por Carol Ito

Livro ”Uma história da tatuagem no Brasil”, de Silvana Jeha, revela o país dos marinheiros, presidiários e prostitutas

Mais do que simples desenhos gravados sobre a pele, as tatuagens contam histórias. Quando marinheiros temiam morrer em alto mar, por exemplo, tatuavam as iniciais do nome na esperança de que seus corpos pudessem ser identificados. Soldados tatuavam bandeiras como forma de expressar patriotismo. Entre presidiários e prostitutas, era comum tatuar a frase “amor de mãe”, o nome da pessoa amada ou símbolos religiosos. Essas e outras narrativas sobre tatuados estão reunidas no livro Uma história da tatuagem no Brasil, de Silvana Jeha, lançado em setembro, pela editora Veneta.

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Apaixonada por histórias de marinheiros – o tema de sua tese de doutorado, inclusive, foi sobre os da Armada Nacional Imperial do Brasil, do século 19 –, a historiadora paulistana se deparou com registros de tatuagens de 1835, que acabaram servindo de inspiração para a criação do livro. Confinados em alto mar por meses ou até anos, os marujos se tatuavam nos navios e, em terra firme, espalhavam a prática. “Eram aventureiros que conheciam muita coisa antes de todo mundo, como se fossem 'a internet' antes da internet. Foram muito importantes para difundir a tatuagem no ocidente”, conta Silvana.

“Li muitos depoimentos de que pessoas que foram presas por ter tatuagem, incluindo imigrantes que foram discriminados”
Silvana Jeha, historiadora

Intrigada com a falta de pesquisas sobre tatuagem, ela passou cinco anos investigando o tema em arquivos da Biblioteca Nacional, no Museu Penitenciário Paulista, em registros da Marinha e na literatura, que ofereceram um panorama não só dos tatuados brasileiros, mas também de imigrantes que chegaram na região sudeste nas décadas de 20 e 30. A tatuagem indígena, presente no Brasil muito antes de 1500, não está na obra por merecer “um livro à parte”, segundo ela. “Usei a tatuagem como um condutor para as pessoas se interessarem pela história do Brasil”, explica.

Do crime ao afeto

O livro abrange o período do início do século 19 até 1970, quando houve uma espécie de virada na história da tatuagem no Brasil, que passou a ser popular para além das classes trabalhadoras: “Não achei ninguém que fosse ao menos da classe média e que se tatuava antes dos anos 70. Com certeza houve, mas esconderam bem. Quando a classe média começa a se tatuar, a prática ainda é considerada uma transgressão [junto com a maior exposição de partes do corpo que antes ficavam cobertas], mas deixa se ser associada ao crime”, explica.

“O que eu mais vi foi tatuagem ligada à religiosidade e, principalmente, ao cristianismo”
Silvana Jeha, historiadora

Grande parte das fotos de tatuados no período foi publicada nas páginas policiais de jornais, como forma de identificar pessoas procuradas pela polícia ou ligadas à criminalidade: “Li muitos depoimentos de que pessoas que foram presas por ter tatuagem, incluindo imigrantes que foram discriminados, como japoneses, sírio-libaneses e italianos. Antigamente, tatuagem era ‘coisa de bandido’, como alguns dizem. Mas antes de ser coisa de bandido era uma cultura popular”, explica Silvana, que, em sua pesquisa, descobriu que cerca de 40% dos presidiários haviam sido tatuados fora da cadeia.

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No fim do século 19, era comum ver anúncios de fugas de pessoas escravizadas, que poderiam ser reconhecidas pelas tatuagens e escarificações (técnica de produzir cicatrizes no corpo com objetos cortantes, utilizada em rituais de grupos étnicos africanos). Nos arquivos policiais, estavam as mulheres tatuadas, em geral, prostitutas e presidiárias. Em busca de relatos mais humanizados, Silvana foi em busca de escritores como Machado de Assis, Pedro Nava, João do Rio, Carlos Drummond de Andrade, Plínio Marcos e Paulo Lins, que tiveram trechos de algumas obras publicados em seu livro. “Recorri aos ficcionistas porque eles têm uma visão apurada sobre o mundo e não ficam criminalizando a tatuagem.”

“Antigamente, tatuagem era ‘coisa de bandido’, como alguns dizem. Mas antes de ser coisa de bandido era uma cultura popular”
Silvana Jeha, historiadora

Depois de consultar uma quantidade imensa de arquivos e fotografias, Silvana constatou que a tatuagem esteve muito mais associada à fé do que ao crime ao longo da história. “O que eu mais vi foi tatuagem ligada à religiosidade e, principalmente, ao cristianismo. O 'signo de Salomão' ou 'estrela de cinco pontas', que tem relação com uma passagem bíblica, foi o símbolo que mais apareceu na pesquisa, seguido de outros elementos da fé cristã, como o coração flechado (que representa coração da Virgem Maria), a cruz (fé) e a âncora (esperança)."

As marcas que as pessoas eternizam no próprio corpo também dizem muito sobre sentimentos universais, como escreve a autora no capítulo dedicado à relação entre tatuagem e afeto: “Certamente, em algumas ocasiões, tatuagem é coerção, violência. Em outras, um ritual de pertencimento. E também de amor”.

Créditos

Imagem principal: Creative Commons

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