Em sua academia de ioga, que ocupa a mesma sala com vista para 
o Corcovado há mais de 50 anos, Orlando Cani treinou Rickson Gracie, Bernardinho e outros campeões de jiu-jítsu, judô, ciclismo, natação

Orlando Cani achou estranho que tivessem marcado uma palestra para dezembro. "Quem é que vai vir assim tão no fim do ano?", disse para sua mulher, Ilara, enquanto iam para a academia de ioga e ginástica que leva seu nome em Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro. Quando fez 80 anos, em novembro do ano passado, Orlando viajou com a família, como costuma fazer em seus aniversários – ele e Ilara são casados há 56 anos e têm duas filhas e dois netos. Não esperava nem pretendia fazer algo mais. Mas logo descobriu que a tal palestra era na verdade uma festa surpresa. Num telão, Orlando assistiu a depoimentos de alguns dos muitos atletas que treinou: Rickson Gracie, Bernardo Rezende, Fernanda Keller, Flavio Canto, Murilo Bustamante, Dani Genovesi, Alexandre Paiva. "Aprontaram uma pra mim", disse emocionado o "mestre", como quase todos o chamam, sentado com amigos e familiares no chão da sala em que deu aulas por mais de cinco décadas.

Quando chegou sozinho ao Rio de Janeiro, vindo do interior de Santa Catarina para estudar, Orlando tinha apenas 13 anos. Era o fim da década de 40 e ele logo se tornou "malandro de praia". "Não tinha surf ainda, mas a gente pegava jacaré quase todo dia em Copacabana", conta Orlando na sala de seu apartamento, em um prédio antigo da rua Bulhões de Carvalho, bem na divisa do bairro em que vive até hoje com Ipanema. "Era antes do aterro, o mar era muito grande. Se houvesse o surf naquela época teríamos tido campeonatos aqui, as ondas eram fantásticas." As brincadeiras no mar já mostravam a paixão que o menino desenvolveria em breve pelo esporte: aos 17 anos, Orlando se alistou, com o sonho de ser piloto de caça. Acabou virando paraquedista, professor da Escola de Educação Física do Exército, e, principalmente, atleta. Assim como vários dos brasileiros que disputaram as Olimpíadas este ano, Orlando era um sargento desportista aos 20 anos — e pelos próximos nove sua vida foi treinar, dar aulas e competir. Ele foi campeão carioca de natação e ginástica olímpica ("Dentro daquele padrão antigo, né", explica, modesto) e, duas vezes, campeão mundial de pentatlo militar, que reúne tiro, corrida e natação com obstáculos diversos, lançamento de granadas e 8 quilômetros de cross-country.

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Entre a primeira e a segunda medalha de ouro no pentatlo, em 1960 e 1965, Orlando descobriu o hatha ioga com Jean Pierre Bastiou, pioneiro francês que alguns anos antes abrira um espaço para ensinar a prática em Copacabana. "Eu já lia sobre, antes, e tinha sido aluno de ginástica corretiva do Jean Pierre, mas nessa época eu embarquei muito na ioga e percebi que meus resultados subiram incrivelmente, feito um foguete. Principalmente por três fatores importantes: o relaxamento, a respiração e a concentração", conta.

A JORNADA DO HERÓI

Orlando logo se tornou o professor de educação física responsável pela academia do francês, que, embora também formado, tinha apenas o diploma de seu país de origem. Foi aos 29 anos que Orlando largou o exército e as competições, deixou crescer uma barba que nunca mais tirou (sempre foi bem aparada, porém, e segue hoje, quando já está quase toda branca) e decidiu se dedicar a treinar outros atletas. Alguns anos depois, no começou da década de 70, comprou o espaço de Jean Pierre e fundou a Academia Orlando Cani, que fica desde então na mesma sala, com vista para o Corcovado, na avenida Nossa Senhora de Copacabana.

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Às posturas e técnicas de respiração e meditação da ioga Orlando foi com o tempo acrescentando outros movimentos – do kempô, do tai chi chuan, de uma arte marcial indiana chamada kalaripayat, da dança –, num processo de pesquisa em que acabou criando um método próprio, uma série de movimentos lentos, integrados entre si e com a respiração, que hoje ele chama de bioginástica. Na década de 80, porém, quando a prática já estava praticamente completa, era conhecida como ginástica natural. "Mas, infelizmente, o meu primeiro assistente, o Alvaro Romano, depois de 12 anos comigo, acabou incorporando o nome como dele. Fiquei muito chateado na época. Mas passa, acho que tudo passa", conta Orlando. [Alvaro Romano entrou em contato com a Trip e publicamos aqui o seu ponto de vista, que havia faltado na reportagem original. Romano afirma que nunca foi assistente de Orlando, apenas aluno de ioga, que foi "o primeiro do pessoal do jiu-jítsu a ir lá" e que falou "dele para todo mundo, inclusive o Rickson e o Murilo, citados na reportagem". Ainda segundo Romano, a marca ginástica natural foi criada por ele e "nunca existiu esta marca antes, seja com o Cani ou na área de fitness". "Meu trabalho é reconhecido por toda a área de educação física, presente em 36 países com mais de 400 professores certificados", conta Romano.]

Bioginástica veio por conta do significado de "bio": vida. "Se eu estiver atento ao meu corpo, aos meus movimentos, à minha respiração, eu estou conectado. Mas se fizer o movimento pensando na conta que eu vou pagar mais tarde, na ação que vou fazer depois ou que fiz ontem, estou fora. A bioginástica é a busca do instinto perdido por nós: a gente perdeu a respiração natural, normal, perdemos a coordenação motora", resume.

Como professor, Orlando "teve vários alunos incríveis", mas há uma história sobre Rickson Gracie que o destaca nessa lista de estrelas. Um dia, depois de muitos treinos juntos, ele disse que iria fazer a aula sozinho, que Orlando iria apenas ver. O momento ficou marcado na mente dos dois. "Quando ele terminou, eu estava chorando, as lágrimas não paravam de correr. Eu só disse isso: ‘Estava preocupado que você fosse sair pela janela voando’", lembra Orlando. No depoimento que gravou para o aniversário de Orlando, o lendário lutador diz sobre esse dia: "É como se ele tivesse me dado a minha faixa preta". Outro esporte que descobriu na bioginástica uma ferramenta única foi o vôlei: Orlando treinou com Bernardinho, com as seleções masculina e feminina de quadra e também, por vários anos, com a dupla de praia multicampeã Shelda Bedê e Adriana Behar. "Sempre busquei evoluir como profissional e como ser humano, e nessa busca por mais serenidade e autoconhecimento conheci o mestre Orlando Cani, que se tornou meu amigo e uma referência para tantos atletas que utilizam suas técnicas e seus ensinamentos", diz à Trip Bernardinho. "Para citar um exemplo, sempre que estamos num momento de grande tensão ou diante de um grande desafio e queremos estar lúcidos e focados na ação, eu e meu filho Bruno, hoje capitão da seleção brasileira, brincamos dizendo: ‘Hoje é Orlando Cani 100%’."

PARA A POSTERIDADE

"Eu nunca me preocupei em tirar fotografias com atletas, grandes ou pequenos, que eu ajudei a fazer campeões. Será que eu vou ser reconhecido por esse trabalho todo? Eu nunca me preocupei com isso", diz Orlando. Mesmo com problemas no joelho e no tendão de aquiles, ele continua fazendo seus próprios treinos, embora mais tranquilos. "Eu reconheço meus limites. Apesar de que, internamente, na minha alma, se eu não tivesse essas duas coisas que surgiram, estaria fazendo muito mais", afirma. "A bioginástica tem esse aspecto global: se eu durasse 200 anos, ela iria mudando, e eu peço que meus alunos cresçam e, dentro da sua criatividade, possam criar coisas novas." Na Academia Orlando Cani, hoje, ele dá apenas palestras (como a que iria fazer no dia da festa surpresa) e cursos periódicos sobre respiração e meditação. Seus assistentes desde o começo da década de 2000, Marcelo Barros e Tiago Haddad assumiram o dia a dia do espaço, que alugaram de Orlando. Mas o mestre continua bastante próximo: durante a entrevista, eles estavam lá, transcrevendo uma apostila sobre relaxamento. "Nosso foco é disseminar a bioginástica", diz Marcelo, que acaba de passar dez meses nos Estados Unidos. "Queremos fazer a formação de professores em diferentes lugares. E expandir a prática, que é nossa missão", completa Tiago.

Ainda no apartamento, decorado com peças orientais (Orlando já fez diversas viagens para a Índia, e Ilara, ainda mais do que ele), entre fotos e revistas antigas que tira de uma estante de madeira, Orlando encontra um grande caderno retangular com capa dourada, presente que ganhou em um outro aniversário, há mais de 40 anos. Dentro, mensagens escritas à mão por uma turma de alunos – alguns ainda vão à academia – agradecendo e homenageando o mestre. Há uma, assinada por Thais, que diz: "Quando pensei que você fosse mais que um professor de ioga, descobri que não existe nada maior que um verdadeiro professor de ioga".

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Créditos

Imagem principal: Fernando Young

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