Tony Alva, o cachorro louco

por Eduardo Ribeiro

Filme conta a história do skatista que quebrou barreiras, criou manobras fundamentais para o skate moderno e virou ícone do lifestyle urbano

Tony Alva, nome dos mais influentes na história do skate, tem sua vida lembrada no documentário The Tony Alva Story. Um dos responsáveis por revolucionar o esporte nos anos 1970, ele foi o pioneiro em muitas transformações que ajudaram a popularizar o skate — de manobras até hoje em evidência, como o frontside air, ao talento na pista vertical. “Ele é a raiz de muitas das coisas que tornam o skate legal”, diz um dos diretores, Coan “Buddy” Nichols, que conversou com a Trip sobre a produção e, principalmente, sobre a trajetória do skatista.

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Tony foi também uma das personalidades mais influentes na construção do lifestyle que cerca os amantes das rodinhas até hoje, algo que vai muito além das pistas. “O skate é um estilo de vida para pessoas fora do padrão, esquisitas e desajustadas. Pessoas que querem radicalizar e praticar algo, mas não querem seguir muitas regras. Acho que Tony ajudou a formar esse lado do esporte.” Em dias como os atuais, em que o skate alcança o status olímpico, o mais antigo skatista profissional do mundo ainda é percebido como alguém que preserva a raiz underground que cerca essa forma de expressão, defendendo a veia de contracultura, algo que considera essencial para a alma do ‘esporte’.

Essa postura fez dele uma verdadeira lenda pop, alguém que sempre exaltou a marca pessoal, a independência e a atitude, modo de ser que tornou-se uma identidade para as gerações que se seguiram. E é a construção de tal personalidade que emerge no documentário de Nichols e Rick Charnosky, que acaba de rodar os festivais de cinema e em breve estará disponível nos serviços de streaming. O filme cobre e analisa a ascensão, a queda e a tentativa de voltar ao topo, desde os anos de Dogtown e os Z-Boys, tempo em que dividia a atenção com outros nomes históricos, como Jay Adams e Stacy Peralta.

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O jeito de Tony andar representa o marco zero do skate moderno. Nos anos 70, ele impactou os campeonatos e se tornou o primeiro skatista superstar. Imprimiu uma pegada agressiva e manteve fidelidade à ética das ruas mesmo nos tempos de fama, por mais estranho que isso possa parecer. O filme compõe um retrato íntimo, que aborda sensivelmente o início humilde em Santa Mônica, sua implosão movida a drogas e a posterior busca pela recuperação da saúde física e emocional. Na entrevista a seguir, Nichols dá mais detalhes da empreitada.

Trip. Conte-nos como você se envolveu com um documentário sobre a história do Tony Alva e sua relação pessoal com o skate.

Coan "Buddy" Nichols. A gente faz um programa com histórias do skate para a Vans com Jeff Grosso desde 2011 —  é uma análise profunda e precisa de como o skate evoluiu e tomou forma. Eles perguntaram se poderíamos fazer um episódio para a edição especial do 60º aniversário de Tony. Eles queriam que fosse um pouco mais longo e mais profundo do que apenas um episódio para web. E nós assumimos porque o Tony é a raiz de muitas das coisas que tornam o skate legal e pensamos que poderíamos contar uma boa história. Criamos um filme de 25 minutos e depois voltamos lá e pedimos para a Vans, imploramos, para que nos deixassem fazer um filme de uma hora, porque tínhamos tantas imagens e fotos incríveis. Eles enfim concordaram e finalmente terminamos a tempo do aniversário de 61 anos do Tony.

 

Tony Alva se tornou o membro mais icônico da equipe Dogtown. O que você acha que o fez diferente dos outros caras, como Jay Adams e Peralta? Primeiro, todos os caras que você mencionou são lendas e contribuíram com grandes coisas para o skate, mas Tony é o cara que nunca se desviou do caminho em que estava desde o início. Ele continuou sendo um skatista radical e surfista e continuou andando. E ele inventou o frontside air!

Você sabia que, nos anos 1990, houve uma marca clássica de tênis de skate chamada "Alva Shoes" aqui no Brasil? Eu me pergunto se o Alva já ouviu sobre isso e o que ele pensaria. Eu estive no Brasil nos anos 90 e vi os tênis em uma loja de skate. Também fizemos um episódio de "Love Letters from Brazil" e nos familiarizamos com as estranhas marcas de imitação dos anos 1980 e 90. Só sei que ele era bem pobre nessa época, então provavelmente ficaria muito feliz por ter feito algum dinheiro com os tênis.

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O público já andava sedento por um documentário sobre a história do Tony há uns bons anos. Mas você acha que esse foi o momento certo na curva temporal do skate para lançar The Tony Alva StoryAcho que esse tipo de história é sempre importante para o skate. Qualquer cultura precisa conhecer suas raízes, a molecada que está chegando, velhos, garotas... quem gosta de skate pode assistir algo assim e se orgulhar de fazer parte de algo grande e radical como o skate. O skate tem ótimas histórias. 

Tony é considerado por muitos o pai do skate contemporâneo. Na sua opinião, depois de todas as pesquisas e entrevistas feitas para o documentário, quais são as coisas mais importantes que ele trouxe para a cultura do skate? Ele trouxe o "foda-se" ao skate. O skate é um estilo de vida para pessoas fora do padrão, esquisitas e desajustadas, pessoas que querem radicalizar e praticar algo, mas não querem seguir muitas regras. Acho que o Tony ajudou a formar esse lado do skate, que poderia ter se tornado um esporte qualquer, com regras e concursos, pais e adultos controlando o esquema, mas, em vez disso, se desenvolveu como algo à margem, por causa de pessoas como ele.

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Como você acha que as novas gerações do skate serão influenciadas pelo estilo de Tony Alva? Eu acho que toda geração de skatistas é influenciada pelas gerações anteriores. No skate, o estilo faz a diferença. É importante, porque o skate é uma arte, como dançar, mais do que um esporte. Assisto alguém dançando e não faço ideia de como se chama aquele movimento ou qualquer história da dança, mas sei quando parece bom. O bom estilo é algo óbvio. Acontece o mesmo com o skate, porque pessoas como Tony têm um estilo incrível e ele influenciou milhões de skatistas nos últimos 45 anos.

Você teve alguma dificuldade ou cuidado especial para expor os problemas do Alva com a bebida e sua transição daquela imagem de “Mad Dog” para um cara sóbrio e espiritualizado? Definitivamente, levamos um bocado de tempo com essa parte transitória de sua vida e história. Queríamos apresentar de uma maneira que não fosse pregação ou cafonice. Queríamos que fosse autêntico e real. Provavelmente, essa parte foi a que mais passamos tempo editando e reeditando.

Que outras lendas do skate você acha que merecem um documentário e que gostaria de dirigir? Não tenho muita certeza, esses documentários são muito difíceis de se fazer!

Muitos skatistas que costumavam ser os bad boys no passado, levando uma vida de excessos, tornaram-se mais centrados, sóbrios e íntimos a Deus quando ficaram mais velhos, como Christian Hosoi. Mas você acha que ele ou o Tony seriam os mesmos, andariam da mesma maneira e teriam se tornado referências tão fortes se estivessem sóbrios e se comportassem desde o início? Definitivamente, não. Tanto Tony como Christian Hosoi usavam drogas e bebiam, e isso era uma peça fundamental de quem eles eram. Eles até poderiam ter sido grandes influências e pessoas incríveis sem as drogas ou o álcool, mas teriam sido diferentes.

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Imagem principal: Divulgação

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