por Juliana Sayuri
Trip #286

Segundo as estatísticas, parece que ninguém transa no Japão. Mas é preciso ir além para entender a situação. O buraco é bem mais embaixo

Andar pelas ruas japonesas às vésperas de 14 de fevereiro é ver vitrines em tons de pink, entre balões coloridos, caixas de chocolates adornadas por laços e cartazes de Happy Valentine’s Day –, em letras romanas, garrafais e gigantes. Um perfume artificial: apesar da atmosfera cor-de-rosa, o amor não está muito no ar no Japão, onde millennials (jovens nascidos entre as décadas de 80 e 2000) vêm perdendo interesse em relacionamentos românticos e sexo, um fenômeno conhecido como sekkusu shinai shokogun. Cerca de 70% deles estão solteiros, mais de 40% são virgens e 35% vivem sozinhos.

“O amor é um jogo, no Japão e nos outros países. Mas o template é diferente aqui, há uma série de regras não ditas, é o kuuki wo Yomu, que é literalmente ‘ler o ar’, entender o que está acontecendo sem palavras”, define o designer nipo-brasileiro Kenji Kihara, 35, que está na pista. Radicado em Tóquio, ele trabalha em uma agência de publicidade e, como hobby, é DJ em bares underground na capital japonesa. “Tudo é relativo, conservador e liberal ao mesmo tempo. Conservador, pois ainda há expectativas sociais: durante diversos encontros, homens tomam iniciativa e mulheres mostram o lado fofo, até virar namoro. Liberal, pois, enquanto não se encontra o par ‘para casar’, há muito sefure, que é sex friends, amizade colorida. Mas tudo muda depois dos 30, quando bate certo desespero de encontrar alguém, para eles e para elas”, conta. “Resumindo: falta ai [amor], mas também falta a ideia de que vale se arriscar para ter intimidade e se expressar romanticamente ao lado de alguém.”

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As impressões de Kihara vão ao encontro dos estudos mais recentes realizados no Japão. A socióloga Misa Omori, da Universidade Ochanomizu, por exemplo, diagnosticou que jovens japoneses preferem não arriscar, relacionando-se apenas quando identificam no parceiro o ideal de “amor romântico”. “Especialmente entre mulheres”, diz um dos artigos acadêmicos da autora, “considera-se a idade-limite de 30 anos para casar e, assim, elas sentem que deveriam namorar a pessoa certa, caso contrário, estariam perdendo tempo”.

“Tá difícil”, diz Rina Shimada, 23, que cursa letras na universidade Kanda. A universitária está solteira pois não encontrou ninguém legal – e não quer se envolver com caras tímidos demais, tradicionais demais ou, pior, machistas. Bartender no distrito de Kyoto, Shimada notou o mesmo que pude notar nos barzinhos na província de Aichi: de um lado, mesas só de mulheres; de outro, só de homens. “É difícil ver movimentações de um lado a outro. Talvez seja um costume da época da escola, de desde criança separar meninas e meninos”, diz. Ou, como bem ilustrou a jornalista Kaori Shoji em artigo no Japan Times: “Lamento informar que japoneses e japonesas continuam não conseguindo se entender. Basta entrar no izakaya [pub] mais próximo para ver a segregação de gêneros: eles reclamando de seus empregos em um canto; elas reclamando da ausência de caras legais em outro. Você pode pensar que os dois grupos poderiam se misturar a certo ponto da noite, mas isso raramente acontece”.

Nos últimos 15 anos, proliferaram estudos sobre sexualidade no Japão. Em uma pesquisa de 2005, da Durex, gigante do mercado de camisinhas, o país registrou a menor frequência sexual do mundo (45 vezes ao ano). Em outra, da Federação de Planejamento Familiar do Japão, de 2013, 45% das mulheres (16-24 anos) e 20% dos homens (25-29 anos) não estavam interessados em sexo simplesmente. E o levantamento do Instituto Nacional de Pesquisa sobre População e Seguridade Social de 2016 revelou que 70% dos homens e 60% das mulheres (18-34 anos, nunca casados) não tinham nenhum tipo de relacionamento romântico; 42% dos homens e 44% das mulheres eram virgens. Haruka Sakamoto, 37, e outros acadêmicos da Universidade de Tóquio se debruçaram sobre os dados do Instituto Nacional de 1987 a 2015, estudo que foi publicado na revista científica BMC Public Health, em abril de 2019, contando que, na casa dos 30-34 anos, o índice de japonesas virgens havia subido de 6,2% em 1992 para 11,9% em 2015; o de japoneses virgens, de 8,8% para 12,7%.

Sakamoto (uma cientista casada e feliz), porém, advoga um olhar mais humano, sem ridicularizar a inexperiência nipônica ou pré-julgar que os japoneses são todos adultos abobados. Para compreender o fenômeno, é preciso pensar a dinâmica dos relacionamentos, envolvendo lifestyle, mercado e mídia. “Muitos jornalistas focaram na cultura otaku, como se todo jovem japonês fosse aficionado por anime e mangá. Não é assim. Descobrimos que o status socioeconômico pesa mais”, diz à Trip. Entre homens, renda, emprego e estudo são fatores-chave: quanto menor o nível socioeconômico, maior a chance de continuar virgem. Entre mulheres, não há ainda resposta – é o assunto de um novo estudo que os autores estão desenvolvendo na universidade. “Tradicionalmente, japonesas preferem parceiros com mais instrução e maior renda. No entanto, o número absoluto de japoneses com maior renda está caindo, o que provoca um descompasso entre as expectativas deles e as delas”, pondera.

Fica comigo

Apps são alternativas, mas adaptadas ao contexto nipônico: Omiai e Pairs, dois dos mais populares, são voltados para quem busca relacionamento sério (e não só sexo casual). Para entrar, é preciso preencher informações inusitadas, como escolaridade, tipo sanguíneo e salário. O filtro é tão específico que você pode procurar um(a) jovem de 27 anos do tipo B negativo, que ganhe 7 milhões de ienes por ano e goste de punk. Encontrar, obviamente, são outros 500.

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O empresário Yusaku Maezawa, 44, um magnata da indústria da moda japonesa, recentemente arriscou outra ideia inusitada: famoso por adquirir o primeiro bilhete para dar uma volta na Lua, o bilionário foi ao Twitter para promover sua busca por uma namorada para acompanhá-lo na aventura espacial em 2023. Depois de um mês e 27.722 candidatas à lua de mel, desistiu do romance-reality show “por razões pessoais”.

Há quem venha flertando com tradições antigas como o miai, os encontros marcados por casamenteiros. Também há festas de matchmaking, em que solteiros (inclusive não-tão-jovens de mais de 45) são instigados a conversar e trocar currículos (sim, currículos) – todos acompanhados dos pais, como contou a jornalista Kyoko Hasegawa para a agência AFP, em dezembro de 2019. Em outros países conhecidos como “filhos canguru”, que moram na casa dos pais depois dos 25, aqui a expressão é mais cruel: parasaito shinguru, isto é, “solteiro parasita”.

Entre homens, interpreta o filósofo Masahiro Morioka, 61, autor de Lessons of Love For Herbivore Boys e professor da universidade Waseda, impera a timidez. O acadêmico cunhou a expressão “herbívoros” para se referir a garotos inexperientes que gostariam de convidar uma garota para sair, mas nem sempre conseguem sequer conversar com alguém do sexo oposto. “Discutir sexualidade não é comum no Japão”, diz à Trip Morioka, que é casado e famoso por publicar livros que tratam do tema, incluindo Confessions of a Frigid Man, em que destrincha a própria sexualidade, com a intenção 
de mostrar que os meninos não precisam ser machões e que devem tentar entender o que elas querem, considerando inclusive o gender gap político e econômico no país.

Entre mulheres, indica a socióloga Laura Dales, autora de Feminist Movements in Contemporary Japan e professora de estudos asiáticos da Universidade da Austrália, outros rótulos rapidamente se pregaram: além de “solteira parasita”, a imprensa japonesa já se referiu a jovens não casadas como makeinu (perdedora) e christmas cake (que não vale nada depois dos 25). Mas uma expressão se salva: ohitorisama (em inglês, traduzido como singleton; em português, simplesmente “indivíduo”). “Ohitorisama oferece um caminho alternativo para mulheres: uma identidade positiva para quem não se casou e não tem filhos. Afinal, nem toda japonesa quer casar”, frisou Dales em artigo no site Psych Central – uma obviedade muitas vezes esquecida.

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Os tempos mudaram e hoje 62% das japonesas de 25 a 34 anos têm alto nível de escolaridade (japoneses, 59%) e, independentes financeiramente, muitas estão priorizando a carreira e almejando posições de liderança. Um salto alto: hoje, 20% delas estão em cargos de comando e a política womenomics, diretriz de inclusão feminina do primeiro-ministro Shinzo Abe, pretendia catapultar a cifra para 30% até 2020, mas já esticou o prazo para 2030.

Antes só

Ohitorisama é a palavra do momento: primeiro voltada para mulheres, a expressão abarca todos os indivíduos que escolhem viver sozinhos. Tendências: ir a um bar e sentar sozinho no balcão, pedir mesa para um no restaurante, reservar um box individual de karaokê e tirar selfies solitárias, mas felizes – e postar tudo no Instagram com a tag #ohitorisama, que reúne milhares de posts. “Este é o futuro japonês”, diz Kazuhisa Arakawa, autor de Super Solo Society.

“Apenas 30% dos homens e mulheres conseguem tomar iniciativa e se aproximar de seus potenciais parceiros. 
É a elite dos 30% no jogo do amor”, define o autor, que se embasa nos dados do National Fertility Survey, levantamento do Ministério da Saúde no Japão. Arakawa lança outro dado oficial: 40% dos homens têm intenção de casar, enquanto 50% das mulheres têm esse desejo. “Estes números se mantêm estáveis há três décadas. É errado pensar que todo mundo quer casar”, diz.

Investigador de tendências na titã de marketing Hakuhodo, Arakawa está de olho no poder de consumo dos solteiros. Segundo o censo, o número de japoneses que moram sozinhos subiu de 25%, em 1995, para 35%, em 2015. Nas contas do publicitário, 50% da população japonesa será “solo” até 2040 e, até lá, 
o mercado se voltará a 
esse público.

Final feliz?

Desde a década de 80, acadêmicos, jornalistas e políticos voltam os olhos ao que acontece entre quatro paredes e que, no fim, se relaciona ao futuro do próprio país: estima-se que a população desabe de 127 para 97 milhões se a tendência demográfica continuar no ritmo atual.

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É a pirâmide japonesa que estudamos no ensino médio: na base, poucos nenês nascendo (864 mil em 2019, a menor marca desde 1899); no topo, velhinhos firmes e fortes (83 é a expectativa de vida, a maior do mundo; maiores de 65 anos eram 28,4% da sociedade em 2019, outro recorde internacional). No meio, poucos jovens transando e tendo novos bebês, o que traz implicações econômicas para equilibrar a pirâmide – pagamento de pensões e serviços de saúde custam aos cofres públicos, que precisam de impostos pagos por trabalhadores ativos, mas, se não há novos trabalhadores para substituir os aposentados, em breve a conta pode não fechar.

Diante da bomba-relógio demográfica, há o tipo alarmista (a crise é grave a ponto de pôr o país em risco de extinção, dizem uns) e o estilo bombeiro (iniciativas do governo para resgatar a natalidade, organizando sessões de dates e liberando o pessoal para o happy hour de sexta para, num piscar de olhos, ver mais bebês por aí). Ambos se centram na fórmula sexo = filhos, esquecendo a sexualidade e tudo o que está ao redor dela, como cultura, mercado, mídia e uma miríade de sentimentos, do desejo à solidão.

Segundo a consultoria japonesa Kamakura Shinsho, 70% dos solteiros (incluindo divorciados e viúvos) de mais de 40 anos estão felizes assim e preparados para morrer sozinhos. Participantes do estudo disseram que cuidam da saúde, dedicam-se a hobbies e gostam da liberdade de administrar seu tempo e seus ienes. Quem vai dizer, afinal, que é impossível ser feliz sozinho?

Créditos

Imagem principal: Photographer Hal

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