por Lia Bock
Tpm #162

Um músico de 20 anos que estourou na internet. Um homem 
de saia e uma mulher de barba. Liniker é a nova voz da música brasileira e a nova cara da liberdade de gênero

Liniker usa batom, maxibrincos, turbante e saia, mas não dispensa a barbinha. Saiu de Araraquara, no interior de São Paulo, há dois anos pra estudar e tocar na capital. Já era músico, já era gay, já sonhava em usar vestido e caprichar na maquiagem, mas observado pelo olhar inquisidor, se continha. “Lá não tinha espaço pra isso. Cidade do interior, ficava com medo de me oprimirem, de me agredirem. Porque isso rola mesmo, não dá pra negar”, diz. Em São Paulo, sob o anonimato de quem acaba de chegar, se sentiu livre e passou a se vestir como queria. Explodiu pra si mesmo e, tirando alguns gritos na rua, passou desapercebido até lançar seu primeiro EP.

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Liniker e os Caramelos gravaram suas três primeiras músicas (“Louise do Brésil”, “Zero” e “Caeu”) na sala da casa do guitarrista e jogaram no YouTube. “Esperávamos 20 mil visualizações e alguns shows no interior, mas em cinco dias o vídeo de ‘Zero’ tinha mais de 1 milhão de views. A gente queria que desse certo, claro, mas achávamos que ia demorar um pouco”, conta. E assim, de repente, Liniker era um fenômeno. Uma nova voz da música black brasileira e uma nova cara para os palcos, de barba e batom. “As pessoas me perguntam sobre a questão de gênero, com qual me identifico, mas realmente não sei. Sou bicha, sou preta. Mas não sei se sou homem ou mulher”, diz com a tranquilidade de quem ainda tem muito para viver e usufrui da liberdade de poder ser o que é. Liniker se diz preta (no feminino), mas quando fala do signo, conta que é canceriano (no masculino) e não se ofende quando tratado por um ou outro gênero.

Hoje, já não dá mais para ir para Araraquara, onde vive toda a família, e deixar a saia e os brincos em casa. Liniker é Liniker onde quer vá. “Sinto muito”, ele diz para quem se incomoda. Um tio chegou a questioná-lo e dar uma roupa dele para o sobrinho se trocar, “porque é assim que homem se veste”, justificou. O cantor agradeceu, mas disse que não usaria. O sonho de outro tio era que Liniker fosse jogador de futebol. Foi ele quem convenceu a mãe de colocar o nome de Gary Lineker, importante atacante do futebol inglês dos anos 80 e 90, no rebento. “Vai dar certo! Ele vai ser jogador”, disse o tio à época.

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Ângela, a mãe, acolhe e respeita o filho desde sempre. Quando a família estranhou as novas vestes, ela o defendeu desconversando: “Deixa, ele é artista”. Inclusive, num dos retornos do músico à sua casa em São Paulo, ele achou um rímel colocado pela mãe em sua bolsa. “Muito linda, né? Foi aí que comecei a usar”, conta ostentando os cílios levantados. “Minha mãe é uma mulher incrível. Sempre me empurra: ‘Vai pra sua vida. Se joga no que quer fazer. Se não der certo você volta pra casa’, ela diz.” Ângela criou os dois filhos sozinha e vem dela a veia musical que tragou Liniker desde a infância. Professora de samba rock, chegou a ter uma banda de pagode. 
A família toda respira música. “Meus tios e meus primos são todos músicos 
e meu avô tocava sanfona. Está no sangue. Na verdade, não tinha como eu não ser músico”, diz. Ele cresceu frequentando o Baile do Carmo, uma festa da comunidade negra de Araraquara. “Cresci nesse ambiente de baile black. Só precisava esperar a hora certa e ‘vai nego’”, diz.

“Sou bicha, sou preta. Mas não sei se sou homem ou mulher”
Liniker

A primeira vez que Liniker cantou foi no sexto ano, durante uma apresentação na escola. “Quando comecei a cantar todo mundo ficou de boca aberta. A professora se surpreendeu, disse que não sabia que eu cantava. Bom, nem eu sabia! Foi ali que comecei a pensar no assunto.” Aos 16 aprendeu a tocar violão e começou a compor e aos 20 (hoje) está em turnê pelo Brasil. A cantora Tulipa Ruiz tocou na mesma noite que Liniker no Circo Voador, no Rio de Janeiro, em fevereiro e se apaixonou pelo que viu. “Fiquei encantada com seu som, dança, o rouco da voz, o jeito de cantar, de vestir, de curtir o palco e de desfrutar da delícia que é estar nele. A-do-rei”.

Suas letras são regadas por seus amores e pelo peito dilacerado de dor. “Sofro de amor, sou canceriano. Fazer o quê? Mas eu gosto. Encontrei uma forma de crescer, as dores vinham e eu sofria amargurada. Mas pensava: ninguém vai me tombar nessa vida, não!”, conta rindo. Inspirado por Etta James, Nina Simone, Ella Fitzgerald e Dona Onete, Liniker passou a adolescência assistindo os clipes de Mariah Carey e Whitney Houston na TV. Dá pra imaginá-lo na sala, segurando uma escova de cabelo e entoando “and I will always love you”. De seus contemporâneos, curte Tássia Reis, Paula Lima e a banda Aláfia. E Ney Matogrosso, você se inspira nele? “Acho Ney incrível, fodão mesmo, mas não me inspiro nele, não”, garante. Liniker é ele mesmo e é bem provável que em breve seja um outro Liniker ainda maior. Mas quando perguntado onde pretende estar daqui a dez anos, responde depois de um longo silêncio: “espero estar fazendo música”. Nós também.

Créditos

Pablo Saborido

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