por Carol Ito

Conversamos com casais que, fiéis à libido carnavalesca, resolveram repensar ou abrir o relacionamento durante a folia

Associado à liberdade e ao prazer intenso, o Carnaval é capaz de sacudir e abalar as certezas de quem vive um relacionamento amoroso. A psicóloga e educadora sexual Ana Canosa nota que, no período que antecede a festa, muitos casais resolvem rever o formato da relação, o que é mais comum entre pessoas que já discordam dos preceitos monogâmicos: “São casais que já praticam outro tipo de relação, com regras e códigos próprios, como ‘beijar pode, transar não’. Os parceiros monogâmicos têm mais dificuldade em fazer esse tipo de abertura e alguns até evitam curtir o Carnaval para não cair em tentação”, conta.

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Casais mais liberais aproveitam o clima de descontração para flexibilizar ainda mais as regras do relacionamento – ou sair pegando geral. Na hora de encarar o divã depois da folia, Ana conta que as experiências são variadas: “Um dos grandes problemas é o ‘timing’. Por exemplo, você não quer pegar ninguém enquanto seu parceiro se interessou por outra pessoa. Outros casais até se excitam com isso. Depende muito”. Para ela, o melhor caminho é deixar tudo combinado antes, conversar sobre o que poderia ou não incomodar durante a festa e, claro, se preparar para incidentes no percurso. “Abrir o relacionamento não significa que não vão existir experiências de ciúme. Precisa ser uma decisão dos dois e, se algo incomodar, vale retroceder e aceitar os limites de cada um”, explica Ana.

Conversamos com foliões e folionas que preferem se manter fiéis à libido carnavalesca. Eles mandam a real sobre temas como tesão, traição e ciúme e revelam seus combinados para curtir a festa no melhor estilo “é proibido proibir”.

Imagina juntos

Nos outros 361 dias do ano, a psicóloga paulistana E., de 28 anos, só tem olhos para o boy, de 30. Mas nos quatro dias de folia, eles preferem experimentar uma relação mais flex.

“Somos um casal monogâmico, mas acreditamos que a atração sexual por outras pessoas existe a todo momento. O Carnaval é uma época em que permitimos nos abrir juntos para essas pessoas, compartilhando nossas atrações, afetos e sexo. É uma época do ano em que a atração física e sexual fica ainda mais em jogo e, por isso, foi natural a gente começar a se abrir como casal. Mesmo pensando numa relação monogâmica, acho que traição é uma palavra que pode ter muitos sentidos e, em geral, tem uma conotação conservadora. Para mim, rolaria traição se um dos dois resolvesse não compartilhar com o outro, de nenhuma forma, as suas vontades, desejos e brincadeiras.”

Tudo liberado

O empresário paulistano Fabio Basani, 39, vive em uma relação aberta há dez meses com seu parceiro, de 34. Recentemente, o casal conheceu uma pessoa que despertou o interesse para um namoro a três. Eles ainda não vão curtir o Carnaval como “trisal”, mas já vêm discutindo sobre a relação para, quem sabe, isso rolar em 2021.  

“No Carnaval, tudo é tolerável. É fundamental entender que o seu parceiro está com você enquanto tiver vontade e irá embora quando quiser, independentemente do tipo de relação. Nada que o corpo pede tem que ser proibido. Mas é claro que, quando algo incomoda, combinamos de conversar calmamente depois. É proibidíssimo qualquer atitude rude na hora. O namoro aberto foi uma exigência do meu parceiro, que não acredita em monogamia. Ele foi super paciente e cuidadoso em me mostrar essa ideia aos poucos.

Eu tive vários namoros monogâmicos antes, mas estava claramente descontente por não entender as brigas e términos, sempre por conta de ciúmes. No começo, cada um tinha os seus amantes e, há um mês, evoluímos para os famosos ‘dates’ a três. Já estávamos tão tranquilos com a ideia de que o outro tinha relações por fora que foi uma verdadeira explosão de tesão. Recentemente conhecemos uma pessoa que nos despertou muito o interesse de namorar a três. Agora estamos vendo como isso pode funcionar.”

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Test drive

A nutricionista G., 29, de São Paulo, vive uma relação aberta há três anos com o boy, de 35. Eles seguem a regra de “só vale se for todo mundo junto” mas, neste Carnaval, vão abrir exceções.  

“Nós nunca tínhamos saído com outras pessoas sem estar juntos até recentemente, no pré-Carnaval, quando eu fui para o Rio de Janeiro e ele ficou em São Paulo. A gente decidiu que transar não pode, só beijo na boca. Pegar amigos muito próximos também não, nem trocar telefone ou combinar de encontrar com alguém que já tenha ficado antes. Pra chegarmos nesse acordo sobre o Carnaval, ficamos janeiro todo trocando ideia. Pode ser uma porta de entrada, um início para um novo formato de relação. Se der certo no Carnaval, quem sabe a gente pode fazer isso no resto do ano.

Na relação aberta a gente precisa conversar pra sempre. Cada vez que surge uma nova demanda, as ‘DRs’ se intensificam. Eu acho muito mais difícil ser aberto do que monogâmico por uma questão de ser mulher. Ainda tem um julgamento muito forte de que mulher com relacionamento aberto é pervertida, não é para casar. Eu venho de uma família super tradicional e tive que romper com as ideias de relacionamento que me ensinaram. Além disso, tem uma baita incompreensão de várias pessoas, que acham que ele vai me trocar, que eu posso me apaixonar por outra pessoa. Eu falo que todo mundo pode se apaixonar por outra pessoa. Acho até que os monogâmicos têm mais chances, porque estão reprimindo os desejos. Corremos os mesmos riscos.”

Eu sou eu, você é você

A escritora e publicitária M., 25, tem um namoro aberto com um homem há quase dois anos. Para ela, a única coisa que poderia abalar a relação, dentro ou fora do Carnaval, é a mentira. Então, nada de inventar histórias mirabolantes se bater a vontade de ficar com alguém.

“Traição pra gente é diferente: é mentir ou enganar o outro de alguma forma. Nossa relação é aberta porque queremos ter mais liberdade individual, mesmo estando juntos. Não é porque namoramos que viramos gêmeos siameses. Não deveríamos nos acostumar tão facilmente com outra pessoa controlando a nossa vida, dizendo o que devemos e podemos fazer. Isso pra mim está muito longe de ser amor. Desde que haja respeito e parceria, o outro é livre pra fazer o que quiser. Se alguém se sentir magoado, a gente conversa e tenta superar aquilo.

E é claro que tem treta, como em qualquer relação. O que nos diferencia talvez seja a disposição em negociar e entender que nem tudo que eu sinto tem a ver com ele ou vice-versa. No começo, tínhamos várias regras sobre o que podia ou não fazer. Hoje em dia a gente faz o que tem vontade e depois conversa. Acho que a única coisa que não podemos no momento seria casar com outra pessoa. Pelo menos da minha parte – da dele, não sei.”

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Regras? Quero!

A jornalista G., 36, vive em Florianópolis (SC) e conheceu a parceira, de 33, durante o Carnaval de 2017. Mantendo o espírito de liberdade inspirado pela festa, o casal optou por uma relação aberta desde o início. No Carnaval, o melhor cenário é curtir a pegação juntas.

“Vale beijar, mas transar, não. Ficamos muito tranquilas quando é na frente da outra. Se não for, rola mais insegurança porque perdemos a sensação de controle. A gente conversa muito para entender que não temos controle de nada, mas ainda temos muitas inseguranças. Por isso digo que os acordos precisam ser refeitos o tempo todo. Se rolar um ‘vou ali e já volto’ no Carnaval, nosso acordo é não deixar a outra saber. Só conta se precisar mesmo, se rolar muita vontade de ficar com alguém por mais tempo.

Não temos uma relação aberta porque não sentimos insegurança. Não é isso. Temos uma relação aberta porque queremos abrir espaço para a sinceridade em relação aos desejos, eles se realizando ou não. A maioria dos casais traem e fingem serem monogâmicos. A gente quer poder falar sobre isso sem colocar nosso relacionamento em jogo.”

Créditos

Imagem principal: Samuel de Góis

Ilustrações de Samuel de Góis. @samueldegois é paraibano de João Pessoa e publica tiras na internet desde 2004. Seus traços já estamparam livros, zines e uma série de coletâneas. "DR", publicado pelo MIS-SP em 2017, foi um dos livros selecionados pela feira Des.gráfica. As séries DR e Fibrilação, que ilustram esta reportagem, representam um ponto de virada na vida do artista e falam sobre temas como relacionamentos, problemas emocionais e ironias cotidianas.

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