por Nathalia Zaccaro

Em Taurina, seu terceiro disco, ela grava a irmã, o pai, o filho e se mostra inteira como compositora e como mulher

Anelis Assumpção é ruminante. Há 3 anos, tudo que ela come, cheira, sente e deseja vai virando letra, que vai virando música, sem muita certeza de onde quer chegar. As ideias vêm, voltam, mudam de sentido, vão ganhando novos contornos. “Me sinto uma vaca. Me identifico com esse tempo lento do bicho que tem quatro estômagos. Olhando agora para músicas que fiz há anos eu entendo porque escrevi aquilo, mas na hora era tudo intuição”, explica.

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Ela lança hoje, pela Natura Musical, o resultado de sua ruminação, seu terceiro disco batizado de Taurina. Sim, ela é do signo de touro. Mas a escolha do título vai bem além do horóscopo. “Quis investigar por que o touro representa meu signo, por que o é o macho que simboliza? O touro nem dá leite, enquanto a vaca se doa quase que 100%. É um animal de força, de resistência. Me identifico com essas ideias, mas não atribuo isso só a mim, e sim a capacidade da mulher de existir”.

O feminismo de Taurina é intrínseco ao disco. “Tentei encontrar maneiras de falar sobre isso sem recorrer ao “lugar de mulher é onde ela quiser”, está tudo bem com essa idéia, mas queria um pensamento que não se resolvesse tão rápido, porque não é tão fácil”, diz. O caminho encontrado pela compositora foi explorar o equilíbrio entre a força e a vulnerabilidade feminina. “É um jeito de me perdoar enquanto mulher, enquanto mãe. Me resolver com minhas escolhas e desejos e me colocar forte e firme”, analisa.

Anelis teve sua primeira filha aos 22 anos, se separou, se casou, teve outro filho, com outro pai. “Fui muito julgada, o universo da maternidade pode ser muito cruel, mas acho que meu papel com meus filhos é refletir sobre tudo o que recebi e que de alguma forma me bloqueou e tentar passar pra eles sempre de forma melhor. Minha filha hoje namora uma menina e ela foi estimulada a pensar sobre a relação dela com o corpo, com as vontades dela. Espero que ela seja mais livre da culpa do que eu. E os filhos dela, se ela quiser ter, sejam ainda mais livres do que ela”, explica.

Benedito, o caçula, de 6 anos, fruto do casamento com o também músico Curumim, é uma das participações especiais de Taurina, que conta também com Ava Rocha, Liniker Barros, Tulipa Ruiz, Thalma de Freitas e Céu. A letra da faixa que encerra o disco, Receita Rápida, é de seu pai, Itamar Assumpção, um dos compositores mais autênticos da sua geração. “Ele é muito importante para o meu trabalho, me abriu portas, me ensinou música, me deu de presente essa profissão, esse caminho, que é difícil, mas é lindo. O fato de ele ter morrido faz com que eu cuide disso como um tesouro”, diz.

Mas talvez a presença mais sensível de Taurina seja a de Serena Assumpção, irmã da cantora que morreu vítima de um câncer em março de 2016. A letra de “Chá de Jasmim”, segunda faixa de disco, estava esquecida na caixa de entrada do e-mail de Anelis. “naquele dia eu te dava na cozinha cê gozava e eu fingia que não tinha amor ali”. Serena a tinha escrito, ainda em 2011, a espera de um arranjo. “Na época não tive nenhuma idéia, não me veio nada por bastante tempo. Depois que ela morreu voltei a isso e nasceu uma música cheia de humor, divertida. E é esse o tom que eu quis pra ela, não queria que fosse triste”, diz. 

Mas Serena está também em outras partes do disco. Em “Escalafobética”, parceria com João Donato, Anelis inventou palavras, escreveu maluquices, foi livre para compor sem precisar tentar entender significados. “Só quando eu já estava gravando o disco entendi alguns dos trechos. Percebi que tinha escrito aquilo em momentos de dor e sofrimento com minha irmã. Eu não queria escrever sobre isso, queria pensar em outras coisas, fugir da angústia. Mas acabei escrevendo. Não existiam palavras que pudessem explicar o que estávamos sentindo, então inventei”, conta.

Anelis está transparente em Taurina. Está tudo ali: sua música, seu reggae, a mãe, a filha, a irmã, a mulher. Por todo o disco, ela espalhou trechos de áudios que trocou via whatsapp com amigos e que reforçam o clima íntimo e carinhoso do trabalho. “É um momento muito feliz, de alívio. É uma torneira que se abre e só me sinto bem”, define.

Créditos

Imagem principal: Caroline Bittencourt/Divulgação

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