escolher as suas manobras e o seu estilo”, garante o skatista

Em 2018, Dan criou uma fundação sem fins lucrativos para compartilhar alguns valores tradicionais do skate — criatividade, habilidade, aceitação, coragem e humildade — com outras pessoas portadores de alguma deficiência. “A Keep Pushing Inc. incentiva as pessoas a não deixarem que as suas vidas sejam ditadas pelos outros ou pela forma como as suas habilidades são percebidas”, explica. “Ela foi criada para construir um skatepark projetado com princípios universais de design em mente. O primeiro parque all inclusive construído para receber qualquer estilo de skatista ou praticante de WCMX (cadeirantes que utilizam as cadeiras de rodas para praticar o esporte). Este espaço vai utilizar todos os sentidos, desde o sentir até a emissão de sons, para ajudar a orientar os skatistas. Estou trabalhando no protótipo de uma versão animada do parque, que será apresentada no Instagram da @keeppushinginc e no site Keeppushinginc.com em breve”, conta.

Iniciativas como estas são elementares para o desenvolvimento de modalidades como o WCMX e para estimular o engajamento dos portadores de necessidades especiais em atividades físicas, que são fundamentais para fazer a manutenção da saúde mental e do corpo. “Um dia decidi construir um pequeno palco para gravar uma manobra. Fazia cerca de dois anos que eu não andava de skate, porque, com a perda da visão, pensei por um tempo que o skate não era mais parte da minha vida. Filmei um boardslide e a Tony Hawk Foundation divulgou o meu vídeo no Instagram. Ele foi muito compartilhado e comentado na internet”, lembra o skatista.

"O nosso amigo Daniel Mancina continua arrepiando com estilo e suavidade depois de perder a visão. Ele quer apoiar mais skatistas e outros que lidam com esse desafio. Acesse o perfil dele para saber mais. Obrigado pela inspiração, Dan!", disse o texto da publicação da Tony Hawk Foundation no dia 19 de agosto de 2016. “Isso me motivou muito para andar mais e experimentar mais. Lentamente, voltei ao skate depois disso. A forma como as pessoas reagiram ao meu vídeo era o que eu estava buscando: que me percebessem não como uma pessoa cega, mas como um skatista”, explica.

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Ainda de acordo com ele, acreditar nas preconcepções estabelecidas por outras pessoas foi o motivo central que o levou a se afastar do esporte por algum tempo. “Eu escutei as ideias de algumas pessoas considerando quem eu era (depois de ficar cego) e o que uma pessoa cega pode fazer, quando na realidade deveria ter procurado quem eu era e o que queria fazer. Hoje, tenho a oportunidade de mostrar quem eu sou e como quero ser percebido pelas pessoas, para que elas não tenham pena de mim e vejam que sou feliz”, conclui Dan, que, quase certamente, possui um 360 kickflip melhor do que o seu.

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