Precisamos falar sobre capacitismo

por Maria Paula Vieira

As pessoas com deficiência não são só inspiração ou superação, tampouco merecem parabéns por atividades cotidianas. Como esse preconceito, chamado de capacitismo, impacta na vida em sociedade

O combate a diversas formas de discriminação, como o racismo, o machismo e a homofobia, vem ganhando cada vez mais luz nos debates. Que bom. Esse é, com certeza, um dos caminhos para uma sociedade mais equitária. Na contramão desses avanços, um preconceito ainda segue fora dos holofotes: o capacitismo. Este é o termo usado para descrever a discriminação e a opressão contra pessoas com deficiência, que abrange desde a acessibilidade até a forma como a sociedade trata essas pessoas. 

“As atitudes capacitistas são aquelas preconceituosas e violentas que hierarquizam as pessoas em função da adequação de seus corpos, dizendo e tratando, através de discursos e ações culturais enraizadas, este corpo como incapaz”, explica Diego Leonardo Pereira, mestre em Ciências Sociais pela Universidade do Rio Grande do Norte (UFRN). A antropóloga Anahi Guedes de Mello, pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que também é uma pessoa com deficiência, complementa que essas atitudes discriminatórias “refletem a falta de conscientização sobre a importância da inclusão e da acessibilidade para as pessoas com deficiência”. 

Dentro dos movimentos feministas, é dito que uma mulher vai sofrer abuso pelo menos uma vez na vida por culpa da questão estrutural do machismo. “O mesmo acontece as pessoas com deficiência. Não conseguimos passar pela vida sem experimentar ao menos uma situação capacitista. E é democrático: afeta todas as classes sociais”, afirma Mayra Ribeiro de Oliveira, assistente social, militante do coletivo feminista “Juntas” e mulher com deficiência visual. 

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A cultura capacitista se manifesta na vida de pessoas com deficiência de diversas formas, mas ainda é percebida como inofensiva por grande parte da sociedade.  Por isso, até quem vive na pele essas questões e é alvo do preconceito passa anos sem saber que existe um nome para isso. 

Foi como aconteceu com Tabata Contri, atriz e sócia da Talento Incluir, que trabalha com inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Ela ficou paraplégica aos 20 anos, em um acidente de carro. “Eu não entendia quando diziam: ‘Coitadinha, tão novinha na cadeira de rodas, tão bonita’. Isso quer dizer que, além de cadeirante, a gente tem que ser velha e feia? Ou quando alguém vinha me dar parabéns porque eu estava me divertindo na balada, quando alguém dizia ‘por que você trabalha? Se aposenta!’, entre outras abordagens totalmente invasivas”, lembra. “O problema desses extremos é que a mesma sociedade que nos dá parabéns por ultrapassar uma barreira arquitetônica é aquela que não nos dá recursos mínimos para ir e vir”.

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A estudante de jornalismo e militante Ana Clara Moniz, cadeirante devido a uma doença rara chamada Atrofia Muscular Espinhal, conhecida por muitos como AME, também conta que sentia os olhares invasivos na rua ou em qualquer lugar que estivesse e recebia parabenizações fora de hora quando estava curtindo momentos com amigos, indo estudar ou trabalhar. Quando ela conheceu nas redes sociais o termo capacitismo, ficou mais fácil informar e lutar contra a discriminação que vivenciou ao longo da vida. “O capacitismo está em coisas que nem imaginamos, até dentro da gente, em ideias que nós temos. E só quando refletimos e saímos do padrão que a sociedade propaga notamos que talvez tenham nos ensinado errado”, diz.  

A empresária Andrea Schwarz, 42 anos, cadeirante desde os 22, aponta que quando alguém a subestima ou superestima em função da deficiência, a pessoa está sendo capacitista: “Quando eu faço algo normal – como trabalhar, cuidar da casa ou ser mãe – e sou supervalorizada por isso, o foco está na deficiência, na minha limitação. Quando alguém me chama de especial porque tenho uma deficiência também, assim como quando acham que eu sou uma coitadinha por ter uma deficiência”.

Capacitismo no mercado de trabalho

Cerca de 24% da população brasileira têm algum tipo de deficiência, segundo o último Censo do IBGE, mas a parcela ocupando o mercado de trabalho ainda é baixa, representando em 2018 apenas 1,04% das carteiras assinadas no país, de acordo com os dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais). Aos 22 anos, Ivan Baron, estudante de pedagogia e militante da causa da pessoa com deficiência, possui paralisia cerebral e enfrenta essa realidade. “Tive poucas experiências profissionais até chegar ao cargo que estou hoje. Percebi que, se não fosse a lei de cotas, o capacitismo institucional seria ainda maior. Quase nenhuma empresa quer nos contratar por conta própria”, conta. 

Apesar do avanço conquistado com a lei nº 8.213/91, conhecida como lei de cotas, que exige que toda empresa de grande porte – com cem ou mais empregados – deve preencher de 2% a 5% por cento dos seus cargos por profissionais com deficiência, ainda existe um longo caminho para a inclusão. Isso porque as empresas oferecem posições de trabalho que são mais operacionais e menos atrativas do ponto de vista de salário, responsabilidades e oportunidades de carreira. “Quantos líderes com deficiência você vê nas empresas?”, questiona Schwarz, que também é empresária e CEO na empresa iigual Inclusão e Diversidade. Quase nenhum, ela afirma. “A representatividade de pessoas com deficiência na alta liderança das empresas é praticamente nula, assim como em outros espaços importantes como a mídia, a publicidade, a política, os influenciadores, entre outros”, diz.

Tabata Contri evidencia que o mercado é um reflexo da sociedade que ainda está em processo de desconstrução de seus preconceitos, sejam eles capacitistas, machistas, homofóbicos ou gordofóbicos. E, somente agora, estamos começando a ter consciência de que nossa realidade não é a única. “Essas pautas que estão quentes e sendo discutidas nas redes têm que ser levadas para dentro das empresas para que haja mudanças de fato”, afirma.

Pornô inspiracional 

Superação é uma das primeiras palavras que aparecem em quase todos os textos ou publicações que mostram uma pessoa com deficiência. Elogios em contextos que não costumam acontecer com uma pessoa sem deficiência também são usuais. Esse é o chamado "inspirational porn", ou pornô inspiracional, quando as pessoas sentem prazer por ver que não estão na mesma condição desse grupo e o utilizam como forma de inspiração. 

“É sempre única e exclusivamente como inspiração ou superação. Nós podemos ser superação e inspiração, como qualquer outra pessoa, mas não somos só isso! Somos profissionais, diversas outras coisas, pessoas antes de tudo. Nossa deficiência é só um detalhe”, diz a estudante de jornalismo Ana Clara, que se sente invisibilizada com a falta de mulheres com deficiência como ela e pela maneira como são retratadas. 

Para Tabata Contri, é necessário que a mídia ajude a informar mais a respeito do capacitismo e abra espaços para estas discussões, além de ter dentro das empresas apresentadores, produtores, jornalistas, roteiristas, repórteres e outros profissionais com deficiência. Como atriz, Tabata sentiu essa lacuna quando atuou em novelas, em 2008 e 2010. “Aquele espaço não entendia ainda a minha presença. Era bem desafiador estar lá, para mim e para todos em volta. Tive que cavar todas as oportunidades e não tinha muita abertura”, diz. Ela acredita que a mudança está começando somente agora, junto às pautas dos movimentos nas redes sociais. 

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Viés racial e militância 

Em um país majoritariamente negro, muitos carregam duas lutas: o anticapacitismo e o antirracismo. “O exemplo de superação na mídia é sempre branco, porque de preto ninguém tem dó, preto não é exemplo”, afirma Luciana Viegas Caetano, professora de educação inclusiva, negra, militante da causa e autista. O combate de Luciana é duplo: além dela, o filho Luiz, de 3 anos, também está dentro do espectro autista. A maternidade da mulher preta já é diferente da mulher branca. Se ela tem um filho com deficiência, sua invisibilidade cresce. Em uma sociedade racista, a luta fica ainda mais árdua. “Quando recebi o diagnóstico dele, comecei a entrar no embate capacitista. Eram sempre os olhares de pena. A escola não o achava capaz, as outras crianças recebiam materiais para ler, para estudar, e não mandavam para ele”, conta. A relação com o Estado e o medo da agressão policial aumenta as preocupações. “Luiz é um menino preto e autista não verbal. Será que iriam ouvi-lo? Será que daria tempo de ele sinalizar que não falava?”, questiona Luciana. 

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Para Mayra, do coletivo feminista “Juntas”, os movimentos sociais ainda apagam essas questões sobre o capacitismo e separam quando deveriam unir. “Esquecem que, entre as pessoas com deficiência, existem pessoas negras que sofrem diariamente com o racismo, mães negras e periféricas lutando todos os dias, além de pessoas LGBTQIA+ e mulheres com deficiência que estão em maior situação de vulnerabilidade à violência de gênero”, aponta. 

“Pessoas sem deficiência, dentro e fora de movimentos, parecem não estar prontas para ouvir e entender o que temos a falar, como se não soubéssemos o que vivemos na pele”, completa a estudante e militante Ana Clara. Ela acredita que uma mudança vai ocorrer, de fato, quando movimentos como o Black Lives Matter abordarem a causa. É preciso, antes de mais nada, ouvir a comunidade e incentivar o consumo de conteúdo de pessoas vítimas do capacitismo. “Acredito que isso vale para todos. A partir do momento em que a gente conhece outras realidades, consome outros conteúdos, conhece a causa, vamos aprender e lutar contra o capacitismo em todos os seus vieses”, diz. 

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