por Nina Lemos

Em plena luz do dia, Nina Lemos penetra o mundo dos shows de sexo, robôs pornô e design sadomasoquista, em Berlim

São 16h de um domingo em Berlim. O sol de outono nos cartazes da cidade revelam que este é o fim de semana da Venus, a maior feira erótico-explícita da Alemanha e a mais famosa da Europa. Espécie de patrimônio da cidade há mais de duas décadas, a mostra é um Festival de Berlim pornô – ou a Feira de Frankfurt com vibradores em vez de livros.

Todo ano, 30 mil pessoas visitam a Venus, que conta com 500 expositores. É um negócio sério, com red carpet e tudo. Só que por ele as estrelas desfilam sem roupa. "Ainda bem que não existe MBL na Alemanha", penso, enquanto observo homens e mulheres em trajes sumários na entrada da Messe Nord, o maior parque de convenções de Berlim, que sedia a feira. Tudo acontece ao ar livre. E sim: "Ai, meu deus, e se uma criança passar?!"; aí ela verá.

Na cultura alemã, nudez faz parte do cotidiano. Fica-se pelado nos parques, na sauna e na casinha de sapê. Isso não é nada demais. Vibradores são encontrados em vending machines de posto de gasolina e farmácia. Os clubes fetichistas também estão intrinsicamente ligados à vida do país, até como atração turística. Peraí: o que esperar, então, de uma feira erótica neste lugar? Fomos ver com os próprios olhos.

Robô inflável

Entre as novidades da feira, as bonecas-robôs sexuais são assustadoramente parecidas com gente de verdade, inclusive na altura. E tem pra todos os gostos: com peito grande, peito pequeno, cinturinha, quadril estreito, bunda grande… Uma delas tinha cabelo curto e usava óculos. Sim, uma boneca inflável (ops, robô) meio intelectual. Os robôs aguardam num estande tipo museu de cera. E só contei um homem (robô) no meio das dez moças. Em média, custam 3 mil euros (cerca de R$ 10 mil).  

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"A boneca tem três orifícios", explica o homem do estande para um cliente. Para mim, ele diz que o Cris (o boneco) tem pau com função vibratória que funciona por controle remoto. "Pode tocar." Não tive coragem de pegar no pau, mas apertei o ombro. Não parece exatamente humano… Mas tem até osso: na verdade, uma estrutura metálica interna.

Esses robôs estão entre as grandes tendências do mercado sexual. Medo? Estranhamento? Não sei. Desde que entrei na feira, tento ecoar o mantra: "Não julgue, Nina, não julgue". Só sei que as bonecas infláveis de alguns amigos parecem agora mais obsoletas que um orelhão de bairro. E, sei lá, melhor comprar um robô sexual do que tratar alguém como um.

Sexo a olho nu

Mas a realidade da Venus é mais de carne e osso mesmo. Uma multidão fotografa a menina estrelando ao vivo um show pornô (uma live cam transmitia tudo). Centenas de pessoas assistem à performance – entre elas, casais com cara de caretas, velhinhos e jovens espinhentos.

Faz calor, a luz é daquelas frias e não tem clima. Mas a menina não para. O show é initerrupto: quando terminar, ela será substituída por outra. Acho impossível sentir tesão e continuo meu caminho, refletindo: acho que a menina do show não está se divertindo, não.

Mais adiante, iluminada pela mesma luz fluorescente, uma moça com roupa de couro bate com um chicote no senhor pendurado em uma corda. Suas costas estão lanhadas, e o público continua olhando como se nada fosse, supercool. Ao fim da sessão, ela sai arrastando o cara por uma coleira. Acompanho-os com o olhar, e logo estão eles lá, papeando como colegas de trabalho. Afinal, é mesmo o que são, né?

Eis que sou interrompida dos meus devaneios por uma moça de corpo escultural que, seminua, é perseguida por fotógrafos como se fosse uma celebridade. Ela posa para muitas selfies, tira fotos para a imprensa. Um grupinho a segue de lá pra cá. "Quem é ela?", pergunto para um jovem alemão que tira fotos. "É a Micaela Schäfer! A Micaela Schäfer!", ele responde com a mesma entonação que eu usaria para alguém que encontrasse Morrissey na rua e me perguntasse: "Quem é esse?".

Já que estou diante do Morrissey da indústria pornô, resolvo me aproximar. Simpática, a moça diz que ama a Venus, e que é sempre maravilhoso fazer contato com os fãs. "É o que mais vale no meu trabalho. Aqui, encontro minha segunda família, a família pornô", afirma, enquanto, delicadamente, afasta-se de mim para abraçar mais fãs. É preciso agradar a audiência.

O burburinho aumenta quando ela posa com uma velhinha. "Oma, oma!", significa avó, em alemão, o que gritam os fotógrafos na tentativa de chamar a atenção de ambas. Me ocorre que a Oma é tipo uma empresária superbem-sucedida do reino pornô. 

– Qual o seu nome? – pergunto a ela.

– Ah, sou a Oma Christel.

– Mas por que você usa Oma no nome?

– Ué, porque sou a avó dela – responde Oma, apontando, orgulhosa, para Micaela Schäfer. – Minha neta é uma pessoa maravilhosa! Amei a feira, ano que vem vou voltar – diz a senhora de 75 anos.

Como não amar?

This is hardcore

"Você precisa ir lá no fundão", diz minha amiga Clarice, da grife chique Fun factory, a Prada dos vibradores. Sigo seu conselho. E gente: é como se estivesse adentrando o Hell’s Club (o antigo afterhours paulistano) versão sadomasô. Ao som de techno pesado e iluminada por luz vermelha, uma mulher pendurada por cordas em cima dum palco apanha. Na plateia, vários casais de mãos dadas. Não foi só a luz que mudou, o clima também: os convidados estão mais, hum, circunspectos. Em vez de vibradores coloridos, as barracas vendem máscaras de couro, chicotes e coisas que eu não sei (nem me atrevo a perguntar) para que servem.

Tomo coragem e subo num mezanino onde são vendidos móveis próprios para sadomasoquismo: uma cadeira gigante para tortura e alguns objetos de design que parecem de academia, mas são de couro fino. Homens vestidos de plástico e com a cara toda coberta por máscara (não sei por onde respiram) andam por ali. Tem como não se assustar?

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"Me defino como fetichista e BDSM [sigla pra Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo]", diz Amruniel, uma mulher trans de uns 2 metros de altura, linda e com os seios fartos à mostra. Ela me dá entrevista enquanto seu escravo passa um pano molhado em sua roupa de couro (está calor, não sei como eles sobrevivem).

Deve ter sido uma das situações mais esquisitas em que eu entrevistei alguém (e já foram muitas nesta vida). Mas ela é tão simpática que eu relaxo. "A feira é ótima. A gente vem aqui exibir nosso estilo de vida e tentar acabar com o preconceito." Ela explica que, mesmo na feira, ela e os outros adeptos da prática enfrentam discriminação. "Os baunilhas nos olham de cara meio feia, acham que somos esquisitos demais." Pergunto: "Até aqui, vocês são tipo as ovelhas negras?". "Acho que sim", ela diz, sorrindo. E completa: "Estou aqui como modelo, mas também por diversão". 

Me despeço com um beijo (o ecravo não parou nem um minuto de lustrar sua roupa) e dou de cara com um Belzebu.

Sim, ele usa saia, máscara de boi feita de plástico e, vocês me desculpem, mas eu não tenho coragem de entrevistá-lo. Saio da área sadomasô (a moça continua pendurada, e as pessoas continuam olhando).

Começo a ficar perturbada. O problema, acho, não é o sadomasoquismo, o sexo explícito, as cam girls. O corpo das pessoas, as regras delas. O que me perturba é tudo isso dentro do pavilhão do Anhembi. A noite começa a chegar e, com ela, o horário de pico da feira. Está mais cheio, mais quente, e os shows eróticos não param. Nem a música atordoante.

Devoro uma pizza sentada no chão enquanto mulheres peladas continuam a desfilar e posar para fotos. Começo a ficar seriamente incomodada com o clima de feirão do Guanabara misturado com sexo. Tenho medo de desmaiar e ser acudida por um dos caras de máscara (sério).

Enquanto escapo meio correndo com medo de ter um ataque de pânico, um dos fotógrafos que fazia retratos das mulheres nuas pede para me fotografar. Eu deixo, mas me assusto. De toda forma, quem tá na chuva é pra se molhar. Piso no tapete vermelho, ele me fotografa, e vivo meu dia de porn star por 2 segundos – calma, gente, ele disse que é fotógrafo de street style... E não, eu não tirei a roupa.

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