Roda, roda, roda e avisa

por Ivan Marsiglia

Pedro Bial foi correspondente da Globo em Londres, escreveu livros e dirigiu filmes sobre Guimarães Rosa. Mas ficou famoso zoando o barraco no Big Brother Brasil

Lá vem o Big Brother Brasil descendo a ladeira. Pedro Bial caminha para o boteco no quarteirão de sua casa no bairro do Horto Florestal, Rio de Janeiro. De camisa florida, bermuda branca e Havaianas, vem comprar duas águas de coco para refrescar o bate-
papo com a reportagem da Trip. Alemãozão de 1,92 metro, caminha com aquela inequívoca ginga carioca. Ginga de malandro, que quebra o pescoço à passagem de mulher bonita.

Bial é bem brasileiro, a despeito de seus olhos azuis. Cordial no trato e franco na conversa, consegue ser simpático mesmo quando expõe pontos de vista opostos ao do interlocutor. Antes de o gravador começar a rodar, fez questão de mostrar o depoimento do escritor britânico de origem indiana Rudyard Kipling: “Por que me recuso a dar entrevistas? Porque é imoral! É tão criminoso quanto uma ofensa contra minha pessoa. Um assalto que merece punição”. Mas Bial não está querendo intimidar. Ao contrário, parece demonstrar o quanto duvida de sua profissão de origem, o jornalismo. Ou ele já não seria mais repórter, deglutido e transmutado em apresentador de TV?

Ele já escreveu livro de reportagem (Leste Europeu: Revolução ao vivo, 1990), dirigiu documentário sobre Guimarães Rosa (Os nomes do Rosa, 1997), filme de ficção sobre o mesmo (Outras estórias, 1998) e apresenta um programa de literatura na Globo News. No campo oposto, a bordo de seu BBB, ele hesita – e deixa ver a humildade que coabita com uma determinação germânica.

Ao contrário de muita gente em sua posição, ele tem coragem para expressar suas opiniões. “Não tiro o meu da reta”, diz, questionado sobre o apelo popularesco do BBB. “Faço parte do show. Podem rir, podem fazer piada de mim.”

Aos 44 anos, três casamentos desfeitos e quatro coberturas de guerra depois (Angola, Sarajevo, Romênia e Golfo), Bial quer paz. Admite que viveu um período de excessos que culminou na briga pública com a ex, Giulia Gam, e tenta se acostumar com a fama. Sua companheira é a produtora Isabel Diegues, 31, filha do diretor Cacá (de Deus é brasileiro), com quem teve um filho no ano passado, José Pedro. O rebento se junta a Theo, 5, e Ana, 15, respectivamente filhos de Giulia e da jornalista Renée Castelo Branco. O repórter, que tem fama de garanhão e foi apelidado de “Pedro Miau”, também já morou com a atriz Fernanda Torres.

Sob o calor infernal do Rio, Bial falou com a Trip, fumou seus 40 cigarros habituais, mostrou os corredores iluminados por luz negra que cercam a casa do BBB e ainda encontrou tempo para comprar presente de aniversário para o filho Theo. É com essa energia que, além do BBB e do Fantástico, que também apresenta, ainda planeja dirigir um filme sobre Cássia Eller e uma série de TV sobre os escritores brasileiros. Demorou. Quem não se comunica se trumbica.

Trip. Como se sente transformado de repórter em notícia? Em março de 1996 você chegou de Londres cheio de prestígio, depois de oito anos como correspondente da Globo. Virou apresentador do Fantástico e, depois, do Big Brother Brasil, dois programas super-populares. Isso te angustia de alguma maneira?

Pedro Bial. Em alguns momentos, sim. Sinto e tive problemas para me adaptar. Minha volta ao Brasil, em termos pessoais, foi um pequeno desastre. Tive um casamento que não deu certo [com Giulia Gam], arrumei trabalho demais e paguei um preço físico e emocional por isso. Agora, demoro para me acostumar com essa coisa de chegar num lugar e me apontarem. Não curto muito, não. Neste momento, não sei bem para que lado vai minha carreira profissional.

Você teme que o Pedro Bial jornalista seja engolido pelo Pedro Bial entertainer? Não. Se eu for engolido, eles vão ter que pagar muito bem para isso. Aí, tudo bem, pode me engolir. Mas meu projeto é ter uma vida cada vez mais pacífica, o que não combina muito com o mundo infernal do show business. Quero ter mais espaço para o ócio, ficar lendo, escrevendo, jogando no computador...

Não é curioso que o apresentador de um reality show cujos participantes se estapeiam em busca de fama não goste de ser famoso? Ser famoso me interessa se isso me ajuda a vender um livro, um filme, meu trabalho na TV. Nesse sentido, não é que eu deseje a popularidade, mas sou dependente dela. Mas essa sensação de que meu nome está na boca de todo mundo não me agrada não. Porra, fui alvo de um de uma fofoca que foi um horror, inventaram que eu tinha tido um caso com Suzana Werner na Copa de 98. Um negócio absolutamente do nada, sacana, escroto.

Você teve que se explicar com o Ronaldo na época? Assim que soube, fui direto nele. Tivemos uma conversa de homem para homem. Então, a fama tem dessas coisas. Darwinisticamente falando, a única vantagem dela seria comer gente. Desse ponto de vista sou freudiano: a gente só  quer reconhecimento para ter sexo. Mas estou cansado e não valorizo aventuras.

Já que tocou no assunto: para você, que foi um observador próximo aqueles dias, o que aconteceu com o Ronaldo antes da final da Copa? Acho que foi stress. Existe convulsão por stress. Ronaldo é um bom garoto. Quando o Romário foi cortado, ficou sendo o cara que tinha que ganhar a Copa. É uma pressão que ninguém imagina. Antes da final da Copa de 70, o Pelé teve uma crise de choro violenta, chorou da concentração até o estádio Asteca e só parou dez minutos antes do jogo. O Pelé! Já Ronaldo estourou.

Durante uma transmissão do balé russo Kirov no Fantástico, vazou um comentário seu dizendo que aquilo era “coisa de viado”. Você disse isso? Realmente falei, mas não naquele contexto. Quando estou gravando, digo muita merda. E ficou numa fita um comentário de brincadeira com alguém: “Ah, isso é coisa de viado”. O lado triste dessa história é que acho que teve uma derrubada de alguém, alguma sacanagem.

Acha que alguém da Globo deixou passar de propósito? Se eu tivesse falado ao vivo, bom, bobeei, estava aberto o microfone. Mas não: aquilo estava gravado numa fita e editaram a matéria com o comentário por baixo, num dos canais de áudio. A fita foi revisada cinco vezes antes de ir ao ar! Me senti sacaneado. Mas é melhor pensar que foi “Lei de Murphy”. Ainda bem que os homossexuais não viram problema, até gostaram. Em geral, eles têm muito senso de humor.

O que te dá mais prazer: apresentar o BBB ou seu programa sobre literatura na Globo News? No BBB, a apresentação é muito mais divertida. Agora, na Globo News, tenho a chance de entrevistar homens notáveis e seus livros.

O escritor Marcelo Mirisola, que esteve no programa há uns meses, disse que os reality shows eram um “Dostoiévski sem cérebro”... [Rindo] É. Mas sabe que a versão francesa do Big Brother, a Loft Story, foi considerada um dos melhores filmes do ano pelos Cahiers du Cinema [respeitada publicação francesa sobre cinema]? É Dostoiévski sem cérebro porque não tem autor. Mas cada um dos participantes cria seu personagem e seu próprio script. O artigo dizia que, ao contrário da conclusão precipitada de que o reality show é a televisão  manipulando gente, na verdade é aquela gente que está manipulando a televisão. São os 14 participantes que determinam o ritmo, os cortes, os enquadramentos. Então, são 14 Dostoiévskis sem cérebro.

O que o escritor George Orwell, autor da expressão “big brother” no livro 1984, acharia dos reality shows de hoje? Primeiro, acho que ia ficar meio possesso com a apropriação do título [risos]. Depois, inteligente como era, ia falar: “Puxa, o danado do capitalismo conseguiu subverter até isso!”. Até o que era sinônimo de totalitarismo e controle absoluto do cidadão vira programa de entretenimento. No Brasil é mais engraçado ainda porque o povo não sabe a origem da expressão. Acham que o “brother” é de irmão, amigo [risos].

Ao contrário dos reality shows do gênero no mundo, a terceira edição do BBB atingiu seu maior pico de audiência, superando até a novela das 8. Por que isso aconteceu? Talvez tenha a ver com as peculiaridades da adaptação do Big Brother para o Brasil. O formato foi concebido na Holanda, uma sociedade ultracompetitiva, e reproduz essa atmosfera de cada um por si e Deus contra todos, inescrupuloso. O que aconteceu no Brasil? Desde o primeiro programa, o que mais aparece é um desejo ético lá dentro, as pessoas tentando jogar dentro de limites morais, de certo e errado. Ninguém consegue assumir: “Que se dane, quero a grana”. Aqui se manifestou esse desejo, que é a cara de um país que quer chegar a valores comuns a todos.

É uma leitura um tanto intelectual da coisa... Existem várias leituras. Costumo dizer que o jogo começa com todo o mundo perdido entre quatro vetores: quem a pessoa é, quem acha que é, como acha que as pessoas acham que ela é e como as pessoas de fato acham que ela é. É um imbróglio de identidade, que também senti no primeiro BBB. Eu era um jornalista que nunca tinha feito programa de entretenimento. Tinha que me despir dessa condição e ser eu mesmo. Então, pensei: “Quem eu sou?”. Aí, por coincidência, tive que fazer uma pesquisa sobre o Chacrinha e entendi muitas coisas sobre a comunicação popular no Brasil. Vi que ele teve uma reflexão antes de criar seu personagem, observou os apresentadores da época, com suas dicções perfeitas, para subverter tudo. Sabe qual é o meu desejo atualmente? Brincar de Chacrinha.

Pedro Bial virou Chacrinha? Fazer televisão popular é um puta desafio. Fui um adolescente meio esnobe. Me achava superior aos colegas porque lia Carlos Drummond de Andrade. E carreguei essa dificuldade de fazer TV popular. Então, estou adorando conseguir isso. O século 20 acabou com as barreiras entre a alta e a baixa cultura, mas ainda é uma grande zona... Acho legal se eu puder fazer uma ponte.

Quando a Sabrina, que no último BBB teve um caso com o Dhomini, perdeu o paredão e saiu da casa, você a jogou para cima da Mariana, a namorada “oficial” dele. As duas se abraçaram meio sem graça e você gritou: “Isso é que é civilização!”. Foi uma ironia tipo Chacrinha ali? Sim, mas “ironia” talvez seja uma palavra forte, porque fica parecendo que estou tirando o meu da reta, debochando deles. Não. Ali também sou palhaço, também sou ridículo. Não sou o Chacrinha porque ele era um gênio único. Mas faço parte do show: podem rir, fazer piada de mim. Não dá pra ficar naquela coisa neurótica do “eu não pertenço a isso”.

Em outro momento do programa, o Dhomini te elogiou e você respondeu: “Também adoro você e às vezes odeio”. Quando você adora e quando odeia os participantes do BBB? Odeio a relação que tenho de dependência do programa. Chego do estúdio, ligo a televisão e fico ali, como uma samambaia vendo os caras dormindo. Singularizando o Dhomini, também me dá raiva quando vejo a canastrice dele, mas ao mesmo tempo admiro sua inteligência. Acho legal mostrar que a gente pode ser mesquinho e maravilhoso. Que, no mesmo dia, uma pessoa tem uma atitude ultranobre e depois é um verme. Acho isso didático, mostra a natureza humana. Ensina que temos gosto em espiar a em nos mostrar, que isso não é necessariamente feio nem bonito, não se trata de vício ou virtude – mas de se conhecer melhor.

O que você não faria de jeito nenhum na TV? Tenho um tremendo cuidado em dizer “não faria isso”. Mas acho que não faria novela. Não por desagrado com a ideia, mas por total falta de talento para atuar como ator...

Toparia fazer um programa como o do Ratinho, por exemplo? Não, não conseguiria. Até poderia tentar fazer um programa para competir com o Ratinho, tentando atrair o mesmo tipo de público, mas através de outros expedientes, outras atitudes.

Você tem liberdade de escolha na Globo? Tenho para propor projetos e ter sim ou não como resposta. No momento, tem um projeto que estou alinhavando há um tempão e vou tentar vender para eles. Uma minissérie jornalística com perfis de escritores.

Você deve ler bastante, né? Ultimamente deixei de ler alguns jornais para não ter encheção de saco. Só compro os do Rio e vejo o Estadão na internet. A Folha não leio por motivos ideológicos: ela faz uma campanha declarada contra a empresa em que trabalho. Outro órgão que só leio por obrigação profissional é a Veja. Não consigo conviver com aquela visão de mundo, aquele tom de donos da verdade e a sistemática depreciação da cultura brasileira que eles fazem.

Você já foi simpatizante do PT. Como se define politicamente hoje? Fui petista de estrelinha no início da década de 80. Hoje, me considero socialdemocrata. Votei no Serra, sou PSDB. E com mais orgulho hoje porque está ficando evidente como foram ótimos os oito anos de governo FHC. Fiquei feliz e emocionado com a vitória do Lula e torço pra caramba, acho que vai ser legal. Mas fico com um gostinho de ver que o governo Lula inevitavelmente é uma continuidade do Fernando Henrique, o que irrita muita gente.

O presidente Lula se manifestou contra a Guerra no Iraque. Com a coisa pegando fogo por lá, você não sente um comichão de voltar aos tempos de correspondente no front? Sim, mas a coisa é sacrificada. Nessas coberturas você trabalha demais em condições sem comparação com as televisões americanas e européias. Elas vão com equipe grande, produtor, editor, ilha de edição. A gente, com custos bancados em real, um repórter, um câmera e olhe lá. Faz tudo para 300 jornais, trabalha absurdamente. Em resumo, é muito fascinante cobrir guerra, mas dá uma certa preguiça.

Você correu risco de vida nessas ocasiões? A experiência de guerra mais direta que tive foi em Sarajevo. Fiquei 15, 20 dias no cerco dos sérvio à cidade. Era realmente perigoso. E, em Angola, passei um grande perrengue. Depois das eleições de 92, a gente chegou em Luanda quando a cidade estava cercada por posições da Unita. Eu, o [jornalista] Leão Serva e um motorista local íamos em direção a uma cidadezinha próxima chamada Kachipe quando caímos nas mãos de um comando guerrilheiro. Eles eram jovens e, como as lideranças tinham sido assassinadas, estavam completamente acéfalos, nervosos. Decidiram que iam matar o nosso motorista, que era de uma outra etnia.

Como vocês se safaram? Aí, pô, baixou o santo lá na hora, fui meio que hipnotizando o cara com o som da minha voz: “Você não vai fazer isso, você é um cara bom”. Então, levaram o motorista para uma barraca na beira da estrada, coberta de sangue de pessoas torturadas e mortas. Foram verificar se ele tinha calos nos pés, o que significaria que usou botas do exército do governo e eles o matariam na hora. Foi assustador. Me preparei psicologicamente para ficar preso por meses. O Paulo Pimentel, câmera-man, tentou desanuviar: “Somos do Brasil, Pelé, futebol”. Um menino de 17 anos que deve ter sido criado na selva respondeu: “Pelé? Quem é Pelé?”. O Pimentel virou pra mim e disse: “Estamos mortos”. Por sorte, o motorista não tinha calos nos pés.

E a Guerra do Golfo, como foi? Eu, na verdade, não cobri a crise. Quando a guerra estava marcada, a Globo achou melhor eu vir apresentar o Rock in Rio 2... Uma coisa esquizofrênica. Depois fui para Aman, Jordânia, tentar entrar no Iraque. Quando finalmente cheguei a Bagdá era o último dia da guerra. O Alfonso Rojo, um belo jornalista espanhol que naquela época escrevia no El País, até me entrevistou de sacanagem: “O último repórter a chegar” [risos].

E agora, concorda com a oposição do Brasil à guerra no Iraque? É claro que temos uma tradição de país pacífico. Mas a gente tem que pensar como pode se dar bem nessa. Vamos entrar na reconstrução do Iraque? Voltar lá com a Mendes Júnior, nossa tecnologia, a nossa mão-de-obra? É preciso aproveitar as oportunidades. A ingenuidade do pacifismo me irrita muito. Por exemplo, falam que a França e a Rússia são pacifistas. Pacifistas meu cu! Ele têm interesses econômicos diretos. Vamos parar de pensar como bobos. Agora, não me lembro na História moderna de alguém começar uma guerra sem apoio nenhum, como o Bush tá querendo. O comportamento do Bush é o de um general de republiqueta atendendo aos interesses de grupinhos do complexo bélico-militar.

Vamos falar de outra guerra, então, a que se instalou no Rio, cidade onde você nasceu. Acho que ela estava anunciada há anos. Tudo se encaminhava para essa piora e não se tomou nenhuma atitude séria. De qualquer forma, acho difícil a coisa se transformar numa Colômbia. Porque o que tem de gente trabalhando pelo bem do Rio, subindo morro, tentando criar pontes entre as duas cidades, como diz o Zuenir [Ventura, autor de Cidade Partida]...

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Acha que o Brasil está tomando consciência da situação, a partir de filmes como o Cidade de Deus, por exemplo? Cidade de Deus foi importantíssimo porque humanizou a criminalidade. Você viu ali as pessoas e o que as leva a isso. Acho que só um governo decidido, honesto e transparente pode resolver. E esse da Rosinha [Garotinho], nunca vi coisa mais perdida. Agora, o governo federal te que atuar sim, porque as armas e drogas que entram, o Estado do Rio de Janeiro não tem como combater. Como cidadão, acho que a resistência a esse estado de coisas é a gente não deixar de levar a nossa vida normal. Isso eu aprendi em Sarajevo. Os caras debaixo do cerco e a grande atitude de resistência era continuar trabalhando, indo ao teatro, aos bares. Teve o episódio em que fui assaltado [em abril de 2002], fiquei mal, mas decidi que não ia deixar de fazer nada do que sempre fiz.

Como foi o assalto que você sofreu? Eu estava de carro na [avenida] Niemeyer ouvindo um jogo de futebol no rádio, distraído. Aí veio um bando de garotos num carro, todos armados e me fecharam. Eles estavam tão loucos, desorganizados... Me pediram a carteira, aí devolveram a carteira e resolveram levar o carro. Antes de sair, um deles colocou o revólver do lado do meu ouvido e atirou.

O que você sentiu nessa hora? Primeiro, aquela sensação de achar que está morto. Deitei no chão, meio sem saber se tinha sido atingido e fingindo para eles irem embora. Depois que se foram, levantei e pedi carona, mas ninguém parava. Finalmente uma Kombi encostou e eu perguntei: “Cadê o sangue?”. E os caras da Kombi: “Você não está com sangue nenhum”. “Como não?”, repeti: “O cara me deu um tiro na cabeça!”. Foi uma loucura.

Os bandidos não reconheceram você? Não. Como profissional, acho que precisou o Tim [Lopes, jornalista da Globo torturado e assassinado por traficantes no Rio] morrer para a gente perceber que não pode cobrir uma guerra fingindo que não é guerra [se emociona]. Nos lugares onde o repórter tem que ir, dominados pelo tráfico, há uma situação de guerra civil e a gente não toma as mínimas medidas de segurança. Se você vai cobrir uma guerra, a ONU te obriga a levar capacete, colete à prova de bala, o mínimo de equipamento. Aqui é aquela festa: “Vai lá, sobe o morro!”.

Isso é uma acusação de negligência da Globo? Não estou falando da Globo, mas de maneira geral. Essa prática era comum a todos os veículos e a todas as emissoras. Depois do que aconteceu, acho que as chefias e os repórteres estão se precavendo mais, evitando o risco. O lado ruim é que, se a imprensa não sobe o morro, as comunidades perdem essa voz.

Como você, que viveu a contracultura carioca dos anos 70, fala sobre drogas com seus filhos? Eu só digo para eles que algumas coisas não precisam experimentar. Não vale a pena experimentar cocaína ou heroína. Vai ser uma merda. Agora, o álcool está aí. E não tenho nada contra a maconha. Sou da linha da revista The Economist [publicação inglesa que defende a legalização de todas as drogas]. Acho que tinha que liberar tudo. O fato é que a gente vive um modelo de vida e de sociedade que cria uma demanda por alteradores de consciência e, ao mesmo tempo, proíbe. É uma luta que nunca vai ser vencida.

Você usa drogas? Sou simpático à maconha, mas não usuário. Nem poderia declarar se fosse, é encrenca.

Pode falar do passado ao menos? A virada dos anos 60 para os 70 foi um desbunde. Era uma loucura a Ipanema que eu vi. Tinha muito ácido. Depois, veio a cocaína. Experimentei de tudo, sempre fui curioso.

Maconha, LSD, cocaína, tudo? Tudo. Até ópio na Ásia Central, trabalhando. Mas eram outros tempos.

As drogas podem mesmo expandir a consciência, como alguns acreditam? O LSD é uma experiência-limite, um “antes e depois”. Na época que experimentei, na década de 70, era LSD 25 puro. Jamais faria de novo, não tenho mais cabeça. Mas foi uma experiência profunda. Eu lia muito Aldous Huxley, tinha aquele livro A Ilha [sobre um grupo de pessoas que se isola para viver experiências químicas e sexuais], muito bonito. Mas as drogas tinham outro significado. Hoje é bandidagem. É mais ou menos o que aconteceu com as Farc, que começaram com guerrilheiros ideológicos e viraram terroristas a soldo. A aura das drogas não tem mais romantismo. É consumista mesmo, uma procura desesperada do prazer, uma aflição, uma ausência de paz.

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Desde os anos da louca Ipanema até hoje você tem fama de ser sexualmente ativo... [Interrompendo] Fama de garanhão?

É. Você já disse que a primeira coisa que um homem faz quando conhece uma mulher é pensar em sexo. Como lida com isso sendo casado? Renuncia à traição? Renúncia, talvez. Mas, se virar sacrifício, não tem sentido. É uma questão de valor, de você decidir que vale a pena abrir mão de uma perolazinha que caia na sua mão porque tem um puta diamante em casa. Não sei se tem a ver com a idade. Mas o espírito galinha, de sedução, brincadeira, acho muito saudável. Sempre me atraiu o jogo intelectual e afetivo da sedução.

Você disse uma vez: “Eu não tenho essa coisa do garanhão, sou mais de ficar ciscando, não tenho essa de comer e limpar com garfo e faca”. Isso é vocabulário de garanhão, né não? [Rindo] Ah, gosto desse vocabulário meio grosseiro. Me diverte. Sabe conversa de botequim? Ali na pelada, na hora certa, é engraçado. Se você reproduz num veículo de comunicação, fica horroroso, grosseiro.

Mas às vezes bem que você se permite a um vocabulário de peladeiro diante das câmeras. Como quando abraçou a Sabrina e disse: “Ela é gostosa mesmo, Dhomini!”. Com certeza. Mas foi intuitivo, nunca imaginei que ia falar isso na hora.

Já aconteceu de se arrepender de ter dito alguma coisa ao vivo? Ah, já. Acontece de eu voltar para casa me torturando no carro. Uma vez reclamei com a Manuela que ela estava dando mole para dois caras. Depois, pensei: “Porra, mas  que eu virei? Fiscal de buceta? Deixa de ser moralista, que bobagem!”. [Risos] Atualmente, procuro esquecer, me perdoar.

E a sua mulher, Isabel, perdoa? Às vezes ela diz: “Pisou na bola” ou “pô, chega de chamar essa menina de meu bem”. Mas ela tem muito senso de humor, leva na brincadeira. A Isabel, além de tudo, é uma ótima espectadora, inteligente, lúcida, faz comentários e dá dicas pertinentes.

Outra frase sua: “A gente tende a repetir os mesmos enredos, fazer as mesmas bobagens pela vida afora com uma mulher diferente”. Você não aprendeu nada ao longo de seus quatro casamentos? Sabe que depois dessa declaração consegui cometer erros novos e piores? [Risos] É um clichê dizer isso sobre o casamento, mas acho que ele é uma utopia mesmo. Continuo achando rigorosamente impossível conciliar amor e casamento. A instituição mata o amor e a individualidade. Minha sugestão é “não peça ao seu amor algo que não pediria a um amigo”. Num casal, às vezes o favor vira uma obrigação.

Então declarar namoro é mais ou menos como declarar guerra: melhor esgotar todas as possibilidades diplomáticas antes? [Risos] Exatamente. Quando duas pessoas se gostam, têm que cultivar a amizade. Para ver se suportam o que vem depois.

Então vamos falar de um casamento seu que não acabou em amizade: o com a Giulia Gam, que teve direito a briga pública e batalhas no tribunal. Consta que você e ela não se falam nem por telefone, sequer para discutir assuntos referentes ao seu filho Theo. Como é esse processo que transforma pessoas que se amavam em inimigas? É difícil falar sobre isso. Acho que a gente comete enganos na vida, e ambos se enganaram. Ao mesmo tempo, o filho que a gente teve é tão legal... Depois que se chegou a um acordo [a guarda de Theo, depois de algum tempo com Bial, voltou para Giulia], a coisa está melhor. Eu cedi, ela cedeu, fizemos concessões em nome do Theo. A gente já se fala por telefone e pessoalmente.

O que aconteceu depois do nascimento do Theo? A Giulia teve depressão pós-parto? Cara, ela nega. Diz que isso não foi diagnosticado e tal. Ela teve problemas...

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Numa entrevista à Tpm, ela disse que você “até poderia achar que eu não estava legal, mas pegou pesado... Podia ter se interessado em ver qual era, chegar perto, ter ido ao meu terapeuta. Ver se eu tinha condições ou não de criar o Theo. Mas optou por uma coisa egoísta”. Você discorda? Discordo, claro. Mas prefiro deixar pra lá.

É mais fácil dar entrevista do que fazer? Putz, começo a falar e me sinto meio perdido. Tenho um pouco de cansaço de ficar ouvindo a minha voz. Não sou de falar muito da minha vida pessoal. Minha mulher reclama que sou muito fechado.

As mulheres sempre reclamam que os homens não falam. A conclusão da observação da natureza humana dos câmeras e da equipe de edição do Big Brother é a seguinte: toda mulher é chata e todo homem é bobo. Pelo menos chegamos a um consenso.

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