play

Pabllo Vittar: Não vim pra este mundo pra explicar nada

por Chico Felitti

A cantora está aprendendo a ser ela mesma, ama morar com a mãe em Uberlândia e já soltou a mão de quem não se posiciona contra o governo

A noite do aniversário de 18 anos de Pabllo Vittar poderia ter sido escrita por uma sala diversa de roteiristas em 2021. Um gay afeminado que vai para uma boate em Uberlândia e experimenta se montar como drag queen pela primeira vez. Improvisa uma fantasia de múmia, já que seu aniversário cai um dia depois do Halloween, e a festa tem como tema o Dia das Bruxas. Faz uma saia e um top com bandagens. Sobe em um salto. Como não tem peruca, usa o que restou das ataduras ao redor da cabeça. No mesmo dia, havia sido recusada em duas entrevistas de emprego. A drag múmia é a primeira foto que posta no seu Instagram. É também a noite que chama atenção do dono da boate, Yan Hayashi. Ele e seus sócios, Leocádio Rezende e Rodrigo Gorky, veem um potencial tremendo na aniversariante que, descobrem, também canta.

Poucos meses depois, Pabllo já gravou uma versão brasileira que injeta pagode num hit internacional. “Lean On” vira “Open Bar”. O DJ americano Diplo, dono da música original, escuta a versão de Pabllo e pira. Pabllo e seus produtores, que a essa altura ela já chama de pais, têm horas para gravar um videoclipe, com um orçamento de R$ 500 e um saco de suco solúvel em pó. No ano seguinte, fazem 200 shows lotados, de 20 minutos cada um, com um repertório que também teve de vir à luz em ritmo de redes sociais.

Mas a equipe de roteiro que fosse escrever a primeira noite da personagem Pabllo Vittar também precisaria ser contemporânea o suficiente para não cair nos clichês de histórias de princesas para quem a vida acontece a partir do momento em que um homem pisa em sua vida. Quando alguém pergunta para Pabllo Vittar em 2021 a que se deve seu sucesso, rápido como uma estrela cadente e ao mesmo tempo longevo como o Sol, ela responde sem pensar duas vezes: “À minha persistência dos anos anteriores, eu sempre acreditei em mim, eu sempre trabalhei nisso.”

Porque a drag iniciante já era, aos 18 anos, uma artista tarimbada, que se apresentava em igrejas de Caxias, cidade onde cresceu no Maranhão, e cantava acompanhada de um violão em bares do Triângulo Mineiro, para onde sua mãe se mudou por conta de um trabalho. 

LEIA TAMBÉM: "Sou feliz, sou drag, sou bonita, bebê!", diz Pabllo Vittar no Trip TV

Nove anos depois, Pabllo não tem uma, mas quase cem perucas. A maioria delas lace fronts feitas de cabelo humano por um brasileiro radicado em Londres. Carrega também contratos com marcas como Adidas, Coca-Cola, Calvin Klein, parcerias com Anitta e Thalía, dezenas de hits e quatro álbuns na bota, o mais recente lançado nesta semana. “Batidão Tropical” é ao mesmo tempo uma volta à infância de Pabllo, no ritmo que ela ouvia quando tinha 11 anos e viu drag queens pela primeira vez, e um passo em direção ao seu futuro. Porque ela teve um ano e pouco de pandemia para descobrir quem é. E descobriu dentro de casa que queria fazer um álbum solitário, triste e feliz, ao mesmo tempo que inteiro dançante.

Depois de um ano e meio na mesma casa onde cresceu, um período que se viu sozinha e confrontou facetas de si mesma que desconhecia, Pabllo diz que está aprendendo a ser ela mesma. Ama morar com a mãe em Uberlândia. Odeia lives — mas vai fazer uma mega live de lançamento do álbum. Conversa com Deus.

Nessa conversa de quase uma hora com a Tpm, Pabllo pede o impeachment do presidente Jair Bolsonaro e diz que já soltou a mão de pessoas famosas como ela que não tiveram a coragem de se posicionar politicamente em uma pandemia que abreviou a vida de mais de meio milhão de brasileiros. E que, para subir ao palco, não precisa mais fingir que é uma diva internacional, como fez por anos. Na primeira apresentação que puder fazer depois que a vacina vier para todos, Pabllo Vittar será só Pabllo Vittar. 

Vamos falar do álbum novo? Você bebe de novo de um universo que parece ser muito seu. O forró era uma coisa que você já escutava muito, era um ritmo que já fazia muito parte da sua vida, né? Opa, meu amor, eu cresci, eu costumo dizer que eu sou a esponjinha do Norte e Nordeste, por quê? Nasci no Maranhão, morei treze anos no Pará, voltei pro Maranhão, depois fui para São Paulo. Então na minha vida, essa trajetória toda, o que eu mais escutava era forró, tecnobrega, carimbó, tecno melody. Todos os tipos de forró, porque tem várias vertentes do forró. Nossa, eu sou apaixonada. Amo todas as bandas de forró. E é óbvio que eu não podia deixar de trazer isso nesse álbum, né? Eu já fiz várias músicas nos meus álbuns anteriores que contemplavam esses ritmos, mas tinha sempre uma mescla muito grande de pop, um pop que não era tão nosso, mas de que eu também gosto. E nesse álbum eu decidi ir na contramão mesmo, esse álbum eu tô à frente de todas as faixas e sempre trazendo as referências que são muito presentes na minha infância e adolescência.

Me ajuda a entender essa escolha? Como você consegue no momento de hoje, em 2021, dizer “não vai ter feat”, sou só eu e vai ser forró com menos pé no pop? Quem me conhece sabe que eu adoro, eu amo. Menino, eu amo tomar uma cachaça com as minhas amigas, botar um forró pra tocar. Lembrar de quando eu morava lá. Eu me sinto lá quando eu boto essas músicas na minha casa, fica bem na memória, né? E não tem feat porque é um álbum muito pessoal. São memórias minhas, são aspirações minhas, são saberes que eu não queria dividir esse sabor com ninguém, sabe? As minhas influências estão muito, muito transparentes, são das bandas de forró. Vocês vão ver umas batidas e mesclas muito de forró dos anos 2000. Tem muita referência de Calcinha Preta, Mastruz com Leite, Desejos de Menina. Então, a gente foi muito criteriosa na produção musical de cada faixa, porque como eu sou a única nordestina  da minha equipe, eu tinha que trazer muita informação, mostrar muito: “Olha, a bateria é assim”, “O forró tá errado”, “É assim, é assado”. Para mim, foi muito gostoso fazer isso, mostrar do que eu gosto, o que eu ouvia. Porque nesse álbum a gente tem as músicas autorais, mas a gente também tem as músicas que são covers, eu canto covers de algumas bandas de que eu gosto.

LEIA TAMBÉM: Rita Von Hunty, consciência de classe com humor

Você se preocupa em ir na contramão, se vai hitar, se não vai hitar, se vão entender, não vão entender? Ó, não vim pra este mundo pra explicar nada, né? Ou eu não trabalho, né, com essa ênfase em vai hitar, não vai hitar. Eu faço o que eu quero, o que eu gosto. Eu vou ter oitenta anos lá na frente, olhar pra trás, porra, eu fui uma artista que me doei e fiz o que eu gostava, fui feliz e aproveitei cada momento disso. É isso que eu passo pros meus fãs, que eles vivam, que eles façam, que eles não tenham medo de o que os outros vão pensar, porque senão eu vou ficar caindo na mesma, no mesmo copia e cola do que a gente já vem ouvindo. E vamos falar a verdade, que isso não é tão legal. Eu gosto de fazer coisa nova, eu gosto de movimentar, de causar justamente isso que você me perguntou. "E aí, como vai ser?" E isso me motiva, isso me dá tesão. 

E a música nova chama “Triste com T”. É Triste com Tesão ou é Triste com Tê mesmo? Não vou botar o nome da música “Triste com Tesão”, porque a gente sabe que eu não posso fazer nada nesse Brasil.

Foi como “Amor de Quenga”, que virou “Amor de Quê”, né? Ééé. “Bandida” eu não pude colocar “bandida” na faixa da minha música, eu tenho um asterisco lá no “a”, caramba. Outros canais têm nomes muito mais explícitos, não sei porque, não quero saber o porquê também.

Derrubaram até um videoclipe seu, de “Parabéns”. Teve uma época que teve esse rolê de derrubarem por alguma questão. Tinha um comercial com a Sky Vodka. Tipo, cara, ridículo. Tem outros artistas que se banham em vodca, se banham em álcool, tacam fogo, destróem e xingam . E a gente vê que não tem nenhum tipo de represália, nenhum tipo de opinião quanto a isso, porque são artistas héteros na sua maioria, né? 

Onde você está agora? Tô na casa do Yan [Hayashi, seu empresário]. Tô na casa do meu pai.

Eu queria falar sobre isso, inclusive. Sobre a noite em que você conheceu o Yan. Se eu não me engano, foi no seu aniversário de dezoito anos. Eu conheci ele, ele era tipo o dono da noite aqui de Uberlândia. Tinha uma casa noturna e eu frequentava essa casa noturna. E um belo dia eu esqueci o meu RG e ele tava na porta da balada. E daí passou um tempo ele descobriu que eu cantava Ele me levou num show do Bonde do Rolê, foi quando o [Rodrigo] Gorky [produtor musical de Pabllo e ex-integrante do Bonde do Rolê] veio pra cá, eu gravei meu primeiro single, meu pai me deu uma oportunidade de cantar numa festa que ele ia fazer.

Vocês se falaram mesmo no seu aniversário de 18 anos, certo? A gente se conheceu de verdade… 

[Pabllo olha para fora do quadro da câmera, de onde Yan fala]: Explica que cê sabia quem eu era, mais ou menos. 

Não, eu já tô falando. 

[Yan fala ao fundo] Eu tô ouvindo. 

Eu já conhecia o meu pai, mas ele era muito metido. Então, tipo, “Ai, gata, ele se acha”. Mas aí nesse dia eu pude conhecer ele melhor, ver que ele não era tão metido, ele era um pouco menos metido [risos]. E aí tudo começou, sabe? Eu lembro de quando eu lancei “Open Bar”, que foi meu primeiro single que eu chorei, meu pai olhou pra mim e falou que tudo aquilo era só o começo. E realmente era só o começo. Eu devo tudo ao meu pai.  

LEIA TAMBÉM: A cantora Gloria Groove mistura rap com o universo drag queen e subverte os conceitos de masculino e feminino

E foi uma loucura, vocês tiveram que gravar esse clipe correndo... A gente mandou a música para o Diplo. O Gorky era muito amigo do Diplo. Ele enviou a faixa, o Diplo achou incrível, daí ele falou: “Mas tem que lançar essa semana, tá?”. Então, a gente teve que se virar pra gravar esse clipe, a gente gravou em duas casas, foram dois dias, né?

[Yan no fundo diz que foi em um dia só]

Não, eu lembro de você pegar a gente lá em casa de tarde pra gravar. Foram dois dias de gravação. E daí, menino, foi babado, porque eu não tinha dinheiro, nem de onde tirar. Eu tinha acabado de pedir demissão do meu emprego de telemarketing, porque eu já tava de saco cheio de ficar me dando pra uma coisa que não tinha retorno nenhum e, porra, eu tava cansada, tava bem revoltada, a Guerra dos Canudos e tal [risos]. E pedi demissão e foi bem na época que eu tava assim, vou me jogar nisso. Eu lembro de ver quando o clipe lançou. Vi no meu celular, estava no meio da praça da cidade, com uma amiga. Eu assisti ao clipe pela primeira vez sentada na praça, chupando um picolé. Ai, foi muito doido, porque hoje em dia eu não posso nem mais andar na praça.

Daí estourou, né? E daí você teve que criar um show, percorreu o Brasil com o show de vinte minutos. Como é fazer isso? Além de correr com esse show, eu tive que gravar o EP, né? Ninguém se lembra disso, mas eu tive que gravar um EP correndo, com versões que nem poderia lançar. A única faixa que lançou foi “Open Bar”, porque eu tenho os direitos do meu namorado [risos]. E daí a gente saiu pelo mundo fazendo esse show. Era muito louco, porque eu não tinha essa noção de plateia em cima de mim e pessoas gritando meu nome, sabe? Eu tomei um susto, eu falei assim: “Será que vai vir gente me ver?”. Porque eu não sabia, mas eu chegava lá e tava esgotado, sold out.

E ao que você acha que se deve esse sucesso todo? À minha persistência dos anos anteriores, eu sempre acreditei em mim, eu sempre trabalhei nisso. Vim do Maranhão para São Paulo em busca disso, não consegui lá, mas eu consegui aqui. E ao que eu devo isso? À minha persistência, eu nunca desisti, eu nunca fiquei choramingando, “ai eu não vou conseguir”. Eu tinha meus problemas, todo mundo tem, mas eu sempre pedi pra Deus disposição, mansidão e muita força de vontade. Muita saúde em primeiro lugar para que eu pudesse correr atrás das minhas coisas. Porque o que a minha mãe me ensinou é, meu amor, sentado, não vem nada. Você tem que correr.

Por falar em aprendizado, você ficou parte da quarentena na casa da dona Verônica, né? Ainda tá morando lá? Eu sempre morei com ela. Desde sempre. 

E eu já vi gente nos comentários te perguntando por que você não se muda. Por que você não vai para um Condomínio na Barra da Tijuca ou para um apartamento de luxo em São Paulo. Por que você escolheu essa vida, Pabllo? Oxe, porque eu sempre fui assim, sabe? As pessoas, elas não gostam do artista, elas querem a fofoca, elas querem saber da vida pessoal, elas querem saber da ostentação, elas querem saber com quem o fulano tá namorando, com quem o fulano traiu. O carro que o fulano comprou. Acho que na vontade de suprir o que elas não têm. Mas tipo, cara, eu tenho tudo que eu preciso, eu tenho saúde, eu tenho a minha família, eu tenho uma vida ótima aqui em Uberlândia. Eu posso andar na rua da minha casa, eu tenho pais, não tenho um monte de gente gritando na minha porta. E outra, eu nunca quis ser famosa para ser uma pessoa que esbanja dinheiro, eu nunca quis ser as celebridades, sabe? A fama e ser celebridade são coisas diferentes, porque a celebridade é para as pessoas que vivem da aparência. Realmente, eu não preciso disso, eu não preciso viver da aparência, já faço isso na minha drag, literalmente. 

Você se resolve com a drag? Sim, mas a minha vida pessoal é a minha vida, sabe? Eu gosto de privacidade, eu gosto de ter as minhas coisas e desde sempre eu coloquei isso muito implícito para não me tornar os exemplos que eu tive quando eu era criança, uma Britney Spears da vida, uma Amy Winehouse, esses artistas que sucumbiram, sabe? Por conta da fama. Então, eu botava na minha cabeça que eu sou uma pessoa como você, como qualquer outra. E eu não quero, e nem vou ficar esponjando dinheiro pra ser notada pra, ai, sabe? Não é de mim, não é do meu feitio.

LEIA TAMBÉM: Britney Spears e a vida na gaiola de ouro

Como foi esse começo de quarentena? Você chegou até a fazer vídeo dando aula de como fazer pão de queijo. Nossa, era assim, matar um leão por dia. Ai, 2020 para mim foi um ano muito saco, porque, além de dar uma freada muito brusca nas coisas que eu tava acostumada a fazer, eu me deparei com a ansiedade. Nunca fui uma pessoa ansiosa, mas eu comecei a lidar com a ansiedade, então, fui focar nas coisas que eu gostava de fazer, que são os momentos com a minha mãe, na cozinha, fiz vídeos ensinando receita de pão de queijo. Comecei a malhar, tive uma mudança não só no corpo, mas mentalmente também. Hoje em dia, eu sou uma pessoa muito mais paciente e eu dou muito mais valor a cada minuto. Pode ter certeza que eu tô valorizando cada minuto dessa conversa que a gente tá tendo aqui. É buscar estar presente mesmo, porque depois que você vai embora, amor, isso aqui não valeu nada. Eu aprendi isso muito nessa quarentena.

E daí, depois que as coisas começaram a andar um pouco mais e o trabalho remoto começou a pintar, fazer live, melhorou? Eu odeio live.

Por quê? Porque não tem fã em live, só tem um monte de computador e problemas técnicos. Os problemas técnicos que eu tinha no show sumiam nos gritos dos meus fãs. Eu odeio esse novo normal, eu não quero esse novo normal. Eu quero o meu normal de sempre. Então, meu amor, se cuidem, usem máscara, usem álcool em gel, vamos se vacinar e acabar logo com essa palhaçada.

E como é que vai ser a divulgação pesadíssima de um álbum dentro desse novo normal horroroso? Eu falo pra vocês que odeio live e depois digo que vai ter uma live [gargalha]. Gente, cinco anos de carreira, então, a gente vai trazer palcos, figurinos, um mega show mesmo, onde os fãs vão poder interagir comigo e vai ser muito legal. Vai ser este ano ainda.

LEIA TAMBÉM: A arte drag no isolamento

Qual foi a primeira vez que você teve contato com drag queens e com travestis? Eu sempre fui rodeada de travestis, de gays, de pessoas da comunidade, porque minha mãe trabalhava num posto de saúde. E na minha rua também moravam meninas, que eram garotas de programa, que eram travestis. Então, elas passavam por esse posto, né? Para fazer consultas e elas acabaram conhecendo a minha mãe. Então, elas vinham na minha casa sempre. Olha como eu sou uma pessoa privilegiada, né, meu amor? Porque desde sempre isso era conversado na minha casa, nunca foi tabu, nunca foi: “Ó, meu Deus, ela é travesti”. Isso com 11, 12 anos. Depois, quando a gente foi crescendo, eu fui vendo o quão aquilo foi importante pra minha vivência, né? De estar sempre junto e conhecer e dar valor nas meninas. E ao mesmo tempo eu fico muito triste porque como eu cresci sabendo de tudo isso, hoje em dia eu sei o quanto o preconceito é bastante pesado no país que mais mata esses corpos. Saber que isso acontece, saber que são violentadas, saber que não têm as mesmas oportunidades, saber que são marginalizadas e que estão assim. Ou estavam, né? Porque agora isso tá acabando, graças a Deus. Então, a gente fica um pouco mais feliz, mas isso foi muito fundamental para a minha carreira, para a minha vida, como pessoa e o contato com as primeiras drag queens também se deu nessa época, quando eu já estava em Caxias [no Maranhão]

Voltando agora um pouquinho pro álbum novo, você disse que compôs também, que as músicas autorais têm sua mão. Você já disse que precisa criar um personagem para cada música que compõe. Sobre o que são essas músicas e que personagens você viveu para criá-las? Nossa, olha, eu tenho um time de compositores que trabalha comigo, junto com o pessoal da Brabo Music, que a galera já conhece. Eu escrevi as músicas também junto com essa galera, tem uma música que eu escrevi junto com a Alice Caymmi, que também escreve músicas pra mim, ela escreveu junto comigo “Problema Seu”. Então, essa parceria já vem de longa data. E essas músicas falam de coisas que eu vivi, igual “Ama Sofre Chora”, é uma coisa muito pessoal. “Triste com T" também, porque na pandemia eu só fiquei triste e com tesão. Vai falar de coisas que eu vivi do ano passado pra cá. E eu tenho que colocar isso nas músicas, porque, além de marcar como as datas, tipo, “ai, nessa época eu só tava assim, tal, tava assado”, tem muitas músicas também pra cima, tem as covers que eu tive o prazer de regravar, que são músicas animadas, são letras pra cima, pra gente esquecer também um pouco dessa tristeza, dessa coisa de pandemia. E eu tô muito ansiosa para fazer isso valer nos palcos de verdade.

Qual foi a última vez que você fez um show de verdade, Pabllo? No Mardi Gras da Austrália, em 2020, no começo do ano. Foi o último show que eu fiz. Eu tinha acabado de fazer Carnaval, né? Então, era Quarta-feira de Cinzas, eu peguei o avião, fui pra Austrália, fiz dois shows lá. O que eu lembro é que eu estava muito animada com os meus pais, a gente se divertindo nos shows, né? A gente foi no zoológico. Então, tipo, quero que isso acabe logo, eu quero voltar.

Não sei também o quanto você fala sobre isso, mas com o Roberto Cabrini anos atrás você falou da história do seu pai biológico, que não esteve na sua vida. Você foi criada pela sua mãe, que foi pai e mãe, e ele te procurou depois do sucesso e você não quis retomar essa relação, que na verdade nunca existiu, né? Não era retomar, não era começar uma relação. Isso mudou desde então? Mudou como?

Você chegou a ter algum contato com ele? Ele voltou a te procurar? Ou seus pais são o Yan e os empresários que trabalham com você? Sim, meus pais são o Yan e o Leocádio Rezende [empresários de Pabllo]. Inclusive, tô até pensando em botar o nome deles no meu RG, que realmente são os meus pais de verdade. De resto, não tenho o que falar. É isso que eu falo pros meus fãs, criem suas famílias, suas comunidades, não esperem afeto de alguém que não te ama de verdade, não te aceita nem te apoia. Crie suas redes, foi isso que eu fiz.

Eu fiz essa pergunta mais por causa de uma situação específica que foi você cantando “Indestrutível” no Big Brother Brasil para o Gil do Vigor e chorando. Você sempre disse que é uma música difícil de cantar porque te emociona. Naquele momento te emocionou mais ainda? Sim, porque o Gil tem uma história muito parecida com a minha, né? Criado por mãe solteira, não teve apoio do pai, e é uma pessoa que nunca desistiu em meio aos problemas, sempre vigorou, como ele mesmo fala, ele nunca, por nenhum momento da vida pensou em desistir. Porque eu também sou muito assim. Eu acho que a gente tem que persistir cada vez mais, tem uma pedra, chuta ela, se tiver outra, pega e taca na cabeça de quem te jogou. É isso. 

O Gil fala muito de você no livro dele, não sei se você chegou a ler, mas você e a Britney aparecem muito [risos]Recebi esta semana. Estou lendo com a minha mãe. Conheci ele pessoalmente, conheci a mãe dele, meu Deus, uma fofa. No evento da Parada do Orgulho. 

LEIA TAMBÉM: "Gil do Vigor ensinou o Brasil a ser livre", diz sua mãe, Jacira Santana

E como foi conhecê-lo pessoalmente? Ah, é uma emoção total, ele é muito fofo, meu Deus, um nenenzão, ele é uma criança crescida e a mãe dele também, uma fofa, maravilhosa. A mãe dele é muito amiga da minha mãe. 

Como é que elas se aproximaram? Por causa do BBB, né? Minha mãe desde o primeiro dia já se encantou com o Gil e começou a levantar a torcida, aí minha mãe também coordena vários grupos de vittarlovers. Minha mãe é babadeira, meu amor. Ela vai atrás. E as duas são muito parecidas. 

Pabllo, você falou há pouco de Deus, e você aparentemente tem uma crença muito grande, né? Cê acredita em Deus? Óbvio! Acredito muito em Deus e nas coisas que ele preparou pra mim. Eu sempre agradeço ele, as coisas boas, as coisas ruins, porque me moldam e eu sou uma pessoa muito positiva, eu não gosto de gente negativa do meu lado, porque atrai. 

Como são seus encontros com Deus? Como é que você conversa com Deus? Todos os dias, todas as horas. Eu não preciso ir em igreja nenhuma pra falar com Deus, Deus tá aqui ó, sabe? Deus tá em mim, tá em você, tá nos seus pensamentos, tá nas coisas boas que você deseja pra alguém

Você sempre falou e fala muito sem medo sobre política. Há tempos se coloca a favor do impeachment do presidente Jair Bolsonaro. É uma questão pra você? Eu não aguento mais, sabe? Tipo, eu lembro no dia da eleição em que esse infeliz ganhou a presidência, eu fiquei muito triste, eu chorei porque em alguma parte do meu coração já sabia que a gente ia passar por momentos muito difíceis. Depois, veio a pandemia e todo esse descaso, esse desgoverno. E ainda ter que lidar com alguns artistas que têm uma voz muito grande se negando a falar, se negando a se justificar e ainda ficando com raiva da cobrança. Eu acho que a gente tem que pensar não na gente, mas no coletivo, a gente tá vendo um monte de morte todos os dias, são mais de quinhentos mil mortos para um vírus que tem vacina. E o representante do país não fez nada. Eu acho que ele chega na casa dele, ele acha bom, ele ri. Só pode. É muito frustrante ver como ele causa escárnio e faz piada das pessoas morrendo. No dia em que ele fez que estava ficando sem ar, aquilo me deu um ódio tão grande, porque muitas famílias brasileiras estão passando por isso nesse momento e a gente não vê respeito. A gente não vê nenhuma vontade em querer ajudar, em querer mudar essa situação, né? Então me deixa muito triste, muito revoltante. Impeachment sim, impeachment agora, impeachment pra ontem, porque só ele saindo do poder, só com nova eleição, só com um novo representante que não seja da corja dele, a gente vai mudar essa situação.

Você paga algum custo por se posicionar assim, custa contrato ou custa ofensas? Ofensas eu sempre tive desde que eu era criança, amor, não é uma ofensa a mais ou a menos que fazia e fez diferença. Perder contato com gente que não vai de encontro às minhas posições, isso eu tô me livrando, sabe? Quando a gente fala na oração e que Deus nos livrai-nos do mal, é isso, disso que ele tava livrando a gente. Eu não tenho medo de me posicionar, eu não tenho medo de perder trabalho, porque trabalho não vai me faltar nunca, e com pessoas que, eu garanto pra você, que não têm esse tipo de posicionamento. Então, não tenham medo nenhum.

LEIA TAMBÉM: "Artista deixa todo fascista louco", diz Zélia Duncan

Você entende por que outras estrelas do seu calibre têm esse medo? Não entendo, não. Não entendo, mas acho que elas são coniventes com isso. Quando você se cala, você é conivente.

Porque, às vezes, eu sinto uma curiosidade legítima de perguntar, mas sem julgar. Tentar entender de onde vem o medo. Eu não sei. Porque eu não tenho. E eu quero um contato de uma pessoa dessa? Vai perder a amizade por causa de política? Vou. Eu solto a mão mesmo, não tem esse negócio, vamos segurar as mãos, não, eu solto a mão mesmo.

Estamos em junho, no mês do orgulho, que costuma ser o mês em que chamam o pessoal da comunidade para trabalhos que não chamam no resto do ano. O que você pensa disso? Sim, junho sempre é aquela coisa, uuuh gay! Já sabe. Que bom que as empresas chamam a gente, que chamam outras pessoas da comunidade, que bom, mas né? Seria melhor ainda se fosse o ano todo, se a gente não fosse taxado como uma bandeira, só como uma bandeira, só como uma sigla. A gente trabalha, eu tenho certeza que você tem suas contas pra pagar o ano inteiro, tem que comprar as suas coisas, tem que viver. Então, o mais chato é quando a gente se depara realmente com empresas, com marketing que só querem vender em cima desse mês, sabe? Não são todas, não pode generalizar, mas tipo, já me deparei com algumas coisas que me deixaram bem chateadas, bem, tipo, “ah, gata, vou fazer isso aqui logo, eu quero ir embora daqui”. É o “vamos lacrar”, o famoso “vamos lacrar”. 

Você já se pegou num trampo desses, assim, que você percebeu lá na hora que não era uma preocupação legítima e não era uma coisa da realidade da empresa? Infelizmente. Os textos que mandam pra gente… Tipo “neste mês queremos lacrar com vocês”, sabe? A mãe pega, acho que é, digita no Google, gira as gays, mas não sabe o que é uma travesti, não sabe o que é uma transsexual, não sabe o que é o bissexual, não sabe o que é um queer, não sabe o que é a sigla, não sabe nem falar a sigla, né? Então, ai, fico muito chateada. É como uma amiga minha fala assim, mas vamos lá, que a gente tem que pegar o dinheiro deles. É isso, a gente não pode generalizar, né? Porque temos várias empresas que são legítimas, que olham pra gente com olhar mesmo de porra, não é só este mês Por exemplo, trabalho com Adidas vai fazer cinco anos, é uma empresa que tá comigo desde o começo, que sempre faz ações, que sempre motiva, não só eu, que sou um gayzinho, mas sempre tá com as meninas, as trans e as travestis, as não-binárias, todos e todes, sabe? E tem outras empresas também que são assim, certeza que você conhece algum. Mas a gente vive nesse meio capitalista, horroroso, marqueteiro, onde tudo é feito para um produto final. Então, a gente tem que tomar muito cuidado, né?

Você já sabe quando vai tomar a vacina? Eu não, mulher, mas, porra, queria que fosse já. Minha mãe já vacinou a primeira dose, graças a Deus. Um dos meus pais já vacinou. Eu e meu pai ainda não. Minhas irmãs também não. Eu fiquei muito feliz em saber que no Maranhão já estão vacinando pessoas de dezoito, dezesseis anos, Maranhão sempre pisando, né, meu amor? 

Já cogitou tomar em outro país? Tem muita gente com grana e com condição que entrou num avião e foi, né? Eu tô cogitando isso porque, se eu não tomar vacina agora, como é que eu vou fazer os meus compromissos no ano que vem? Então, eu tô aqui porque eu sou uma pessoa que acredita muito no meu país, na minha cidade. Caralho, vai vir a vacina aqui na minha cidade, eu quero tomar aqui na minha cidade, sabe? Mas se isso não acontecer, eu vou pegar meu jatinho e partir pra Nova York.

Você falou um pouquinho antes que a pandemia abalou bem o seu emocional, como é que foi isso, assim? O que você sentiu nesse período em que teve que desacelerar e de repente você se viu em Uberlândia na vida que tinha dez anos atrás? Nossa, muito louco, porque como a gente ficou em casa, a gente tinha que lidar com os nossos problemas internos, que muitas das vezes a gente ficava driblando. Vou fazer alguma coisa, ainda vou esquecer, vai passar… Só que não é assim, a gente não esquece das dores, a gente não consegue passar por elas. A gente tem que dar nomes aos sentimentos que a gente sente. Então, muitas vezes eu me pegava triste e ficava me perguntando: “Mas por que é que eu tô triste”? Aí eu lembrava, ah, porque estamos passando por um momento muito difícil, né? Aí, de uma hora pra outra, muito ansiosa, sem saber quando que eu ia voltar a desempenhar o papel que eu mais gosto de fazer, que é estar no palco, que é cantar, que é trabalhar. Outros dias eu estava muito empolgada, muito feliz, querendo fazer mil projetos. Outro dia eu só não queria levantar da cama. E aí eu percebi que eu sou humano, tanto quanto qualquer outra pessoa, que ser artista não me blinda de nada. Eu tenho sentimentos e uma coisa boa que essa quarentena me fez enxergar foi que eu não posso de nenhuma forma deixar que isso suba pra minha cabeça, e não tô falando da fama, eu tô falando de qualquer sentimento. Se eu estiver com raiva, eu vou falar. Se eu estiver triste, eu vou falar, e se eu estiver feliz, eu também vou falar. E isso me deixou muito aliviada, sabe? Quando eu boto pra fora. Então, eu falo pras pessoas que tão passando por algum tipo de problema desse, coloquem pra fora, busquem fazer terapia, busquem conversar com alguém que você gosta, mas não se isole, não fique guardando, porque você não é baú.

Esse botar pra fora é pro público ou só pras pessoas que tão perto? Pras pessoas mais próximas, eu acho que muitas das vezes num é legal pros meus fãs chegar e dizer: “tô triste”. Tá todo mundo triste. E aí? Eu prefiro me isolar e voltar, não vou ficar, tipo: “Ah, acordei triste”, no Twitter, pra quê? Que que vai mudar? Eu prefiro estar ali nesse espaço quando eu tô bem, quando eu tô com a cabeça boa, que é pra eu poder passar o alívio. Imagina alguém que tá lendo lá, tá pior que eu, vai ver eu falando que eu tô triste. Meu Deus.

Anos atrás, você disse que você incorporava uma grande cantora antes de entrar no palco. Um dia era a Whitney, outro dia era a Madonna. Isso ainda rola, e quem você anda incorporando? Olha, eu não tô mais incorporando nada. Cada vez mais eu tento incorporar eu mesma, e tento cada vez mais descobrir quem eu sou, porque às vezes eu fico muito confusa. É doido, mas é verdade. A gente, cada vez mais, busca se conhecer, ainda mais agora durante essa pandemia. Quando voltar aos shows, eu não vou incorporar ninguém. Eu quero ser eu. Eu vou incorporar a pessoa que eu tô me tornando, a pessoa que eu me tornei, desde esses cinco anos. E acho que eu vou colher bons frutos. 

Que tipo de frutos? Digo psicologicamente, sabe? Eu trabalhei muito isso dentro da minha cabeça nesse ano passado, saber quem é você, veado? Quem tá aqui na frente de mim, todo dia quando eu acordo no espelho? Eu não sabia até ano passado, eu só ia fazendo as coisas. Aparecia no trabalho, trabalhava. Disco, gravava. Trabalho, trabalho, trabalho, trabalho. Um dia de folga, caía dura, dormia, saía pra me divertir com os amigos. Mas e aí? Que que você tá fazendo no meio disso tudo? Você tá vivendo? Quem é você? Eu sou só um cavalo que trabalha? Então, cada vez mais eu busco saber o que eu quero. Quem eu sou e cada vez mais ser mais assertiva pra eu não me sentir ansiosa, não me sentir pesada, não me sentir carregada. Então, é um conselho que eu dou pra todo mundo. Tentem descobrir quem vocês são, porque cada vez mais vocês vão saber o que vocês querem.

play
Créditos

Imagem principal: Ernna Cost

fechar