Existe cura para a cena cultural em tempos de coronavírus?

Nathalia Zaccaro
Carol Ito

por Nathalia Zaccaro
Carol Ito

Céu, Kiko Dinucci, Pabllo Vittar, Karol Conká e profissionais da cultura contam como estão lidando com a crise

Ao vivo e sem público. Assim foi anunciado o último show de Kiko Dinucci, que rolou on-line na última quinta-feira (19) pelo Facebook da Casa de Francisca, espaço no centro de São Paulo. Como toda a programação do lugar, a apresentação de Kiko, que rolaria nos dias 18 e 19, foi cancelada por conta da pandemia da Covid-19. "Desmarquei todos os meus shows e não sei quando voltarei a trabalhar. E essa é minha única fonte de renda. Nós, autônomos e profissionais da cultura, não sabemos como vamos sobreviver durante esse período", diz o artista. 

Para alento dos fãs, o show de Rastilho, seu último disco, acabou rolando na internet, com um simbólico salão vazio ao fundo, e teve mais de 40 mil visualizações. Com todo mundo on-line, foi um sucesso. Mas não rendeu nem um real para Kiko ou para a Casa de Francisca. "Não teve grana nenhuma. A ideia de fazer esse show é levantar a discussão. Será que uma casa que vai ficar meses fechada, pagando funcionários e sem renda nenhuma, vai conseguir reabrir? Precisamos de suporte do Estado, estamos nos sentindo abandonados", diz Kiko.

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Primeira vítima

A indústria da cultura é uma das primeiras a serem atingidas pelos ainda incalculáveis prejuízos que o período de reclusão da população vai causar. "É difícil prever os impactos econômicos porque existem poucos relatórios e indicadores da economia da cultura hoje no Brasil. Pesquisas recentes mostram que estamos falando de 2% do PIB nacional. E boa parte dessa economia depende de atividades presenciais, como shows e cinemas. Um espetáculo não é só sobre os artistas e técnicos. Tem a infraestrutura, a alimentação e transporte em torno daquele evento, por exemplo", diz Nichollas Alem, presidente do Instituto de Direito, Economia Criativa e Artes, focado em pesquisa e consultoria para o setor cultural.

A rapper Karol Conká está precisando lidar com o furacão de cancelamentos e se preocupa exatamente com o efeito cascata que isso vai causar. "A gente tem que pensar em como ficam os artistas, mas também em como ficam os técnicos de luz, de som, o roadie. Estamos tentando pensar em uma solução juntos para que todo mundo fique bem", diz. Na última semana, Karol cancelou os shows que faria em Sorocaba e em Ribeirão Preto, no fim deste mês. O mesmo rolou com a paulistana Céu, que teve seis apresentações adiadas, entre elas a do festival SXSW, nos Estados Unidos. "O momento pede para que a gente esteja 100% conectado com o coletivo. Mesmo com os boletos chegando, o desespero batendo, o medo e a ansiedade vindo, a palavra-chave é calma.

Um dos nomes mais fortes do pop nacional, Pablo Vittar estava escalada para o Coachella, renomado festival na Califórnia marcado para abril. Mas o evento também foi adiado, ainda sem novas datas. "É algo necessário neste momento para a saúde e segurança de todos, então precisamos manter a calma e pensar em alternativas para apoiarmos uns aos outros", diz a cantora.

A dimensão do problema

Na tentativa de mensurar o tamanho do prejuízo, o Data Sim, núcleo de pesquisa e organização de dados e informações sobre o mercado da música no Brasil, mergulhou no tema. Os resultados, ainda parciais, indicam que pelo menos 5 mil eventos foram cancelados, com 16 mil profissionais afetados e prejuízo de 400 milhões de reais.

"Precisamos dessas informações para conseguirmos pensar estratégias eficazes para ajudar o mercado. Temos que entender o tamanho do buraco para saber como vamos exigir ajuda do governo e das empresas. A indústria da cultura precisa se reposicionar. O Sebrae lançou recentemente um programa para diversas empresas se organizarem nesse período difícil e a cultura não foi contemplada. O foco do Sebrae são as pequenas empresas, que representam 50% do mercado cultural. Mesmo assim, não fomos considerados. Precisamos mostrar quão grandes somos", defende Fabiana Batistela, diretora do Data SIM. Segundo dados de outra pesquisa do núcleo, os cerca de 300 espaços de música ao vivo da capital paulista contratam 10.200 atrações musicais por mês e geram 7.500 postos de trabalho, todos colocados em risco pela Covid-19. 

Na tentativa de reduzir um pouco os prejuízos, a SIM começou uma campanha pedindo para que as pessoas que já haviam comprado ingressos para os eventos cancelados não peçam o reembolso imediato dos valores e aguardem as novas datas. "Se todos tiverem que devolver esse dinheiro agora muita gente vai quebrar e parte desse eventos não vão mais acontecer nem conseguir se reerguer", diz Fabiana. 

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Realidade virtual 

As lives e shows on-line têm surgido como uma opção ao apagão da cultura, mas não parecem ser uma solução para a crise financeira. E mesmo as plataformas de streaming, que remuneram os artistas de acordo com o número de plays de suas músicas, não são uma fonte de renda representativa. "A grana que vem do Spotify, por exemplo, não chega nem a 1% da minha renda total. Com a crise, o Bandcamp [plataforma de música] fez uma coisa interessante: eles vão repassar 100% do dinheiro para os artistas. É um caminho, mas não vai resolver. Nossa fonte de renda são mesmo os shows", diz Kiko. 

O mercado da música é uma das maiores vítimas da Covid-19, mas todas as áreas da cultura foram gravemente afetadas pelas mudanças sociais impostas pelo violento alastramento do vírus. "Ainda é cedo para falar do impacto financeiro, mas vai ser muito grande. A maioria das grandes livrarias estão fechadas. Os lançamentos de mais de 20 títulos foram cancelados. O consumo, como um todo, deve se retrair", diz Otávio Costa, publisher da Companhia das Letras, uma das principais editoras do país que, além de seu próprio negócio, lida diretamente com outras pequenas empresas. "Nós temos nos preocupado muito com os livreiros independentes. Estamos tentando oferecer apoio logístico para as entregas", completa. 

No setor do audiovisual a situação também é preocupante. Mesmo as produtoras mais estruturadas estão precisando gerenciar crises em seus orçamentos. "Tínhamos entre 400 e 500 pessoas preparadas para trabalhar com a gente nos próximos meses. Paramos a produção de oito séries de ficção e diversas publicidades. Estamos agora trabalhando para resolver a situação de todos esses colaboradores. Os canais e plataformas de streaming estão fazendo algumas propostas de pagamento parcial para essas equipes e estamos ajudando nessa negociação. Existe uma grande preocupação no setor", diz Andrea Barata Ribeiro, uma das sócias fundadoras da O2 Filmes. Segunda Chamada e Os Esquecidos são algumas das séries afetadas pela paralização. 

Primeiros socorros

O governo federal, que desde o início do mandato tem dado sinais de pouca simpatia pela indústria cultural, ainda não se posicionou de maneira afirmativa sobre a questão. Regina Duarte, secretária especial da cultura, fez um pronunciamento em seu Instagram em que se disse sensibilizada pelos apelos de artistas e comprometida com a busca por soluções. Ela não tem, no entanto, autonomia financeira para ações imediatas. 

Alguns governos estaduais e municipais apresentaram planos de contenção de danos. A Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo destinará 103 milhões de reais para diminuir prejuízos de artistas e oficializou que os prazos de contratações artísticas foram prolongados. Ou seja: quem teve shows adiados poderá se apresentar em uma data futura com pagamento garantido. "O governo do Maranhão vai lançar um edital para fomentar projetos de apresentações pela internet e o governo de São Paulo abriu uma linha de crédito especial para que empresas da área cultural possam passar pela crise", lista Nichollas Alem, do Instituto de Direito, Economia Criativa e Artes.

Além de remediar os já enormes prejuízos do setor, é crucial que a indústria cultural volte a ser percebida como um motor econômico relevante do país, para além de sua função no bem-estar e na construção da nossa identidade. Para Amir Labaki, fundador e curador do festival internacional de documentários É Tudo Verdade – que também teve suas atividades suspensas por conta da crise –, há de se tirar algo bom de todo esse caos. "Crises catalisam documentários e a tecnologia digital veio facilitar a produção – embora não resolva a equação econômica. A estupidez pode combater o talento, mas sempre vai perder. Belos filmes virão." 

Créditos

Imagem principal: Creative Commons

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