por Carol Ito
Tpm #178

Nos últimos anos, assistimos a um boom do skate feminino no Brasil. Com a estreia do esporte na Olimpíada, as mulheres manobram para superar os próximos obstáculos

"Tem mina pra caramba andando. A gente se encontra nas pistas, pega o WhatsApp da outra e vai fazendo amizade”, conta a skatista profissional Débora de Oliveira, a Badel, 28 anos, durante um rolê na praça Roosevelt, no centro de São Paulo. O encontro reuniu dez skatistas mulheres e é um reflexo de como elas vêm usando as redes sociais para organizar encontros e participar de coletivos que visam fortalecer a cena do skate feminino, como é o caso do Minas no skate, The Fresh Girls of Sk8 e Minas na Sessão. “Descobrimos que juntas podemos fazer mais barulho”, diz a skatista profissional Vitória Mendonça, 19, sobre a atuação de mulheres tanto nas pistas quanto nos corres em busca de visibilidade e patrocínio.

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O Circuito Brasileiro de Skate tem categorias femininas nas duas modalidades olímpicas, park e street, e as competições rendem pontos para as atletas, que podem vir a fazer parte da seleção brasileira em Tóquio. “Antes, os organizadores de algumas competições só colocavam as meninas por pressão nossa. Isso mudou quando o skate virou esporte olímpico”, defende Karen Jonz, 35, tetracampeã mundial de vertical e a primeira brasileira a conquistar uma medalha de ouro nos X Games, em 2008. Leticia Bufoni, 25, que já levou três medalhas de ouro nos X Games, no street, concorda e completa: “Outro ponto importante é o fato de o Brasil ter uma geração muito boa e competitiva, tanto no feminino quanto no masculino, o que ajuda o esporte no país. Temos nomes como Yndiara Asp, Pamela Rosa, Fadinha e muitas outras representando muito bem as mulheres”.

Karen lembra que quando começou a competir, há 16 anos, a categoria feminina costumava ser deixada em segundo plano: “Chegava num campeonato às 7 da manhã e os organizadores diziam que o feminino tinha sido cancelado porque não ia dar tempo. Quando a gente participava, era maltratada, não tínhamos premiação ou recebíamos os piores prêmios”. Leticia reforça: “Muitas vezes tive que competir contra homens, pois não existiam campeonatos femininos e ainda por cima não pagavam nada”.

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A Olimpíada também vem influenciando os planos das brasileiras. Competir e, quem sabe, morar na gringa, costuma ser o sonho das skatistas que querem se profissionalizar. “Comecei a ir para os Estados Unidos porque sabia que tinha uma cena lá”, conta Karen. Com duas medalhas de ouro na categoria street dos X Games, Pamela Rosa, 19, de São José dos Campos (SP), sonha em morar nos Estados Unidos, mas resolveu adiar o projeto por conta das competições que vão rolar antes da Olimpíada.

“Tem muito campeonato no Brasil que gera pontos para entrar na seleção, então seria muita correria ir e vir sempre”, explica a atleta. “Com o STU [Skate Total Urbe, o equivalente ao circuito brasileiro de skate] e outros com categoria feminina em todas as modalidades, dá pra pensar em viver de skate no Brasil, o que antes era muito difícil”, diz a catarinense Yndiara Asp, 21, cotada para uma das três vagas da seleção brasileira no park. “Eu não competia no Brasil há muitos anos e nos últimos dois pude disputar quatro campeonatos em casa”, diz Leticia, que mora há 12 anos nos Estados Unidos.

Para o skatista Bob Burnquist, presidente da CBSK, os homens têm mais nível técnico e as mulheres acabam se inspirando em suas manobras. Consequentemente, o mercado apoia mais o skate masculino. A organização, segundo ele, não desenvolve ações direcionadas ao feminino e o crescimento da categoria é resultado de um processo de evolução das atletas ao longo de gerações, o que não tem necessariamente a ver com a estreia do esporte na Olimpíada. “Você vê a Rayssa Leal [no street], de 11 anos e um skate bem avançado. Ela se inspirou na Leticia Bufoni, que se inspirou na Elissa Steamer [americana de 43 anos que ganhou quatro medalhas de ouro nos X Games na modalidade street e foi a primeira mulher a se tornar skatista profissional, em 1998]. A cada geração, vai aumentando, naturalmente”, defende Bob.

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A luta por equidade de gênero no esporte não é de hoje. Em 2005, as americanas Cara-Beth Burnside (skatista que ganhou três medalhas de ouro nos X Games, no vertical), Mimi Knoop (três medalhas de bronze nos X Games, também no vertical) e o treinador Drew Mearns fundaram a The Alliance, uma organização que representa skatistas mulheres de vários países, incluindo as brasileiras Karen Jonz e Ana Paula Negrão (skatista e fotógrafa de skate desde 1995). A Alliance desempenhou um papel fundamental para que homens e mulheres passassem a receber o mesmo prêmio nos X Games, a partir de 2008.

Polêmica

Por aqui, a discussão esquentou no ano passado, quando uma foto viralizou na internet por conta da discrepância de valores entre as premiações de uma competição. A imagem mostrava Yndiara e o skatista Pedro Barros, vencedores do Oi Skate Jam, realizado em Itajaí (SC), segurando cheques com seus prêmios: ele com R$ 17 mil e ela com R$ 5 mil. Yndi ficou surpresa com a repercussão: “Isso mostra o quanto as mulheres estão com força e vontade pra defenderem a equidade”, disse à Tpm, na época. Já a organização do evento declarou em nota que considerou a “participação qualitativa e quantitativa de skatistas profissionais” e que, por essa razão, teria julgado adequado oferecer um prêmio menor às mulheres.

Enquanto isso, marcas que patrocinam skatistas começaram a olhar com mais cuidado para a categoria feminina nos últimos anos. Em 2017, a Vans incluiu ações direcionadas ao skate feminino em uma campanha global. No ano seguinte, igualou premiações da competição mundial Vans Park Series e passou a oferecer aulas gratuitas para mulheres em uma pista particular, em São Paulo. Mas a diferença ainda é significativa: hoje, patrocinam 12 skatistas brasileiros – nove homens e três mulheres. Já a Volcom apoia seis skatistas homens e uma mulher no Brasil. Há três meses, Vanessa Rodriguez atua como gerente de marketing de skate feminino na marca, prova de que estão de olho neste universo.

O interesse pelo esporte extrapolou o segmento. A Farm lançou seu primeiro skate, como parte da sua coleção feminina, em 2012 e repetiu em 2015. “Sempre estamos de olho nos movimentos da rua e, quando percebemos mais meninas andando de skate e utilizando o carrinho para mobilidade, tivemos desejo de criar para esse público, conta Kátia Barros, diretora da marca. Já a Melissa lançou seu skate em 2016. Lá fora, a italiana Emporio Armani lançou no ano passado uma coleção-cápsula inspirada na modalidade.

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“Na era das redes sociais, é cada vez mais importante registrar manobras e o lifestyle de quem quer viver do skate”, diz a jornalista Grazi Oliveira, 29, que criou o Go Channel, um canal no YouTube para dar visibilidade ao skate feminino. “Muitas meninas me pedem para gravar vídeos que mostrem as manobras mais embaçadas, num pico um pouco mais difícil, com mais cuidado na filmagem”, explica Grazi. Lá fora, o longa Skate Kitchen, baseado na história real de um coletivo homônimo de garotas skatistas de Nova York, foi uma das sensações do Festival Sundance 2018.

Há também iniciativas para incentivar o skate feminino nos bowls e nas pistas particulares nacionais: “Hoje tem rolê gratuito em São Paulo praticamente todos os dias, dá até para escolher. Sempre tem seção free para as minas na Bowl House e Cave Pool [na zona oeste], por exemplo”, diz Badel.

Mas nem sempre foi assim. “A geração de minas que veio antes de mim entrava na pista e tomava pedrada. Elas tinham que lidar com todo o preconceito”, diz Karen. “Gostava muito quando me confundiam com um homem e não tinha nada a ver com identidade de gênero. É que rolava muito ‘elogio’ do tipo ‘nossa, você nem parece uma menina andando’. Cheguei a raspar o cabelo, usava roupas gigantescas para evitar que vissem meu corpo durante algum movimento.”

A paulistana Priscila Morais, 32, anda há 20 anos e relembra o quanto o skate era estigmatizado na época em que começou. “A menina que andava era tachada de sapatão e drogada. Eu precisava deixar o skate na casa de um amigo porque meu pai escondia ou quebrava para que eu não andasse”, conta ela, que praticava com os garotos do bairro. O esporte a ajudou a enfrentar o cotidiano difícil na periferia paulistana. “O skate salvou a minha vida. O lifestyle urbano abriu minha cabeça para música, literatura, passei a conhecer pessoas e lugares.”

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Assim como muitas mulheres de sua geração, Priscila, que hoje é corretora de imóveis, teve que abdicar da carreira no esporte por falta de apoio financeiro. “Entre 2004 e 2007, fui a muitos campeonatos, tinha patrocínio, achava que ia viver disso. Mas percebi que precisaria ter mais do que o skate feminino podia me dar naquela época. Fui estudar, trabalhar e continuei andando por hobby porque eu amo”, explica. “As garotas que continuaram essa história foram competir fora do Brasil e tiveram a oportunidade de morar em outro país.”

Longe do preconceito de décadas atrás, a família de Pamela a apoiou ao longo de cinco anos em busca de patrocínio até ela se tornar skatista profissional, em 2017. “Eles me ajudaram muito e hoje eu posso ajudar de volta”, diz a atleta, que é cotada para a seleção brasileira no street. De manobra em manobra, as skatistas droparam preconceitos e foram adiante.

Créditos

Anairam de Leon

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