por Nathalia Zaccaro

Depois do segundo filho, a cantora está se sentindo menos bicho do mato, mais gata e segura pra defender suas vontades. E a primeira delas é conquistar os vizinhos latinos e cantar em espanhol

Com seis discos lançados, Céu já usou sua voz e sua sensibilidade para seduzir corpos malemolentes, fazer do cangote de alguém seu lugar preferido no mundo, cantar a chegada da primeira filha, exaltar outras mulheres e contar histórias que a transformaram em uma das principais compositoras e cantoras de uma geração.

Em fevereiro deste ano, ela deu uma pausa na carreira para a chegada de Antônio, seu segundo filho, fruto do casamento com o Pupillo, baterista da Nação Zumbi. Foi o segundo encontro de Céu com a força visceral da maternidade. Ela já era mãe de Rosa Morena, de 10 anos. De volta aos palcos, a cantora está transpirando toda a potência dessas experiências. “Eu estava afim de voltar. Amo fazer o que eu faço. O que posso fazer para ser a melhor mãe para eles é música. É me realizar. Isso é minha vida, é importante demais para mim.”

Se sentindo mais gata e menos bicho do mato do que no início da carreira, ela está também mais a fim de falar e se posicionar na internet e fora dela. “Fiquei com vontade de falar das coisas que me pegam”, diz. O próximo disco deve sair ano que vem, mas, antes disso, ela lança um EP com versões em espanhol de alguns dos sucessos de Tropix, seu mais recente e premiado disco.  “A Ava Rocha é que está fazendo as traduções. Ela é colombiana, tem um espanhol maravilhoso, lindo, e pensei que seria a melhor pessoa para fazer, porque ela é uma poeta”, conta. “Camadas” e “Amor pixelado” são algumas das faixas escolhidas para a versión. "Fico indignada de pensar que já toquei tantas vezes no Canadá e nenhuma vez no México, no Uruguai ou no Chile. Tenho muita vontade de fazer shows nesses lugares.”

Céu trocou uma ideia com a Tpm sobre seu aqui e agora, se liga:

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Trip. Você voltou a ter uma agenda de shows mais cheia depois do nascimento do Antônio. Estava com saudade?
Céu.
Eu estava afim de voltar. Amo fazer o que eu faço. O que posso fazer para ser a melhor mãe para eles é música. É me realizar. Isso é minha vida, é importante demais para mim.

A experiência do segundo filho está sendo muito diferente da que teve na primeira gestação? O primeiro e o segundo filho são dois marcos muitos grandes. O primeiro é um pé na porta, é muito forte mesmo. Uma transformação basal na mulher, vem o bicho primitivo, o animal. A gente descobre essa força. No segundo você já sabe que tem essa força, você fica mais calma, sabe que não precisa ouvir todo mundo e que sabe fazer do seu jeito.

Ser mãe também faz pensar sobre ser filha, né? Eu tenho muita admiração pela minha mãe, pela história dela, pela força dela [a mãe de Céu é a artista plástica  Maria Carolina Whitaker, inspiração de Toquinho e Jorge Ben para a música "Carolina Carol Bela"]. Sou fisicamente muito parecida com ela, mas somos muito diferentes enquanto mães. Ela talvez não tenha feito o que ela queria fazer e isso acarretou questões na maternidade dela. E eu sempre fui muito determinada para as coisas que eu queria. Não tive uma infância fácil, foi cheia de questões familiares e muito cedo tive que ser independente, ficar esperta.

Você sempre quis trabalhar com música? A música me fisgou, mas eu não queria ser artista. Minha mãe e meu pai [o compositor Edgard Poças] são artistas, minha família tem muitos artistas e isso não era o que eu previa para mim. Mas, quando eu vi que tinha mesmo sido tomada por isso, fui muito determinada. Mas hoje eu olho para a minha mãe e  respeito muito o jeito dela, consigo entendê-la, por mais que a gente pense diferente. E é assim com meu pai também. Acho que a maternidade bota os pingos nos is. Não é fácil. A maternidade é o mais visceral de tudo que irradia na vida.

Você tem usado seu Instagram para falar sobre maternidade, aleitamento, feminismo. Por que decidiu se colocar mais? Fiquei mais aberta para a internet. Antes eu era um bicho do mato. Não foi tipo 'ai preciso falar com meu público', foi vontade mesmo. Vontade de falar das coisas que me pegam. Para mim a comunicação sempre foi muito mais via música. Eu sou péssima de discurso, nunca fui boa de falar de mim. Por timidez e também por não saber muito qual a "interessânsia" disso. Hoje eu tenho um caminho que posso dividir com mais segurança.

Sente que está mais madura? Por enquanto, estou achando que ficar mais velha é só melhor. Pode ser que isso mude depois de amanhã, não quero vir com hipocrisia, mas é muito mais gostoso. Eu tinha uma coisa de menina, de 'ai, não sei se eu posso ser bonita e ser respeitada ao mesmo tempo', porque eu achava que não era da mesma ordem. E isso mudou, a gente está conquistando muita coisa mesmo, para além da minha experiência. Isso é um ganho feminino.

Há alguns anos, várias cantoras e compositoras têm conquistado espaço e lançado trabalhos super relevantes. E vocês são amigas, trabalham juntas, se unem. Qual o impacto dessa diversidade? É a melhor coisa olhar pro lado e ver um monte de mulher maravilhosa. É desafiador, é inspirador. É um presente mesmo. No começo da carreira eu estava bem mais sozinha.

Você vai lançar alguma coisa ainda este ano? Vai sair um EP com algumas versões de faixas do Tropix em espanhol, como "Amor pixelado" e "Camadas", por exemplo. A Ava Rocha é que está fazendo as traduções. Ela é colombiana, tem um espanhol maravilhoso, lindo, e pensei que seria a melhor pessoa para fazer, porque ela é uma poeta.

Por que gravar em espanhol? Essa ideia veio de um desejo de entender porque o Brasil é tão fechado para a comunicação com nossos hermanos. Fico indignada de pensar que já toquei tantas vezes no Canadá e nenhuma vez no México, no Uruguai ou no Chile. Tenho muita vontade de fazer shows nesses lugares.

Toda a cena de artistas que estão fora do mainstream depende de iniciativas como a do Sesc, de investimento em cultura. Você sente que este tipo de recurso pode estar ameaçado no Brasil? Como acha que podemos lidar com a situação? A gente precisa falar sobre essa desvalorização da cultura. Os artistas precisam ir para a frente.  Eu nunca quis usar minha música para bandeiras, nunca foi a maneira como eu me relaciono com música. Mas sou cidadã. Acho que não é só ir pro front, temos que achar as palavras certas.

Créditos

Imagem principal: Luiz Garrido/Esmir Filho (atrás)

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