As muitas versões de
um paraíso

por Cesar Calejon

Vavá Ribeiro, um dos fotógrafos brasileiros mais experientes do Havaí, exibe em livro as várias facetas da ilha

Vavá Ribeiro é um dos fotógrafos brasileiros mais experientes e respeitados no Havaí. Ao longo de quase quatro décadas de profissão e vinte anos visitando as ilhas, ele desenvolveu amizades com algumas das principais personalidades do surf e da cultura havaiana. “Comecei a fotografar por conta das viagens para pegar onda na América do Sul, no Peru. Eu sempre tinha uma câmera na mão, mas não sabia muito bem o que queria fazer da vida. Então, acabei cursando design na faculdade e sempre tive aptidão para linguagem audiovisual: desenho, pintura, essas coisas”, relembra.

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A primeira vez que Vavá foi ao Havaí foi na virada de 1998 para 1999, à convite do amigo e surfista profissional Conan Hayes. “Fui passar o Natal lá e, quando eu cheguei, a casa estava em obras. Então fomos para a casa de um amigo dele, o Shane Dorian. Por acaso, bem neste fim de semana, ali estavam reunidos alguns dos principais surfistas da época, como Kelly Slater, Rob Machado, Benji Weartherley, Doug Silva, entre outros. Toda a geração Momentum [filme do cineasta Taylor Steele] estava passando o Natal naquela casa e eu entrei ali de gaiato”, conta o fotógrafo, que a partir daí virou amigo de algumas lendas do surf e começou o processo de imersão na cultura havaiana que resultaria na publicação do livro North Shore cerca de duas décadas depois. 

“Eles foram me mostrando um pouco do Havaí e, basicamente, todos os anos depois disso, entre dezembro e março, eu acabava indo para o Havaí. É a época em que Nova York fica praticamente inabitável, pois faz muito frio, não tem nada para fazer e os aluguéis são muito caros. Aqui, eu não pagava aluguel, porque ficava com amigos, andava de bicicleta, pegava onda e estava sempre com a câmera na mão. O livro North Shore é o resultado dessas experiências que eu tive ao longo dos anos no Havaí”, acrescenta Ribeiro.

Segundo ele, o livro é uma saudação a troca entre a idealização e a realidade do Havaí. A publicação retrata um lado mais obscuro do paraíso, mostrando algumas lendas urbanas, violência e o perigo das próprias ondas, por exemplo. “Esse lado caracteriza certo ‘undertone’ da ilha, que geralmente é percebida como um lugar maravilhoso, mas que também tem esta energia intensa. Tentei retratar essa intensidade utilizando um lado mais sombrio da fotografia”, revela o fotógrafo.

Batemos um papo com Vavá sobre lendas do surf, a cultura havaiana e o lançamento do livro North Shore, se liga:

Trip. Como e onde você começou a fotografar?

Vavá Ribeiro. Comecei a fotografar quando eu ainda era adolescente, como amador. Depois eu fiz um curso de fotografia na faculdade. O meu cunhado era fotógrafo e meu avô também sempre estava com a câmera na mão. Quando estava na faculdade de design, tranquei por algum tempo e fui viajar. Fiquei uns meses em Nova York e algumas pessoas que eu conheci na cidade eram assistentes de fotógrafos. Um dia, comecei a trabalhar de assistente junto com eles, como segundo ou terceiro assistente de estúdio. Foi então que eu desenvolvi essa afinidade com a fotografia, porque ela começou a fazer parte do meu universo, da minha rotina. Nessa época, todo mundo tinha uma câmera na mão e fotografava tudo o tempo todo, assim fui criando minha linguagem. De certa forma, entendi que estava a fim de fazer aquilo e comecei a levar mais a sério. Comecei a praticar a fotografia com mais freqüência e seriedade. Assim as coisas foram acontecendo. Eu fui desenvolvendo a minha carreira e voltei para o Brasil.

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Você vivenciou, muito fortemente, a cultura havaiana e a amizade destes ícones do surf. O que você quer transmitir com o North Shore? Quando eu era criança, não existia internet ou Instagram. A nossa janela para o mundo durante a minha juventude eram as revistas de surfe. Tinha uma banca em Ipanema, que vendia um ou dois exemplares por mês. Você precisava ter sorte para chegar à banca e ser o cara que iria comprar as únicas cópias. Quando a gente conseguia, ficávamos estudando as pranchas, personagens, ondas, lugares do mundo onde seria legal surfar. Era um sonho. Desde moleque, sempre tive esse desejo de viajar pelo mundo surfando. Acho que a minha geração inteira viveu isso. Assim, eu criei na minha cabeça uma ideia de como seria o Havaí.

Quando comecei a viajar, muitos anos depois, passei a fotografar inusitadamente. Depois, editando o material e olhando para as fotos, eu tive um estalo. Por volta da minha terceira temporada, eu percebi que algumas fotos me lembravam muito este sentimento de déjà vu. Como se elas lembrassem algo que eu havia vivenciado somente na minha imaginação. Então, eu comecei a fotografar e editar estes elementos que transmitem esta sensação de sonho: arco-íris, fotos embaixo d’água, personagens icônicos como os que eu via nas revistas de surfe antigas etc. Fui construindo a minha percepção do North Shore como um lugar meio lúdico. Uma construção entre a realidade e uma relação desta realidade com a minha memória de infância. Deste lugar que eu fui construindo no meu subconsciente e na minha imaginação. O livro é uma saudação a esta troca que acontece quando você idealiza um lugar e a camada de realidade que a própria fotografia imprime sobre isso.

A minha vontade de fotografar é algo bem sensorial, então eu queria que as imagens não fossem precisas. Muitas imagens no livro são misteriosas. Eu componho bastante com o preto, com a parte negativa do quadro, muita silhueta. Uma representação sensorial da experiência de estar no Havaí, que tem um lado um pouco mais obscuro, da violência, do perigo das ondas etc. Esse lado havaiano que caracteriza certo 'undertone' da ilha, que geralmente é percebida como um lugar maravilhoso, paradisíaco, mas que também tem esta energia de certa forma intensa. Eu tentei retratar esta intensidade utilizando um lado mais sombrio da fotografia.

Vamos falar deste lado "undertone" do Havaí. O que traz esta energia para o North Shore? Isso é bem louco, porque esta energia você vê e sente em várias camadas. Violência entre locais e visitantes, galera fumando crack e a própria potência do oceano, porque as ondas são muito perigosas e as pessoas se afogam, então tem um pouco disso também. No aspecto geológico, a ilha fica em cima de lava vulcânica, uma coisa meio pré-histórica. Um lugar isolado no meio do oceano. Então, você sente que está numa pilha de lava que vem do fundo do mar.

Existe ainda outra camada desta energia, que são as histórias fantasmagóricas que você escuta sobre as origens do Havaí. Os grandes conflitos que aconteceram entre os colonizadores e as tribos locais. Um histórico muito violento e sangrento.

Então, você sente que esta energia vem de várias camadas e lugares. Esta intensidade é um contraste incrível, porque você está em um lugar lindo, com arco-íris e mar cristalino e ainda assim você sente um calafrio na espinha que vem deste tom que está na freqüência do ar. É como escutar uma sinfonia de música clássica com solos de guitarra de Death Metal. É muito louco.   

Quais outras histórias “fantasmagóricas” você conhece? Existem várias lendas urbanas de fantasmas, por exemplo.  Os quadros das casas que foram construídas ao redor da Baia de Waimea, que era um território que pertencia aos guerreiros havaianos, caem de vez em quando durante a noite. Dizem que são os espíritos dos guerreiros havaianos caminhando pela Baia de Waimea, porque estas residências teriam sido construídas no caminho deles.

Eu também tenho uma foto no livro, que é um clichê de uma lenda urbana não somente havaiana. Eles dizem que se você sacrificar uma prancha, fazendo uma fogueira e botando-a para queimar, no dia seguinte as ondas vão subir e o mar vai ficar grande. São coisas assim.

Conte um pouco mais sobre o livro. Quanto tempo levou para ser feito? Mais de dez anos. Criamos o material com base em um arquivo que eu tinha guardado havia muito tempo. Essa nova editora de Londres, a Jesus Blue, que é de um fotógrafo conhecido chamado Nick Waplington e do designer Johnny Lou, resolveu editar o livro. O North Shore é o segundo livro da editora. Fizemos somente quinhentas cópias. O livro foi lançado em Nova Iorque, Los Angeles, Rio de Janeiro e agora vamos lançar em São Paulo, no Havaí e no Japão. O livro foi impresso na Alemanha, em Berlim, e fizemos tudo em menos de vinte dias. Foi bem louco. Mais de dez anos se resumiram em pouco mais de duas semanas de pré-produção, produção e impressão de gráfica. O livro tem esta cor rosa, que é algo inesperado para um livro de surf, e a gente queria fazer isso. Na espinha do livro tem as cores do Havaí: vermelho e amarelo. É um tipo de alma do livro.

Créditos

Imagem principal: Vavá Ribeiro

Fotos de Vavá Ribeiro

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