por Carol Ito

Faltando dois anos para a Olimpíada, as skatistas Yndiara Asp e Karen Jonz explicam porque é importante repensar as premiações do skate feminino

Poderia ser só mais um campeonato de skate em que a premiação é desigual entre competidores homens e mulheres. Porém, a foto divulgada nas redes sociais, que coloca os campeões lado a lado, mostrando o valor que cada um recebeu, trouxe a questão à tona. Yndiara Asp (20) foi premiada com 5 mil reais, enquanto Pedro Barros (22) ganhou 17 mil; os dois foram os vencedores do campeonato Oi Skate Jam, realizado entre os dias 24 e 28 de janeiro, em Itajaí (SC).

O evento foi exibido na TV Globo e reuniu grandes nomes do skate nacional. Pela primeira vez incluiu o feminino na modalidade park, o que foi comemorado pelos atletas e por André Barros, pai de Pedro e um dos organizadores do evento, que falou ao público antes do início da competição. “Estamos comprometidos com o debate sobre igualdade de gênero e vamos continuar nos esforçando para a inserção da mulher no skate”, dizia um dos trechos divulgados em nota pela organização, depois da repercussão negativa que a foto gerou nas redes sociais.

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Por que, então, esse comprometimento não é refletido no valor dos prêmios? A Tpm levou essa questão para Yndiara Asp, especialista na modalidade bowl, e para a skatista Karen Jonz, tetracampeã mundial na modalidade vertical, que também participou da competição.

Yndi explica que as mulheres tiveram um começo tardio no skate, então, é mais difícil desmistificar a ideia de que o esporte é só para homens. Para alcançarem igualdade, ela acredita que "falta mais incentivo para o feminino, menos preconceito e mais valorização ao esporte!". Mesmo compreendendo o contexto, ela ficou surpresa com a repercussão gerada pelo prêmio. "Isso mostra o quanto a questão feminina está em alta, o quanto as mulheres estão com força e vontade pra defenderem a equidade", reflete.

“Isso [repercussão nas redes] mostra o quanto a questão feminina está em alta e as mulheres, com força e vontade pra defenderem a equidade”

Para Karen, a repercussão serviu para que as pessoas, incluindo as próprias skatistas, se atentassem para algo que pode passar despercebido: “Estamos acostumados a achar que a mulher vale menos. É difícil para repensar, até porque, na maioria desses eventos, os organizadores são homens e tudo bem ter um prêmio desproporcional”. Antes de procurar possíveis culpados, ela defende que o principal “é pensar daqui pra frente e que isso tem que mudar rápido. Agora”. 

Não é de hoje que Karen luta por premiações mais igualitárias. Ela conta que recebeu prêmios menores em campeonatos profissionais durante alguns anos, competindo nos Estados Unidos, até se unir ao The Alliance, uma organização formada por meninas skatistas. “Conseguimos um acordo melhor e muito próximo para ambas categorias em 2009, no X-Games. Os valores se mantém até hoje, foi um grande divisor de águas”, lembra.

 

No Brasil, as esportistas também vêm se mobilizando nas redes, de acordo com Yndi: "temos vários grupos de skate feminino, falamos bastante sobre esse assunto. A minha conclusão é que a união faz a força, e não a separação".

As premiações ajudam as atletas a enxergar uma carreira mais sólida no esporte e Karen, inclusive, já conseguiu se manter por um ano com o valor de um prêmio que recebeu. “Isso faz com que as meninas consigam viver do skate e treinar mais”, comenta. "Eu acho que isso [equidade] vai acontecer gradativamente, à medida que o skate feminino vai crescendo e conquistando seu espaço. Muita gente não conhece a história do esporte e não sabe que já foi uma conquista ter a categoria feminina num evento desse porte, que até então só tinha masculino", afirma Yndi.

“Estamos acostumados a achar que a mulher vale menos. É difícil repensar, até porque na maioria desses eventos os organizadores são homens”

A organização do evento de Itajaí declarou que considerou a “participação qualitativa e quantitativa de skatistas profissionais” e que, por essa razão, teria julgado adequado oferecer um prêmio menor às mulheres. Karen observa que a discrepância não se justifica, considerando que as horas de treinamento e a capacidade de ambos os gêneros são iguais para se chegar à final de uma competição dessa magnitude.

O episódio mostrou que a mudança é urgente, considerando que o skate será esporte olímpico em 2020. “Não adianta a gente ficar lutando por migalha, porque senão isso só vai mudar quando a minha filha tiver filha. A gente não tá em 2003 quando não tinha mina andando de skate. A situação é outra”, explica Karen. Yndi vê o lado positivo da história e espera que "toda a visibilidade que o skate está tendo nesse momento sirva para que mais meninas andem". Fica o convite para a reflexão.

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