A rede leitora e antirracista de Winnie Bueno

por Mayara Rozário

Com sua Winnieteca, a ativista conecta doadores a pessoas negras que precisam de livros

São muitos os fatores que contribuem para que o hábito da leitura esteja em baixa entre os brasileiros. Rotina corrida, acesso restrito à educação, falta de dinheiro para comprar livros. Mas existem projetos como a Winnieteca, apelidada de “Tinder dos Livros”, que estão mudando um pouco essa realidade e fazendo com que pessoas de todo o Brasil consigam ler o que sempre tiveram vontade.

“Doar livros é mais útil do que ficar falando que é  antirracista na internet”
Winnie Bueno

Mestre em Direito pela Unisinos, Winnie Bueno também é doutoranda em sociologia e ativista do movimento negro. No Dia da Consciência Negra do ano passado, teve a ideia de criar uma comunidade que conecta doadores com pessoas negras que precisam de livros. Tudo isso acontece pelo Twitter, uma das redes sociais preferidas da gaúcha de 31 anos, que acredita ser possível estourar bolhas e dialogar melhor na plataforma. 

“O projeto surgiu a partir de uma provocação minha no Twitter sobre a disponibilidade real das pessoas brancas de se colocarem de forma prática como antirracistas. Disse que doar livros era mais útil do que ficar falando que é  antirracista na internet. E assim as pessoas começaram a participar, me dizendo que queriam doar um livro para uma pessoa negra que precisava. Passei a coletar pedidos e foi assim que tudo começou”, conta à Tpm. 

A repercussão da Winniteca foi tão grande que o projeto ganhou não só uma repaginada, mas também apoiadores como o próprio Twitter e o Geledés - Instituto da Mulher Negra e divulgadores como Emicida, Paola Carosella e Patricia Pillar. Agora, Winnie não precisa printar os dados dos receptores e enviar manualmente aos doadores. Com o auxílio do bot criado exclusivamente para a iniciativa, o processo é feito de forma automatizada e garante um maior controle sobre os cadastros e títulos mais pedidos. 

Além disso, as pessoas que querem participar dessa rede colaborativa podem preencher seus dados, sinalizar o seu perfil no Twitter e acrescentar as informações dos livros que querem. Depois, a própria Winnieteca envia esses dados para um doador que vai entrar em contato com quem pediu para combinar o recebimento do livro. 

Winnie destaca que mais mudanças acontecerão, mas que por enquanto está testando a experiência do usuário na plataforma. Sobre os escritores independentes que a procuram e buscam divulgar seus trabalhos na plataforma, ela diz que as obras são registradas somente se alguém demonstrar interesse. Se isso não acontecer, ela conecta esses profissionais com bibliotecas comunitárias coordenadas por pessoas negras para que possam cadastrar seus livros nelas.

Leitura como forma de transformação pessoal e social

Acadêmica e uma grande estudiosa das obras da socióloga Patricia Hill Collins, Winnie Bueno faz parte dos 104, 7 milhões de brasileiros leitores – dado da pesquisa  “Retratos da Leitura no Brasil”, divulgada em 2016, pelo Instituto Pró-Livro e desenvolvida a cada quatro anos. Mas sua relação com a leitura começou bem antes de aprender a ler de fato. Aos três anos, ela folheava livros e memorizava as imagens que os ilustravam. Incentivada pela avó, Winnie começou a juntar letra por letra até decodificar as palavras.“O que acontecia é que se alguém me mostrasse essas letras e dissesse que elas formavam uma palavra, eu saberia identificar depois”, explica.

Ela se lembra bem do primeiro livro de sua vida: A botija de ouro, de Joel Rufino dos Santos, ativista do movimento negro e referência no estudo da cultura africana no país. Assim como na infância, ela guarda as ilustrações da obra na memória. 

“Eu sempre li e escrevi. Gosto muito de livros e sempre fui uma leitora voraz. Depois do mestrado, a leitura passou a fazer parte da minha vida de forma ainda mais contundente. Então, ler meio que se transformou um pouco na minha ferramenta de trabalho. Os livros permeiam a minha vida em várias dimensões. Tanto em uma perspectiva de afeto, quanto de hobby, quanto profissional mesmo. A leitura sempre me acompanhou, sempre esteve muito perto de mim. Minha avó sempre dizia para a gente 'conhecimento é a única coisa que ninguém pode te tirar. Conhecimento vem através de livro'. Então, os livros sempre foram muito meus amigos”.

Quando perguntada sobre seus “amigos” mais marcantes, a provocação: “Estão mesmo pedindo para uma pessoa que criou um acervo indicar livros?”, ri. Dos preferidos de Winnie estão Escritos de uma vida, de Sueli Carneiro, O movimento negro educador, de Nilma Lino Gomes, e O pensamento feminista negro, de Patrícia Hill Collins. “Estudei e ainda estudo este livro, que é muito importante para entender o processo de subjetivação de mulheres negras. A forma com que a construção da intelectualidade vai se dar para além dos muros da academia, por uma perspectiva de resistência”, conta sobre a obra. E, por fim, os romances Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves. e Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie

Uma coisa que os livros trouxeram para a Winnie foi o olhar crítico sobre o mundo e a forma como ela se vê e se define. A ativista ressalta que sempre leu autoras negras, que sempre houve a produção intelectual e a escrita de mulheres negras. O que faltava – e ainda falta – é o interesse de grandes editoras em publicá-las. 

Outro ponto levantado por Winnie é o fato de enxergar a leitura como uma ferramenta de transformação social potente. Ela, inclusive, se cita como exemplo dessa mudança, já que, graças aos livros, conseguiu entender como se dão os processos de dominação e as tentativas de objetificação da população negra, sobretudo com as mulheres. 

“A gente vive num país onde crianças negras são inferiorizadas por serem negras, em que há um padrão de beleza que desumaniza todas as experiências que não são padrão. E, para compreender como essas coisas estão articuladas, eu precisei dos livros. Ler os romances me ajudou a curar um pouco o que significava compreender isso. Compreender que eu não tinha o direito de definir a minha realidade, de conhecer a minha identidade, de nomear a minha história e a minha própria experiência por causa do racismo. Eu realmente acredito na possibilidade de, a partir dos livros, constituir um outro diálogo com a sociedade. No momento em que a gente vive sendo permeado por notícias falsas, viabilizar o acesso a livros é importante para rearticular a possibilidade de uma democracia autônoma”, conclui.

Créditos

Imagem principal: Camila Tuon / Divulgação

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