Um pé na rua, outro na Olimpíada

Bruna Bittencourt
Mayara Rozário

por Bruna Bittencourt
Mayara Rozário
Trip #286

Enquanto o skate desliza nas ruas do Japão repreendido pela polícia e com uma dose de subversão, a jovem cena feminina cresce nos skateparks e chega à Olimpíada de Tóquio

Não é fácil andar de skate nas ruas do Japão. Em um país que preza por educação, silêncio e ordem, o esporte – e toda sua imprevisibilidade – não é visto com bons olhos pela polícia. É comum ver skatistas sendo repreendidos por policiais, como mostram os vídeos de skate locais.

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“Várias vezes a polícia comunicava no alto-falante para sairmos da rua e pegarmos o skate na mão. Até mesmo pessoas comuns ligavam para denunciar quando estávamos andando em algum pico. Para as autoridades, o skate é perigoso e pode provocar um acidente envolvendo terceiros”, conta o brasileiro Thiago Ishigooka, 22 anos, que morou no Japão por dois anos. “Também sempre me alertaram que eu poderia ser multado se continuasse andando em lugares com muita gente”, completa. “Acho que a sociedade japonesa é realmente dura com o skate de rua. Ele é e sempre foi odiado por muitas pessoas”, diz Yuri Murai, skatista e filmmaker japonesa, que vem registrando há oito anos a cena feminina do país. Masafumi Kajitani, 44 anos, editor da VHSMag, revista de skate japonesa, dá um embasamento histórico: “Não há muita diversidade cultural no Japão, a maioria das pessoas nasceu no país. O skate não está enraizado aqui e acho que a população tende a não aceitar algo que não conhece”.

Mas, se, por um lado, o skate enfrenta resistência nas ruas e rema ali com uma dose de subversão e desobediência, por outro cresceu devidamente autorizado – e domesticado, segundo alguns críticos – nos skateparks, que vêm se multiplicando no país, às vésperas da estreia da modalidade nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em julho. “A cena do skate no Japão cresceu nos últimos dois anos por causa da Olimpíada. Há muito mais skatistas agora tentando competir”, conta Mami Tezuka, 18 anos, atleta de destaque no park. Apesar do crescimento, a cena japonesa ainda é pequena se comparada à americana. Estima-se que o Japão tenha 400 parks, enquanto os Estados Unidos, potência das rodinhas, têm 3.500.

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Independentemente do tamanho no cenário mundial, a estreia do skate nos Jogos de Tóquio fez com que ele deslizasse do underground para o mainstream no país. “O skate teve uma má reputação no Japão no passado, mas isso mudou desde que se tornou um esporte olímpico”, conta Mami. Para Misugu Okamoto, 13 anos, maior promessa japonesa do park, há muita atenção da TV e dos jornais. “As crianças começam a andar de skate porque seus pais as fazem ir à aula como uma atividade depois da escola. Há cada vez menos skatistas que conhecem a cultura do skate”, critica Yuri. “Para mim, skate é uma cultura e um estilo de vida. Não é um esporte”, diz à Trip Aori Nishimura, 18 anos, japonesa que ocupa a terceira colocação do ranking de street – atrás das brasileiras Pamela Rosa e Rayssa Leal – e mora nos Estados Unidos.

 

De manobra em manobra, essa expansão acabou refletida nas competições internacionais. “A cena masculina cresceu muito no Japão e eles são muito bons em fazer vídeos. Mas, neste momento, acho as mulheres mais fortes que os homens nas duas modalidades olímpicas, street e park”, analisa o skatista Geninho Amaral, que comenta competições internacionais. “Elas estão dominando o ranking mundial e a corrida olímpica no park. Vejo o Japão como potência mundial no skate feminino junto com os EUA e Brasil.” Yndiara Asp, 22 anos, skatista com grandes chances de representar o Brasil em Tóquio, analisa o fenômeno: “As japonesas chegaram em peso nos últimos anos. Até então, não conhecíamos nenhuma. Agora tem um monte delas correndo com a gente.”

Yndi vê um estilo comum entre as japonesas: “Elas têm um skate muito técnico, bem diferente do estilo brasileiro. Para nós, é mais lifestyle. Elas vêm trazendo um skate mais competitivo, muito disciplinado”. Geninho concorda: “O skate sempre foi mais arte do que competição. Mas essa nova geração japonesa tem um estilo voltado para o esporte de alto rendimento, com mais foco e objetivo do que conhecemos do skate arte”. Mami avalia seus colegas de pista: “Muitos dos skatistas japoneses são técnicos e precisos, mas acho que me falta um pouco desses aspectos. Eles sabem a técnica de cada truque, o que é preciso para que ele seja bem executado”.

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Dessa novíssima geração, Geninho destaca Misugu, que lidera o ranking mundial no park. “Com apenas 13 anos, ela tem um nível absurdo nas transições, com manobras como McTwist (540) e aéreos muito altos. Ela vai dar muito trabalho nos próximos dez anos nas competições.” Yndiara também elege Misugu: “É quem mais vem se destacando com manobras que até então nenhuma menina fazia”. A japonesa começou a andar de skate por causa do irmão mais velho e coordena as competições internacionais com as aulas na escola. “Faço as minhas tarefas mesmo quando estou viajando”, conta à Trip. “Ainda tenho muito a aprender, mas farei o meu melhor”, diz, sobre a responsabilidade de ser um dos principais nomes do skate no Japão.

Na cola dela no ranking, está Sakura Yosozumi, 17 anos, que também passou a se aventurar nas pistas por influência do irmão. E foi amor ao primeiro flip. “Quando estava na sexta série, meu irmão me deu seu skate e comecei a andar porque queria que ele me elogiasse!”

Equidade

Misugu e Sakura não veem discriminação nas pistas. Já Aori sentia menos interesse do público em acompanhar skatistas mulheres. “Agora, existem mais competições para meninas. No passado, havia uma enorme diferença de premiação entre homens e mulheres, mas acho que elas estão se aproximando”, diz. Yuri, que conta ter assinado o primeiro vídeo japonês só com skatistas mulheres e ganhou recentemente patrocínio de uma importante marca de skate para seus vídeos, completa: “Muitas empresas começaram a apoiar skatistas, já que há mais demanda por eventos de skate, produtos e comerciais no skate feminino”.

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Apesar do potencial nos negócios e nas pistas das japonesas, Yndi prefere não fazer previsões para a Olimpíada: “Tudo pode acontecer, é um dia que vai definir tudo”. “Mas é bom lembrar que o skate é muito mais do que a Olimpíada”, diz Mami.

Créditos

Imagem principal: YUSUKE KASHIWAZAKI/RED BULL CONTENT POOL

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