por Carol Ito

Integrante do clássico grupo SNJ fala sobre a mistura de rap com MPB, feminismo e legalização da maconha

Jorge Antônio Andrade de Jesus Santos, 43 anos, mais conhecido como Sombra, ganhou o apelido dando rolê em Guarulhos, onde sua história com o hip hop teve início. “Quando eu tinha uns 18 anos, tinha um amigo que estava sempre comigo, o Fuminho, já falecido. Um pessoal na quebrada chegou e falou: ‘Você é a sombra do Fuminho, é neguinho, pá... Você vai ser o Sombra’.” Em um primeiro momento, ele não curtiu o apelido, mas, quando começou a pensar em um nome para se apresentar como MC, tudo fez sentido. “O povo do rap fica cheio de querer ter nome gringo. Eu mesmo já tentei ser Edi Black, MC Black, mas não pegou. No fim, Sombra fazia eu me lembrar de onde vim”, conta.

A celebração da brasilidade, muito além do nome artístico, é marca registrada do rapper, que dialoga com vários estilos nacionais, do baião ao manguebeat, passando pela MPB. Toda essa mistura pode ser vista em O fantástico mundo popular (2013), que acaba de ganhar uma edição em vinil pelo selo Três Selos em parceria com o Selo Matilha. O disco, o segundo de sua carreira solo, traz participações de Kino Dinucci e Thiago França (parceiros em diversos projetos, como o grupo Metá Metá), Jorge Du Peixe (Nação Zumbi), Rapadura e Rael, além de ser produzido pela dupla Marcelo Cabral (que assina a produção de Nó na orelha, aclamado disco de Criolo) e Daniel Bozzio (produtor de Zulumbi, projeto que une o MC Rodrigo Brandão e o guitarrista da Nação Zumbi, Lúcio Maia). “Eles dão uma regionalidade pro nosso rap”, diz Sombra, que também levou seu estilo tudo junto e misturado para a música “Todxs”, de Ana Cañas, lançada no fim de 2018, junto com um videoclipe que aborda a causa LGBT.

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Entre 1996 e 2002, Sombra fez parte do clássico grupo de rap SNJ (Somos Nós a Justiça), donos do hit “Se tu lutas tu conquistas”, que marcou o início dos anos 2000, ainda antes das redes sociais e plataformas de streaming. “Pra um som bombar, tinha que dar na mão de um bom DJ, pagar o tal do jabá para as rádios ou divulgar nas rádios piratas, que foi o que o SNJ fez”, relembra. Hoje, ele trabalha no novo disco solo, que deve ser lançado em junho deste ano, novamente pelo Selo Matilha, com o qual mantém parceria desde 2011. “Cada faixa vai ter um produtor convidado. KL Jay, BiD, Erico Theobaldo, entre outros nomes”, adianta. 

Em paralelo, canta no projeto Senzala Hi-Tech desde 2015, junto com o MC Diogo Silva (que também foi medalha de ouro no taekwondo nos Jogos Pan-Americanos de 2007), o produtor Minari Groove Box (SNJ) e o percussionista (e cartunista) Junião. A banda se inspira no afrofuturismo dos beats à identidade visual, com letras que discutem negritude e racismo.

No papo com a Trip, Sombra fala sobre a relação com a vanguarda da MPB paulistana, as mudanças no rap desde o SNJ, feminismo, dreads e legalização da maconha.

Por que decidiu relançar O fantástico mundo popular em vinil? Eu já tinha essa ideia antes mesmo de lançar o CD, mas tem coisas que a gente consegue fazer no curto prazo e outras que não. O vinil é uma parada mais considerada pela galera da antiga. As pessoas gostam de pegar, ver o encarte.

Como foi a escolha dos artistas que participaram do disco? O Marcelo Cabral e o Daniel Bozzio, que produziram o disco, estavam sempre junto com a galera do Metá Metá. Eles que me apresentaram o Kiko Dinucci, que eu já sabia que era de Guarulhos também, mas não conhecia pessoalmente, e o Thiago França. O Rapadura eu já conhecia de uma turnê que fizemos na Europa. O Rael chamei para participar de “Mano eu vou ali comprar um chá” e o Jorge Du Peixe, que estava gravando no mesmo estúdio que a gente, acabou gravando junto. Foi rolando com naturalidade, música é isso.

Muitos rappers hoje se preocupam com o business, em como bombar nas redes sociais. Como era no tempo do SNJ? Pra um som bombar, tinha que dar na mão de um bom DJ, pagar o tal do jabá para as rádios ou divulgar nas rádios piratas, que foi o que o SNJ fez. A gente rodou todas as rádios piratas possíveis na periferia de São Paulo, no interior, litoral, até em outros estados. Isso fez com que a galera conhecesse nossas músicas. Foi um dos grupos pioneiros a transitar nessas mídias.

Você é ligado no business de hoje? Sim, mas, ao mesmo tempo, não. Já estou no mundo faz tempo e, para mim, a música acontece de verdade, não adianta querer forçar. Uma coisa que acho muito louca é pagar pelos likes! Às vezes fico pensando: e se der um bug na rede e a gente ficar um mês, um ano sem internet, como essa galera que nasceu nessa geração e vive de música vai fazer para se divulgar? Eu, que sou anterior às redes sociais, fico pensando o quanto a gente se acostumou com isso... Pô, zine de novo? Revista? Rádio? Difícil imaginar.

O que tem escutado ultimamente? Tenho ouvido muito Rapadura, o disco novo da Cris [integrante do SNJ que lançou Evoluindo através dos tempos, em 2018], Djonga, Froid, MC Oreia. Entre os gringos, gosto bastante de ASAP Rocky, Rihanna e Logic.

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Rappers como Mano Brown e Emicida já deixaram de cantar músicas que falavam da mulher de maneira machista. O que você pensa sobre isso? Eu aprendo muito com essa evolução e revolução feminina na sociedade e na música. Falando como homem, acho que ainda existe muita indiferença, uma disputa entre homem e mulher, não só no rap, mas em muitos setores. Mas elas estão entrando nos espaços, questionando cada vez mais.

Você se preocupa quando está compondo uma música que fala sobre mulher? Sempre peço opinião de mulheres, para elas apontarem se eu estiver dando brecha. Inclusive, vou cantar a primeira parte de música que tô fazendo e que diz respeito a vocês [nessa hora, ele apresenta uns versos que falam sobre o universo feminino a partir de uma viagem sobre bolsas – desde o acessório usado para carregar mil coisas, até a bolsa que rompe durante o parto, passando pela bolsa de estudos]. O que achou? [Sugiro que ele inclua alguma reflexão sobre a razão de as mulheres carregarem bolsa e a maioria dos homens não.] Legal, a gente tem que ter cuidado para entrar no universo feminino, mesmo.

Você tem músicas que falam sobre fumar maconha como algo do cotidiano. Você tinha (ou tem) muita treta com a polícia por conta disso? Eu tenho cabelo rasta há 13 anos. Antes de chegar no ombro, eu era muito abordado pela polícia. Os caras falavam que eu tinha as características do cara da quebrada, que usa droga. Depois que meu cabelo passou do ombro, parei de levar tanta geral. Acho que é porque a maioria da galera pensa que caras assim não querem incomodar ninguém, só querem fumar um. Mas eu tomo cuidado. Se me pegarem por aí, o flagrante vai ser o quê? Dois baseados bolados, os cigarros do cotidiano.

Você é a favor da legalização da maconha? Não é possível que demore tanto para legalizarem num país como o Brasil, com abundância em água, terra fértil e sol durante a maior parte do ano, onde o plantio vai bem. É uma causa que considero justa por conta da ilegalidade do tráfico e porque ia gerar um grande campo de trabalho para os brasileiros desempregados e para quem sabe lidar com a terra. Eu quero morrer vendo essa parada sendo legalizada de alguma forma.

Créditos

Imagem principal: Paola Vianna

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