por Giulia Garcia

Documentarista reflete sobre o processo colaborativo que criou com o filho portador de autismo e a influência que ele tem em sua obra

Aos 2 anos, Teo, filho do documentarista brasileiro Carlos Nader, foi diagnosticado com autismo. O pai Carlos sempre teve o cuidado de não expô-lo e de forma alguma o inseriu em seu trabalho como personagem. "Tinha uma coisa muito simples. Eu não tenho como perguntar pra ele se ele queria. Eu sei que ele não gosta de ser fotografado, então não era uma ideia fazer um filme", explica, lembrando que no início foi frequentemente cobrado pela mídia e até mesmo por seus amigos a fazer algo a respeito do autismo através de seu filho.

Essa questão acaba de ser superada e por um caminho de enorme delicadeza. Foi realmente através de sua arte que Nader colocou seu filho em evidência, mas não simplesmente retratando o universo do filho, e sim convidando ele mesmo a fazê-lo. Assim, Teo e ele dividem a autoria de três das sete obras que compõem AUTO, mostra individual em cartaz até dia 17 de março na Galeria Lume, em São Paulo. "Tem sido maravilhoso, mais uma experiência pra chegar perto do mundo dele, dialogar com ele, enxergar através da perspectiva dele. O processo de artista e pai é bem misturado, não dá pra discernir uma coisa e outra."

A Trip conversou com com Nader sobre sua arte e também sobre todo o processo que desenvolve com o filho, na vida e na arte.

Trip. Você diz ter sido cobrado de fazer um trabalho sobre autismo desde que Teo foi diagnosticado, mas não encontrava o formato ideal. Fale um pouco de como foi esse processo.

Carlos Nader. No começo, realmente teve uma cobrança de pessoas próximas e de pessoas da mídia. É importante falar sobre qualquer assunto relacionado à minoria para tornar as coisas mais públicas, mais comuns, mais aceitáveis e diminuir o preconceito. Como eu tenho um trabalho que é visto e é público, perguntavam quando eu ia fazer um filme ou um livro sobre o Teo. Mas tinha uma coisa muito simples, eu não tenho como perguntar pra ele se ele queria. Eu sei que ele não gosta de ser fotografado, então não era uma ideia fazer um filme. Ele não é um patrimônio meu, ele é uma pessoa, tem vontades também. Era um pouco essa a questão.

Mas você o filmou neste trabalho. Apesar de eu ter filmado bastante ele nesse projeto, era outro caso, e ele não aparece em nenhuma das obras. Eu tinha vontade de falar sobre o assunto para ajudar a tornar essa questão e o próprio autismo mais aceitável. Os portadores de síndromes mentais são uma minoria e é interessante que as pessoas tenham mais contato. Porque o preconceito é muito decorrente do medo, do desconhecimento. Eu percebi que ele era um artista, que a experiência de mundo dele era, sobretudo, artística, muito do ponto de vista estético, das artes plásticas mesmo. A vida dele é de experiência com sons, imagens, cheiros. Não só ele participa passivamente, vendo, mas também interagindo com essas imagens, cenas e tudo. Ele está sempre com uma tela na mão, mas ao invés de ficar em redes sociais, fica vendo filmes, vídeos. E ele volta cena pra revê-las com calma, pra ver alguma estética que ele gostou, sempre interage com o mundo. Então o que ele faz é arte plástica, com materialidade e sensorialidade.

Como foi a experiência de criar junto com o Teo? Pra mim, tem sido maravilhoso, mais uma experiência pra chegar perto do mundo dele, dialogar com ele, enxergar através da perspectiva dele. O processo de artista e pai é bem misturado, não dá pra discernir uma coisa e outra. É bem misturado com a nossa vida também, não é que temos um horário pra fazer. O mundo dele é só do aqui e agora. O passado e o futuro, como a gente entende, são narrativas e ele não tem narrativas verbais sobre a vida dele, não pensa verbalmente. Mesmo as palavras que fala, é como se estivesse produzindo um signo sonoro. Não é linguagem com concatenação de palavras, é um signo verbal. Antes de falar, ele mostrava plaquinhas com as palavras, porque, para ele, são signos que tem visualidade ou sonoridade. Ele nunca pensaria “vou fazer um trabalho pra mostrar pros outros, vou deixar pra posteridade, fixar essa impressão que eu tive em uma obra”. Uma das obras da exposição na Galeria Lume chama Reter Éter. Isso parece quase uma definição sobre a arte, ela é uma espécie de impressão retida da experiência, da vivência. A arte dele, ele vive o momento. Ele faz pra ele, teve uma função estética que gostou e acabou. Acho que na cabeça dele nem faz sentido fazer algo pra expor, pra vender. Mas é aí que começa o nosso diálogo.

E como é a dinâmica do trabalho entre vocês?  Primeiro eu tento me colocar na perspectiva dele, o que é uma delícia pra mim como pai. Ele tem uma brincadeira que é simplesmente olhar. Ele olha um negócio, dá a volta, olha de outro lado, tenta associar. Pode ficar horas em frente de uma parede onde cai água — e isso tem a ver com outra obra, Cachoeira. Ver sob a perspectiva dele é a primeira coisa. Depois, eu faço uma coisa, esboço um negócio e mostro, pra ver se ele gosta ou não. Às vezes ele mexe com uma cor, faz um movimento, uma velocidade, e assim vai. E aí chega num formato que eu acho legal.

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Muita gente tem a ideia de que não dá para se aproximar de uma pessoa com autismo e a sua colaboração com o Teo mostra justamente o contrário. Independente desse tipo de aproximação, o Teo é muito carinhoso. Não tem verbalidade, mas tem muito abraço, muita risada e muita palhaçada. Apesar dele ter um autismo considerável e não-verbal, tem muito contato. A coisa de não ter contato tem uma vertente biológica-médica e uma cultural. A biológica é que as pessoas com autismo têm essa coisa contida, ficam totalmente voltadas para si mesmas. Do ponto de vista médico, eles têm muita sensibilidade sensorial. Escutam mais alto, tem muita sensibilidade de toque, muitos têm fotofobia. Então essa reclusão é uma espécie de autoproteção. Você está num lugar muito barulhento, por exemplo, eles costumam colocar o dedo no ouvido pra não ouvir, porque incomoda pela sensibilidade exagerada. É o contrário do que as pessoas imaginam, é uma pessoa aberta demais, que se fecha pra se proteger. A outra coisa é a cultura americana, de onde vem a maior parte das informações sobre autismo. Eles se tocam muito menos do que a gente, não só homem e mulher, mas pais com filhos também. É muito mais distante do que nós brasileiros. Eu nunca acreditei muito nisso, sempre abracei muito o Teo. Ele também é assim, se ele gosta do jeito que uma pessoa é, ele abraça.  

Você acredita que a visão de mundo do seu filho também acaba transparecendo em outros trabalhos seus? Eu já era influenciado por ele. Mas andar com ele na rua, ver televisão e assistir vídeos juntos é um barato, porque você meio que pega emprestado os olhos dele. O Teo vê detalhes que você não vê. Ondas, por exemplo, ele fica olhando as ondas do mar um tempão. Só por estar ao lado dele, parece que é a primeira vez que estou vendo uma onda. Ver o jeito que ela dobra, que o azul vira branco, coisas bem elementares assim. E isso está muito no trabalho, elementos muito básicos. No grau de autismo dele não existe preocupação com a conjuntura das coisas, com política, só tem o interesse pelos movimentos, pela estética. Por exemplo, meu filho pode ver um sorriso e voltar a cena várias vezes só pra ver o movimento da boca. Ele gosta muito de documentários, mas assiste Teletubbies também, desde pequeno. Ele assiste tudo, porque não é a história que importa, ele vê de uma forma poética.

Você fala a respeito da reflexão metalinguística que faz no seu trabalho também fazer parte do universo do autismo. Pode explicar um pouco melhor essa relação? O autismo tem uma espécie de maravilhamento e estranhamento da vida. Uma coisa mais básica assim. Uma reflexão sobre as questões e uma autorreflexão. Tem algo assim nos meus trabalhos. O que é um filme? O que é real nesse filme? O que é realidade? Perguntas muito básicas sobre a própria linguagem que estou usando. O trabalho agora é diferente, mas acho que essa questão de estranhamento metalinguístico sempre esteve presente. Outra coisa da busca dessa estética do autismo, é que tem uma ideia de circularidade. Por alguma razão, as pessoas com autismo gostam muito das coisas que se movimentam circularmente. Uma coisa de repetição também. Tem uma estrutura que é mais de poesia do que de prosa, repetição de estrofes, de blocos de imagem. Isso já estava no meu trabalho antes, mas agora é mais consciente. Nessas parcerias, as coisas são mais conscientes, a gente escolhe o que explorar no início, depois, os trabalhos vão se manifestando, porque você também não pode ficar preso a teorias. Aconteceu várias vezes de precisar mudar, até por conta da colaboração. Às vezes ele não quer colaborar, empurra porque não quer ver ou não gostou. Você pode até apontar uma direção, mas você tem que estar aberto a mudá-la.

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