Jacira Santana: Gil do Vigor ensinou o Brasil a ser livre

por Larissa Lins

A mainha que fez Gilberto Nogueira estudar pra não se lascar fala sobre a vida antes do BBB 21 e homofobia: ”A religião pode ser uma prisão”

Com 200 mil seguidores recém-conquistados no Instagram, a pernambucana Jacira Santana, a maior confidente de seus três filhos, nunca conversou com nenhum deles sobre fama ou riqueza repentinas. Com a lucidez dos que atravessaram uma vida de dificuldades, ela apostou nos estudos de Gilberto, Juliana e Janielly como única rota possível para afastá-los da pobreza que sempre cercou a família. E quando a participação do filho no Big Brother Brasil 21 foi confirmada, o único prêmio com que Dona Jacira se permitiu sonhar foi uma máquina de lavar.

Nem o próprio doutorando em economia esperava ir tão longe na televisão – segundo seus sonhos proféticos, ele não resistiria à segunda eliminação. Mas quis o destino que, na mesma semana em que Gil do Vigor se tornou um dos quatro finalistas do reality show, Jacira recebesse em casa a tão esperada lavadora e secadora automática – um oferecimento de uma das muitas marcas que têm sondado a dona de casa em sua nova carreira de influenciadora digital. Em nome de Jesus, como diz a dona do bordão que ganhou o Brasil na boca de Gil.

Moradora de Jaboatão dos Guararapes, Região Metropolitana do Recife, Dona Jacira bateu um papo com a Tpm sobre os planos pro sucesso – seu e de seu filho –, o primeiro beijo entre dois homens em mais de 20 anos de reality show e como sua história forjou a mulher resiliente e corajosa que Gilberto apresentou ao Brasil.

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Tpm. Gilberto falou algumas vezes sobre o medo de expor sua sexualidade no Big Brother Brasil e te decepcionar. O que acha disso?

Jacira Santos. Eu nunca reclamei, nunca falei nada sobre isso. Inclusive, eu sempre achei que ele deveria assumir. Se ele se prendeu por tanto tempo, não foi por minha culpa. A culpa foi da igreja, porque lá não queriam isso. Talvez ele pense que eu vá ficar chateada, mas não pela sexualidade dele, mas por causa da exposição. Em relação à homossexualidade ele não está preocupado com isso, tenho certeza. Ele não vai pensar que sou contra, de jeito nenhum.

Como você se sentiu quando ele se afastou da igreja? Sabia que a ruptura tinha a ver com sua sexualidade? Ele, na verdade, assumiu a homossexualidade dentro do programa. Até então, ele não tinha assumido. Para mim, foi muito bom que ele tenha se afastado da igreja. Sinceramente, eu amei. A religião pode ser uma prisão mental. Cada religião tem a sua pressão, então você tem que seguir aquelas doutrinas e nem sempre pode ser você. Muitas vezes não pode vestir isso, não pode fazer aquilo... Você fica preso àquelas regras. Eu gostei porque hoje eu vejo Gilberto sendo ele mesmo. E Gilberto é um menino de caráter, um menino maravilhoso. Uma religião não pode fazer com que ele deixe de ser quem é.

O que achou do selinho de Gilberto e Fiuk? E do beijo com o Lucas Penteado? Eu acho que foi muito massa! Ele está fazendo o que gosta, o que quer. E a gente tem mais é que aproveitar as oportunidades da vida, que são únicas. Beijou e está beijado! E tem que beijar é mais! Ele estava a fim, fez e acabou. Beijou e foi ótimo. Tudo que a gente vive é válido, não é verdade?

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Algo te surpreendeu no Gilberto que você assistiu no programa? Ele sempre foi muito brincalhão, muito irreverente, sabe? Fiquei surpresa com esse negócio de ele beber, estar mais solto... Mas ele está sendo muito ele, levou esse programa com muita seriedade. O que mais me surpreendeu realmente foi ver ele bêbado, porque eu nunca vi Gilberto beber. E ele me proibia de beber em casa, tinha muito aquela coisa de ser sério. Nunca vi nem meu filho sem camisa dentro de casa.

O Brasil ama a expressão “em nome de Jesus”. É uma expressão popular, mas virou a cara de Gilberto. Ele aprendeu com você? É a cara da gente mesmo! Mas veio de mim, eu sempre falei isso. "Em nome de Jesus, criatura!". Sempre falei assim dentro de casa, e ele pegou esse costume. Dos meus filhos, é quem mais fala isso. Gilberto, aliás, pegou muita coisa de mim.

Durante o programa, Gilberto foi aceito em vários programas de doutorado. Você acha que ele vai seguir na vida acadêmica ou vai aproveitar o sucesso do BBB? Eu realmente não sei. Eu não tenho um palpite porque Gilberto ama estudar. Mas, quando ele sair do programa e ver como estão as coisas aqui fora, não sei como vai ficar a cabeça dele. Acho que ele vai conversar muito comigo. É uma decisão difícil.

Como foi a criação dele? Você sempre incentivou que estudasse bastante? Eu dizia para ele estudar para não ter uma vida difícil. Para não passar mais fome. Não dormir na rua. Para os filhos dele, o futuro esposo, a família ter uma vida decente lá na frente. O estudo é que leva você à vida decente. Porque pobre já vive num sofrimento danado. Pobre sem estudar, aí é que lascou! Um pobre sem estudo não tem perspectiva. Nunca.

O que você precisou enfrentar, enquanto mãe solo e mulher nordestina, para garantir o sustento e a educação dos filhos? Trabalhei muito, lutei muito. Trabalhei como empregada doméstica, serviços gerais, merendeira, auxiliar administrativa. Fiz de tudo um pouco para criar meus filhos. Cada vez que a gente entrava numa situação mais difícil, muitas vezes sem comida, eu sempre dizia aos três: estudem, estudem, estudem. Porque só o estudo quebra barreiras. O estudo te leva de uma situação ruim para uma situação melhor.

O pai de Gil abandonou a família quando ele tinha 4 anos. Como foi a vida a partir dali? Sua família lhe apoiou? Eu não posso dizer que a família me apoiou. Não tenho mais mãe, ela faleceu quando eu era pré-adolescente. Não tive uma família de fato. Tenho um pai vivo, mas que não me criou. Fui criada por minha avó. Só tinha minhas irmãs, mas elas também não podiam fazer muita coisa. Meu apoio fui eu mesma. E alguns amigos.

Como era o dia a dia de vocês antes do BBB? Gilberto vivia da faculdade para casa e para a igreja. A gente ficava sempre juntinho, nossa rotina era fazer as refeições juntos. Quando ele estava em casa à tarde, a gente tomava açaí, uma coisa que a gente gosta muito de fazer. Quando ele tinha provas ou estava com muita coisa na faculdade, íamos ao cinema vez em quando.

De repente, todos sabem quem é Dona Jacira, a mainha do Gilberto. Como está lidando com a fama repentina? Ainda em êxtase. Porque não é fácil, né? Você ter uma realidade e, de repente, cair numa outra. Fico meio assim... Mas está sendo gostoso, está maravilhoso. Tem a melhor parte que é o orgulho que sinto dele. Sou muito orgulhosa de ser mãe dele.

Seu carisma tem feito sucesso. Pensa em investir na própria carreira de influenciadora? Estou pensando, sim, em seguir essa carreira de influenciadora! Tô gostando. Mais pra frente, quero fazer um canal no YouTube. Estou começando a aprender as coisas agora, eu não sabia mexer muito nesse negócio de redes sociais. Tem sido bem legal.

Se Gil for campeão do programa, ele revelou seus planos para o prêmio? Ele nunca me revelou sobre planos para o prêmio porque, quando estava para entrar, dizia que não ia ganhar. Ele achava que ficaria somente duas semanas no programa por causa desses sonhos que ele tem, que considera proféticos. Ele sonhava que sairia na segunda semana. Não falava no prêmio, falava em ganhar coisas. Dizia que queria ganhar uma máquina de lavar para mim. A gente só falava nessa máquina, toda vida ele falava nisso, o bichinho...

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Para você, o que Gil ensinou ao Brasil? Gilberto ensinou o Brasil a ser livre. A ser você mesmo. Ensinou o valor de ter um coração bom, do amor e da amizade verdadeira. Ensinou que, às vezes, a gente se entrega a uma amizade e passa a refletir muitas coisas do outro, tanto positivas, quanto negativas. Aquela coisa de você dar a outra face. A menina [Viih Tube] botou ele duas vezes no paredão, mas ele não indicou ela. Aquilo, para mim, mostrou que a gente não tem que pagar o mal com o mal. Mostrou o coração bom que meu filho tem. Que um filho pobre, de mãe solteira, que vem de uma região como Jaboatão dos Guararapes, Vila Rica, Alto da Fábrica, que foi onde ele nasceu e cresceu, também pode chegar ao Big Brother. E mais: ser um doutor. Que é o que ele é.

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