O coronavírus nas periferias das grandes cidades

Douglas Vieira
Thiago Vinicius

por Douglas Vieira
Thiago Vinicius

Roberta Rodrigues, Jonathan Azevedo e coletivos como Agência Solano Trindade e Papo Reto estão no enfrentamento da Covid-19 nas comunidades

Nós estamos vivendo o isolamento social, mas nos vemos o tempo todo. De nossas casas, usamos a rede social, nos falamos, participamos de correntes, ouvimos música, nos divertimos como conseguimos sem podermos nos encontrar. Somos privilegiados, sim. Em outros lugares, invisíveis, estão grupos de pessoas, aglomeradas em favelas, em casas muitas vezes com um único cômodo, já sofrendo com a falta de alimentos e, em muitos casos, até de elementos básicos para a questão sanitária, como água limpa.

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Para eles, enquanto discute-se nas esferas do poder público qual será o auxílio que será destinado à população vulnerável e qual o sistema que fará essa entrega – a Renda Básica Emergencial foi aprovada por unanimidade na Câmara dos Deputados e segue agora para o Senado –, a saída é a mobilização popular dentro das próprias regiões, através dos coletivos e dos agentes sociais e culturais que vivem lá. 

Este é o caso de Thiago Vinicius, da Agência Solano Trindade, localizada na região do Campo Limpo, zona sul de São Paulo, que conta que a atuação do coletivo hoje está totalmente destinada ao enfrentamento do coronavírus nas favelas e periferias da capital paulista. Eles têm mobilizado esforços em campanhas voltadas a ajudar os moradores mais vulneráveis da cidade a atravessar a crise humanitária que se aproxima, ao mesmo tempo que também se articulam com outras lideranças, de várias cidades brasileiras.

Thiago, em meio aos trabalhos que tem feito na quebrada, deu um breve depoimento à Trip de como tem sido atuar diante da questão da Covid-19 nas favelas. “Eu faço parte da Agência Popular Solano Trindade, somos um coletivo aqui na periferia do Campo Limpo com a missão de desenvolver serviços e produtos que dialoguem com a qualidade de vida do morador da periferia e, hoje, nossa atuação é nos salvar e salvar o máximo de vidas possíveis. A gente está vivendo um dos momentos mais difíceis; ainda que na periferia todo dia seja difícil, você pelo menos acorda com uma perspectiva de gerar renda, de sair na rua, de dialogar, de pegar na mão, de abraçar. Hoje, a gente está sem trabalho, com nossa renda comprometida, e essa é uma restrição muito grande para muitas famílias, pais e mães”, lembra.

“Então, estamos reunindo o máximo possível de doações de cestas básicas para distribuir para essas famílias e conseguir dar uma assistência nesses meses que serão os mais difíceis. Hoje, todo o nosso home office está destinado a conseguir o máximo de doações possíveis e salvar o máximo de vidas que conseguirmos”, conta Thiago, que chamou para a conversa outras lideranças periféricas de todas as regiões brasileiras: Raul Santiago, do coletivo Papo Reto, no Complexo do Alemão, Rio de Janeiro; Max Maciel, do projeto Ruas, em Ceilândia, no Distrito Federal; Neila Gomes, do Movimento Nacional de Luta Pela Moradia, em Belém do Pará; Iago Santos, da startup TrazFavela, em Salvador, Bahia; e Rafa Rafuagi, da Casa da Cultura Hip Hop, em Esteio, Rio Grande do Sul. E chamamos também para o assunto a atriz Roberta Rodrigues e o ator Jonathan Azevedo, que estão envolvidos com diferentes iniciativas sociais e engajados no enfrentamento do coronavírus em projetos como o Vidiga na Social, no Vidigal, onde nasceu Roberta, e o Basquete Cruzada, na Cruzada São Sebastião, comunidade de onde veio Jonathan.

Aqui, eles contam como têm se organizado para lidar com a Covid-19 nas periferias e também lançam um apelo para que nós, do conforto de nossas casas bem abastecidas, possamos dar suporte a essas iniciativas.

Roberta Rodrigues, atriz e ativista do projeto Vidiga na Social, no Rio de Janeiro

“Tem hora que eu penso que as pessoas estão meio que tudo bem, sabe? O coronavírus pode ir para as comunidades, que se ferre todo mundo, menos um problema para nós. Como se as pessoas que vivem em comunidades não fossem merecedoras de um bem-estar, de um cuidado maior... É como sempre foi. Sempre.

Não adianta falar agora, se desesperar, sabemos que vai ser o maior foco quando o coronavírus realmente começar a rodar nas comunidades. A gente sabe que vai ser um dominó. A preocupação é para que isso não cresça e atinja as pessoas da classe alta. Só que agora o mundo está dizendo que somos todos um só, estamos todos na mesma favela. Então, se as pessoas não entenderem que essas pessoas que vão para a sua casa, empregadas, porteiros, motoristas, faxineiras, se não entenderem que essas pessoas são uma continuidade sua, que tá todo mundo no mesmo cordão umbilical, realmente vai dar ruim. Agora não tem como distinguir isso.

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Eu fico muito preocupada, meus pais moram no Vidigal, meu irmão, meu sobrinho, minha avó, minhas tias, meus tios, meus primos, meus amigos, comadres, afilhados. Eu fico muito desesperada, sim, e vou fazer tudo no máximo que eu puder para dar pelo menos um nível de dignidade para essas pessoas. A gente precisa realmente se ajudar, olhar para o seu vizinho e pensar 'eu tenho que fazer alguma coisa, porque, se der ruim para ele, vai dar ruim para todo mundo'.

Estamos nesse movimento, prestando atenção nas pessoas que realmente precisam, que não têm um sabonete, não têm um álcool gel. Estamos fazendo isso na medida do possível, porque, infelizmente, a maioria das comunidades está sem água. Como você mantém uma higiene se você não tem água? E cabe também a questão do governo, que, ao mesmo tempo, nunca coube. 

Mas eu vejo também e fico muito feliz que o povo brasileiro, com tudo, com tudo, ainda é muito solidário. Tem muitos amigos meus me procurando para fazer doações, para ajudar. Pessoas que, mesmo sem ter uma condição elevada, ajudam de alguma forma. Não existe pouca doação, tudo é muito neste momento. Tem pessoas que estão precisando de ajuda e que também estão ajudando.

O mundo deu um alerta para, quando tudo isso passar, a gente se tornar melhor. Que a gente possa entender e olhar para o outro como se fôssemos irmãos mesmo, sem ser piegas. A senhora que está na comunidade, sem um alimento, trabalha na casa de uma família, com todo mundo sentado, curtindo sua quarentena de uma forma linda. E tem muita gente que está realmente na margem da miséria. Estamos conseguindo dar o mínimo de dignidade para algumas famílias. E que a gente consiga dar para todas. Mas peço para que as pessoas olhem de um jeito diferenciado para toda essa gente que vive nas periferias, em comunidades, e realmente não tem de onde tirar nada.”

Max Maciel, do projeto Ruas, em Ceilândia, Distrito Federal

“Pensando na perspectiva de enfrentamento da Covid-19 nas quebradas, estamos desenvolvendo várias ações com parceiros e apoiando as iniciativas de outros também, para a gente não ficar subdividindo tarefas e acumulando missões.

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A primeira é o Barba na Rua, que está com um projeto no Setor Comercial Sul, no centro da capital, voltado para a população em situação de rua, coletando desde recursos até alimentos para distribuição, e também lutando para que tenham lugares de acolhimento dessas pessoas. Também tem o Coturno de Vênus, que está fazendo um trabalho de arrecadação financeira para a população LGBTQI, que também ficará desassistida.

E nós, do projeto Ruas, lançamos um cadastro para os trabalhadores da cultura, os autônomos, a galera da graxa, da técnica. Essa é nossa missão aqui.”

Raul Santiago, do coletivo Papo Reto, no Complexo do Alemão, Rio de Janeiro
“Moro no Complexo do Alemão, uma favela da Zona Norte do Rio de Janeiro, e faço parte do coletivo Papo Reto. Junto com outros grupos do Complexo do Alemão, nós formamos um gabinete de crise, que chamamos de Juntos pelo Complexo do Alemão. Através desse movimento, a gente tem tentado fazer ações diretas de conscientização interna dentro da comunidade para evitar a contaminação pelo coronavírus.

A gente pendurou faixas nas principais entradas da favela, colocando dicas sobre o que deve ser feito para evitar a proliferação, qual a higiene básica que a gente deve fazer e também dicas simples que dialoguem com a nossa realidade, como, por exemplo: se você tem água na sua casa e seu vizinho não tem, compartilhe a água nesse momento de crise. É importante que todo mundo esteja unido no enfrentamento contra esse vírus.

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Colamos cartazes também em locais estratégicos, como pontos de mototáxi e de kombis, com essas dicas. Ao mesmo tempo, o Juntos Pelo Complexo do Alemão tem mobilizado a sociedade pedindo doações que possam nos fortalecer na realidade que a gente vive. Infelizmente, as favelas e as periferias do Brasil, estando do lado mais fraco da desigualdade social desse país, têm mais dificuldade de fazer o enfrentamento. E, com essa quarentena, já há pessoas passando por dificuldade. A gente pede doações de água, álcool gel, sabonete antisséptico e também de alimentos, para montar cestas básicas e distribuir para as famílias que neste momento já estão passando fome. O gabinete de crise tem essa missão.”

Neila Gomes, do Movimento Nacional de Luta Pela Moradia, em Belém do Pará
“Esse enfrentamento se dá no dia a dia estimulando o isolamento social, a priori passando as informações da Organização Mundial da Saúde, de como se dá o contágio. A gente está muito preocupado de segurar essa questão do contágio. Mas a gente também tem que fazer esse enfrentamento político.

Publicamos uma nota pública com as nossas reivindicações para o governo federal, para o Bolsonaro, que a gente percebe como anti-povo, se posicionando enquanto movimento, levando as pautas, entre elas, a questão do subsídio, para que as famílias que não têm condições, que não são aposentados, não têm uma renda fixa, possam ficar em casa, em isolamento social, se protegendo, e possam ter alimento, gás, luz, água e moradia. É um pouco do eixo da nossa plataforma de atuação. Precisamos proteger nossa sociedade do contágio.

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E nós, enquanto Movimento Nacional de Luta pela Moradia, estamos suspendendo nossas reuniões presenciais, de base, as mobilizações. Mas continuamos trabalhando via internet. Vamos buscar nossa articulação nos meios que a gente tem, por WhatsApp, Facebook, Twitter e Instagram, para reunir o nosso povo.

Quanto a solidariedade, o que é muito importante neste momento, estamos pensando em estar mais nesses comitês, fazer com que, com a nossa articulação nos espaços e com nossos parceiros, eles se comprometam a contribuir com dinheiro, com alimento, para a gente levar uma ajuda humanitária imediata, porque o nosso povo está passando fome nas periferias e nas ocupações.

Temos que fazer a arrecadação pela internet e, ao mesmo tempo, tem a questão da distribuição, com uma pessoa com quem teremos que ter o maior cuidado, de proteger quem leva e as famílias que vão receber esses donativos, atendendo os idosos e os doentes de forma pensada, racional, para não proliferar o vírus.

Não podemos aglomerar pessoas, precisamos manter o isolamento social e também fazer com que cheguem alimentos até eles. Individualmente, não vamos atingir muita gente, mas, se cada coletivo que a gente tem fizer esse comitê de solidariedade, vamos ter várias famílias sendo amparadas em seu direito à alimentação de forma imediata, enquanto não conseguimos emplacar que o governo federal, do estado e a prefeitura façam isso.

A gente está nessa luta institucional, de cobrança, de pressão, estimulando nosso povo a fazer o mesmo, mas também estamos fazendo uma ação nossa.”

Jonathan Azevedo, ator e ativista do projeto Basquete Cruzada, no Rio de Janeiro

“Queria agradecer a oportunidade de falar nesse momento tão delicado e desejar muita sabedoria, saúde e luz para todos os seres humanos neste planeta. Está sendo muito difícil lidar com esse vírus, com esse momento, não só pelo fator do trabalho, do ter que trabalhar, tem que fazer a vida acontecer, mas também de você olhar para um todo, de pessoas que que já vinham sofrendo bastante com tudo isso que vinha acontecendo, em termos econômicos e governamentais no nosso país, e, dentro dessa condição de pandemia mundial, isso vem gritar e cada pessoa vem falando de uma forma muito mais aberta sobre as condições dos menos favorecidos. E lidar com o coronavírus, com as verdadeiras dificuldades de quem está aqui convivendo e vendo a situação que de fato está acontecendo. É muito, mas muito difícil.

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Você falar, ou supor, que alguém não vai ter condições é uma coisa. Mas você estar convivendo com uma pessoa que não tem condições e olhar nos olhos dela e ver isso, é outra. A gente está tentando combater olho por olho, dente por dente, levando a cesta básica, contando com toda a higiene que tem de ser feita antes de levar, mas levando diretamente na casa dos senhores e senhoras, na Cruzada São Sebastião, no Vidigal... Estamos levando material de higiene, para a higienização das casas, e a higiene pessoal dos filhos, idosos, estamos aqui no corpo a corpo. É difícil, mas eu acho que nós vivemos nesse planeta com uma missão tão fácil, que era essa. E vamos para cima, com o coração aberto. Este é um momento de muito aprendizado, não só para todos nós aqui, mas também para o mundo inteiro.

Tudo que eu tenho como artista é dar retorno para o povo que me fez chegar onde eu cheguei. Esse é o trabalho, juntar nossos recursos. E no Brasil todo também tem gente que vem cooperando com doações, indo atrás de recursos, investidores. Uma mudança mais ampla depende de todo um contexto, mas que a gente possa amenizar o sofrimento dos que estão aqui no nosso dia a dia neste momento tão delicado.

Agradeço às pessoas que estão doando e fazendo tudo isso acontecer, às pessoas que estão aqui trabalhando com a gente e às comunidades, que estão dando uma aula para a gente do que é quarentena. Mesmo com as dificuldades, a gente está aqui, todo mundo, segurando os filhotes em casa, e fazendo o nosso futuro melhor.” 

Iago Santos, do TrazFavela, em Salvador, Bahia

“Aqui no bairro em que eu moro, São Caetano, em Salvador, o combate está funcionando da seguinte forma: o prefeito pediu para fechar todos os estabelecimentos que não fossem essenciais. Aqui, só ficou alimentação e quem trabalha com alimentos, e os postos de saúde.

A população ainda não entendeu muito, mas minha startup começou já a pensar em como a gente pode ajudar a galera a se prevenir e anunciar mensagens como combater o vírus, não sair de casa... E, de um dia para o outro, já teve uma evolução bastante grande, a galera começou a ficar mais em casa. Minha rua está bastante vazia, coisa rara de acontecer. Tem carro de som passando e avisando pro pessoal não sair. Aos poucos, estão percebendo bastante essa necessidade de ficar em casa. 

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Pegando como parâmetro alguns entregadores do projeto, eles estão rodando, mas está rolando uma prevenção. E estamos vendo a possibilidade de ajudar os comerciantes neste momento em que os estabelecimentos estão fechados, procurando também gerar essa renda para a galera que ainda não ficou em casa.

O modo de prevenção está sendo bastante efetivo, a galera está ficando em casa. Quem está saindo, está saindo de uma forma bem segura, só vai e volta bem rapidamente.” 

Rafa Rafuagi, da Casa da Cultura Hip Hop, em Esteio, Rio Grande do Sul
“Aqui no Rio Grande do Sul, a gente tem se organizado de maneira muito responsável, em diferentes áreas e frentes. Por exemplo, nos grupos de cultura, hoje está estruturada uma carta, que foi enviada à Secretaria Estadual de Cultura – a partir de outros exemplos, como as secretarias de cultura dos estados de São Paulo, do Pará, do Maranhão, que lançaram editais específicos para este momento. Trabalhamos para que os produtores e artistas do Rio Grande do Sul também tenham condições de desenvolver seus trabalhos.

A partir de uma grande rede de apoio, que parte do Hip Hop Alimentação, um programa da Casa da Cultura Hip Hop de Esteio, temos feito um trabalho de distribuição de cestas básicas dentro das periferias, principalmente para as famílias que estão mais afetadas. Esse trabalho está sendo coordenado pela Casa da Cultura Hip Hop, da qual eu faço parte, e hoje todas as pessoas e os artistas principalmente têm se engajado em campanhas de conscientização comunitária.

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A gente tem se organizado e os grupos de WhatsApp têm sido uma grande ferramenta para a gente se conectar diretamente com quem está na ponta, na base. Não que a gente não esteja nesse grupo, mas ainda há pessoas que passam uma dificuldade maior do que a gente.

Temos feito um grande movimento de solidariedade com parte do judiciário do Rio Grande do Sul, para que essas pessoas também possam adotar famílias temporariamente, com uma renda básica mensal, porque é sabido que nenhum governo vai suprir tamanha demanda humanitária que vai ser necessária nesse período de coronavírus.

A gente segue na luta, esperando também que a mídia dê mais atenção para cá, porque os casos são muito maiores do que o que vem sendo mostrado.” 

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