Fernando Costa Netto
Paulo Lima

por Fernando Costa Netto
Paulo Lima

Diretor de redação da Folha de S.Paulo, escritor, polêmico, de voz baixa e pausada, o jornalista tem o mérito de ter dado cara nova à mídia impressa brasileira

 #BaúdaTripNa edição 100 da revista, em dezembro de 1992, entrevistamos nas Páginas Negras Otavio Frias Filho. O jornalista, dramaturgo e ensaísta comandou a Folha de S.Paulo por 34 anos e renovou o projeto do jornal na década de 80. Otavio morreu nesta terça-feira (21/8), aos 61 anos, em São Paulo. Abaixo, a entrevista, pela primeira vez no site.

Encoste a cabeça no travesseiro e tente imaginar a manchete do jornal de um milhão de leitores para o dia seguinte. Pense em jogar a primeira pedra e acusar o presidente eleito com 35 milhões de votos no envolvimento em casos de corrupção - ainda nos tempos do sorriso latino, da brilhantina e das bandas de jet ski em Angra. Diretor de redação da Folha de S.Paulo, escritor, polêmico, magrinho, de voz baixa e pausada, Otavio Frias Filho tem o mérito de ter estabelecido alguns novos conceitos e dado cara nova à mídia impressa brasileira. Como todas as qualidades, entre um Hollywood e um gole de Cuba Libre, Otavio é maneiro na frente do gravador.

O que você estaria fazendo, se não estivesse aqui sendo entrevistado? Provavelmente, estaria no jornal. Normalmente, eu chego na Folha na hora do almoço, alguns dias nós temos uma reunião pela manhã, em outros, uma outra reunião por volta do meio-dia, para discutirmos os problemas do dia, principalmente de linha editorial. Saio por volta das oito, nove da noite. 

E de manhã, o que você faz antes de ir para o jornal? Eu costumo acordar relativamente tarde. Dou uma espiada nos jornais - muitas vezes eu já dei uma lida na Folha de madrugada -, mas depende muito, eu levo uma vida muito sem agenda. Por exemplo, durante esse período de impeachment do Collor foi uma época de muitas reuniões...

As suas reuniões são sempre voltadas para o editorial ou você também tem reuniões de negócios com empresários? O que eu tenho, às vezes, são algumas reuniões para discutir problemas orçamentários internos. A minha responsabilidade se restringe à área editorial.

A necessidade de vender jornal pesa muito na hora das decisões editoriais? As duas coisas estão muito associadas na minha cabeça. Se você, por exemplo, fizer um esforço e investir na qualidade do produto, isso acaba resultando em aumento de venda. Então eu tenho a preocupação indireta de vender através da qualidade, oferecer serviços diferentes...

LEIA TAMBÉM: Aos 72 anos, Regina Guerreiro passa sua história com a moda a limpo  
Infelizmente, o nível médio do cidadão brasileiro é baixo, e há um maior consumo de bens de baixa qualidade do que de alta qualidade. Isso não se constitui em um problema para você? Basicamente, o leitor do jornal - pelo menos dos jornais do tipo da Folha -, é de classe média. Nessa região mais rica do país, existe uma classe média bastante ampla, com hábitos de consumo relativamente sofisticados. Então, existe uma base mercadológica para que se consiga sustentar uma imprensa de boa qualidade.

Você acha que há uma função meio didática do jornal? A Folha tem tido uma influência biológica na imprensa. Hoje eu acho que a imprensa, de um modo geral, é mais crítica e apartidária  do que era em um passado recente. Isso em parte tem a ver com uma certa influência representada pela Folha, sobretudo nesses últimos anos.   

Você acha que nasceu inteligente? Desde criança eu vivi no meio jornalístico. As discussões em casa era sobre política, sobre jornal. Meu pai dirigiu a empresa e até hoje ele tem uma função de aconselhamento, de supervisão geral, e vai todos os dias ao jornal, tendo participação ativa na direção maior da empresa. Depois, quando eu tinha por volta de 16, 17 anos, comecei a ir com mais frequência ao jornal. Me aproximei do Cláudio Abramo e trabalhei durante alguns anos como uma espécie de assistente informal dele, escrevendo editoriais. Foi um aprendizado em função da experiência e da atuação do meu pai no jornal e em função desse contato mais profissional com o Cláudio Abramo. 

Então, você diria que como jornalista é cria do Cláudio Abramo? Eu diria que sim, apesar de nós termos tido muitas divergências no fim da vida dele. Tínhamos uma relação muito estreita, e acabou havendo um certa afastamento.

Quando ele morreu, vocês estavam meio brigados? Eu não digo brigados. A gente tinha uma relação de cortesia, mais respeitosa, mas, ao mesmo tempo, distante, fria.

Antes de você começar no jornal, como foi sua infância? Você preferia brincar de bola na rua ou ficar em casa lendo Monteiro Lobato? Eu passei por dois colégios. Primeiro eu estudava em um colégio que era muito liberal. Aos 10 anos, eu mudei para outro que era justamente o contrário, semi-internato de padres católicos. Era bem conservador e passei a adolescência toda nesse colégio, o Santo Américo. Meu temperamento sempre foi assim mais retraído, pouco expansivo, sempre fui bom aluno. Eu joguei bola na rua, mas nunca fui desse tipo, sempre fui do mais estudioso, tímido, retraído.

Você tem uma casa em Ubatuba. Já chegou a surfar? Já, mas nunca fui bem.

Que prancha você usou? Primeiro era uma prancha canhão, enorme. Depois, foram ficando menores, mas o máximo que eu conseguia fazer era ficar em pé em cima da prancha. Eu sempre tive uma interesse pouco duradouro por esportes, nunca fui apaixonado. A última coisa que fiz em termos de esporte foi natação há alguns meses, mas parei.

LEIA TAMBÉM: Fotolivro reúne 50 mulheres retratados por Bob Wolfenson, do nu artístico a momentos mais doces 

Como todo pai e filho, e todo patrão e empregado, você já deve ter tido atritos com seu pai. O que é mais difícil, brigar de frente com o Collor ou brigar com o pai? Houve muitos momentos de tensão com meu pai. Mas não me lembro de ter havido nenhuma briga, porque ele sempre me deu um apoio muito grande e sempre houve convergência entre nós. Eu procuro ter uma atitude hierárquica em relação a ele. Como empresário e como jornalista, ele é uma pessoa de muito talento, apesar de dizer que não é jornalista.

Você tem medo dele às vezes? Não, porque meu pai é uma pessoa muito informal, ao contrário de mim. Minha tendência é ser mais formal. Ele é muito liberal e não respeita nenhum tipo de prerrogativa que não seja baseada em argumentos. Ele sempre discute muito abertamente os assuntos e não só admite como até gosta de controvérsias e estimula pontos de vista divergentes. Esse espírito de pluralismo da Folha, acho que tem muito a ver com dados de temperamento do meu pai.

Você acha que ele tem características de vendedor? Ele se declara um vendedor e trabalhou como vendedor na juventude dele. Traduziu livros de técnicas de venda.

Voltando à política, você já deve ter visto um cartaz de 1974, do Quércia ao lado de um Dodge Dart com os dizeres do tipo: “Esse é o vereador Orestes Quércia que chegou a São Paulo para resolver os problemas dos paulistanos”. Bem, hoje ele é quase presidente do Brasil, dono de metade do Congresso, suspeito em casos de corrupção, falam que ele é proprietário de um hotel cinco estrelas em Portugal. Nesse caso da CPI da Vasp, qual a posição da Folha? Você acredita que a redação do jornal está dando a devida atenção ao assunto, como no caso Collor/PC? A política do jornal é de ter uma atitude crítica e apartidária em geral. Sendo assim, a minha resposta é sim. Isso não significa, porém, que vamos fazer uma campanha de destruição pessoal em cima do Collor. Durante o período do “Collorgate”, um dos esforços mais intensos dos órgãos que comandam a parte editorial da Folha foi o de evitar que houvesse por um lado uma atitude de destruir o Collor a qualquer preço. E por outro lado, que houvesse um maniqueísmo fácil do tipo “O Collor é o mal, quem está contra ele é o bem”. Nós sempre procuramos ouvir o governo Collor, publicando artigos de pessoas que se alinhavam com Collor até o final, para garantir o mínimo de respiração do ponto de vista divergente dentro do jornal. Agora há indícios muito claros de que Orestes Quércia tem responsabilidades civis e criminais, que estão surgindo à medida que as investigações da CPI da Vasp estão avançando. A ideia do jornal é cobrir isso da maneira mais factual possível e dar uma dimensão de destaque editorial semelhante ao caso Collor.

Quais são as duas virtudes para um jornalista fazer parte da redação da Folha? Se fosse resumir e dizer duas coisas, diria que deve gostar de notícias e ter gosto pela novidade em si.

Quem é a Madonna da Folha? Seria necessário fazer uma eleição. Existem várias candidatas, mas na posição de diretor de redação tenho que ter uma atitude de isenção.

Essa atitude de isenção não te enche o saco às vezes? Muitas vezes, porque é uma espécie de ditadura a qual você tem que se submeter.

Quantas vezes por mês você tem vontade de mandar todo mundo à merda e sumir? Várias vezes ao longo desses anos todos.

Do que você tem medo? Como todas as pessoas, tenho medo de várias coisas. Desde os medos mais prosaicos, como medo de avião, até mais metafísicos, tipo medo de fracassar, de regredir em termos existenciais, de envelhecer. Não é uma obsessão, mas tenho medo de morrer também. À medida que você tem amor à vida, aparece o medo de morrer.

Você disse que é interessante o jornalista ter uma certa tendência esquerdista. E uma certa tendência homossexual? Você não acha que isso pode ocasionar um tipo diferente de visão de mundo, que pode ser bastante interessante profissionalmente? Eu nunca havia pensando nesse aspecto, mas acho que é possível que sim, desde que não se tire nenhuma conclusão automática do tipo “se é de esquerda, é bom jornalista”, porque isso não é verdade. Mas em tese eu concordaria, acho que tudo que predispõe na pessoa um certo espírito de antagonismo em relação ao padrão normal é um terreno fecundo para o jornalismo.

Você tem amigos homossexuais? Não.

Quantos amigos você tem? Amigos íntimos, que acompanham o que está acontecendo na sua vida, com quem você discute as coisas que estão te preocupando, são poucos.

Qual é a porcentagem das questões que te preocupam que você abre para seus amigos? Praticamente tudo. O que não abro mais é por receio de chatear e aborrecer essas pessoas íntimas do que por algum tipo de reserva.

Tem alguém com quem você abra tudo? Sim.

Você já fez análise? Já, na adolescência fiz durante um ano e meio e, há dois anos, fiz mais um período de um ano e meio.

Foi legal? Interessante. Do ponto de vista intelectual - ou mesmo existencial – é uma coisa que pode ser boa.

O que você descobriu na análise que nem passava pela sua cabeça antes? Algo que eu nunca tivesse pensado, mas que reforçou certas opiniões que eu tinha a meu respeito. Por exemplo, eu sempre tive uma auto exigência muito grande e isso é uma coisa que tem um lado positivo. Mas tem um lado muito negativo que é o de eu ficar me martirizando.

Você tem algum tipo de cuidado com o seu corpo ou ele é só um “carrinho para o seu intelecto”? Eu acho que tenho o mínimo de cuidado, como evitar comer demais, fumar demais.

Tem espelho na sua casa? Sim.

Que relógio você está usando? Um Seiko que eu ganhei.

Como é sua relação com dinheiro, você gosta de dinheiro? Eu dou muito valor ao dinheiro, acho que é uma coisa importante na vida.

Nós somos treinados para achar que o chique é ser meio despojado, não dar valor, não ser muito importante na vida um carro legal, um sapato último tipo. Você acha que foi ensinado a ser despojado? Acho que sim.

Pegaria mal, por exemplo, você ter uma Nissan Pathfinder? Muito mal.

Que carro você tem? Um Voyage.

Mas você gostaria de dirigir um carro importado? Eu não tenho essa atração. Coisas eletrônicas, por exemplo, não me atraem e eu detesto fazer compras.

Como é a televisão na sua casa? É uma que eu ganhei do meu pai quando mudei de casa em 84. 

E o som? É um equipamento dessa época também, e um CD player que eu comprei posteriormente.

O que você costuma escutar? Antigamente eu ouvia muito rock, tipo Rolling Stones. De uns anos pra cá, tenho ouvido mais música clássica. Mas não sou uma pessoa muito “musical”.

Em que tipo de loja você compra roupa? Eu vou à lojas o menos possível, não tenho prazer em comprar. Me vejo adiando e adiando várias vezes quando tenho que comprar algo.

Quantos sapatos você tem? Alguns, mas eu sempre acabo usando sempre os mesmos, dois pares.

Você gosta de comprar roupa em viagem? Gosto muito de viagens, mas a combinação compras/viagem não me agrada.

Quem é o jornalista mais lido na Folha atualmente? Fazemos pesquisas periódicas e há oscilações. Atualmente rivalizam o Jânio de Freitas e o Gilberto Dimenstein.

E o caderno “Mais”, com todos aqueles blocos de texto, não deve ter índice de leitura muito alto. Isso procede? O “Mais” é um investimento institucional que o jornal faz em termos de imagem, de presença na área cultural, do que propriamente um apelo de leitura.

Como leitor, qual a parte do jornal que te dá mais prazer de ler? Uma vez me perguntaram isso e eu respondi meio sério e meio na brincadeira que era os quadrinhos. Eu sempre gostei de histórias em quadrinhos e quando eu dei essa resposta foi porque os quadrinhos são uma das poucas parte dos jornal em que não há qualquer tipo de responsabilidade. Não há erros nos quadrinhos. Então, além de gostar por causa disso, os quadrinhos são uma das poucas partes que eu leio como leitor.

E o horóscopo, você acredita? Não. A Folha cortou as palavras cruzadas. Mas em relação ao horóscopo, nunca foi cogitado nada a esse respeito.

Já é consenso que a Folha deu um pau no Estadão. As tiragens mostraram isso. Mas uma instituição de prestígio como o Estadão não acaba de um dia pro outro. Você acha que o jornal está numa curva descendente, numa trajetória definida pra baixo? É um pouco cedo para dizer isso. A impressão que eu tenho é que existe uma espécie de dilema que está corroendo o Estado: se não mudar, irá realçar esse aspecto anacrônico que possui.  A tendência, se isso for levado às últimas consequências, seria desaparecer, virar uma espécie de objeto de museu. Por outro lado, se o Estadão mudar, vai se desfigurando à medida que muda o patrimônio principal, que é sua característica tradicional. Por exemplo, recentemente eles usaram o slogan “O Estadão não é mais aquele” e a força deles sempre foi a de que o Estadão continuava sendo aquele. Esse dilema está dilacerando a identidade do jornal – apesar de que com essas mudanças todas, eles adquiriram uma competitividade que não tinham antes. Eu não acho que o conflito mercadológico entre Folha e Estado esteja decidido em São Paulo. A Folha leva uma certa vantagem, mas a coisa está longe do fim.

A Folha é hoje uma das instituições mais respeitadas e tem pouquíssimas coisas que as pessoas podem se pegar contra a empresa. As duas coisas que eu me lembro são: o negócio das assinaturas que eram para sempre e deixaram de ser e a tal história da rodoviária. Dá pra dar uma pincelada rápida nessas histórias? O caso da rodoviária foi o seguinte: antes de adquirir o controle acionário da Folha, meu pai e o sócio dele, Carlos Caldeira Filho, montaram a estação rodoviária. Era uma coisa particular, destinada a funcionar como uma sede de transferência de ônibus e de embarque e desembarque de passageiros. Era cobrada uma determinada taxa das empresas de ônibus que serviam desse local. E durante muitos anos, o Estado de S.Paulo, jornal preocupado com o crescimento da Folha, começou a combater a estação rodoviária, a meu ver, partindo da ideia de que ela estivesse financiando o crescimento da Folha. Coisa que nunca ocorreu, porque as economias das suas empresas sempre foram coisas separadas, distantes. Então hoje há muita celeuma em torno dessa questão, motivada por uma ideia, aliás, equivocada do Estadão, de que poderia atingir a Folha, se atacasse a estação rodoviária. A questão das assinaturas permanentes foi o seguinte: no final dos anos 50, numa tentativa de aumentar o capital da empresa, os então proprietários da Folha, tiveram essa ideia de emitir assinaturas vitalícias, que além disso, se transferiam para os herdeiros. A pessoa pagava uma quantidade para adquirir essa titularidade e o objetivo era capitalizar a empresa com essa emissão de assinaturas. E pode ter sido um expediente, digamos, oportuno naquele momento, no fim dos anos 50. Mas era uma iniciativa que a longo prazo, significava a empresa ter que arrastar um bônus constante. Como se fosse uma dívida eterna. E uma das primeiras providências que o Caldeira e o meu pai adotaram quando eles assumiram o controle acionário da Folha foi cancelar isso. E tivemos uma longa batalha judicial contra vários titulares dessa suposta assinatura eterna, que foram à justiça reclamar os direitos.

Então foi um erro das pessoas que tinham o jornal antes do seu pai? Acho que sim.

Onde você acha que o Estadão poderia melhorar? Olha, se eu tivesse alguma responsabilidade no Estadão faria um processo de mudanças completamente diferente do que eles fizeram. Em vez de mimetizar características da Folha e jogar na confusão de Folha e Estado – me parece que é basicamente a política deles -, eu teria feito uma organização, teria modificado procedimentos, padrões, a equipe do jornal, mas teria feito isso procurando marcar cada vez mais a imagem de que o Estado significava qualidade, enquanto a Folha significaria oportunismo, arrivismo etc. Não foi o que eles fizeram. Eles banalizaram o jornal.

Na medida que está dando dicas a eles, você considera que isso é meio irreversível, que agora eles já erraram e isso não tem volta? Não sei se é irreversível. Mas eles parecem muito interessados em qualquer tipo de ganho a curto prazo e pouco interessados no jornal enquanto instituição. Parecem não se importar no que vai ser O Estado em 1995 ou no ano 2000, 2005, e muito interessados no que vai ser no mês que vem, ou até no final do ano. Me parece uma política de curto prazo, imediatista. Eu não vejo um planejamento inteligente, uma estratégia mais de largo alcance.

Em quem você votou para prefeito? No primeiro turno eu não votei, justifiquei. No segundo anulei meu voto. Muito poucas vezes eu deixei de anular.

Quem você acha que poderia dar um bom prefeito para São Paulo ou um bom presidente para o país? Eu tenho uma atitude cética com a política em geral. Não acho que tenha grandes diferenças sendo uma pessoa ou outra. As forças de uma atuação na política são tão impessoais e poderosas que uma pessoa sozinha não tem muito o que fazer ou deixar de fazer. Não acredito que um presidente, um governador ou um prefeito possa alterar significativamente alguma coisa. O voto não deveria ser obrigatório, essa história me irrita muito, isso é um abuso. Eu anulei meu voto quase que num protesto íntimo.

Se o Maluf fosse candidato no RJ e no segundo turno sobrassem a Benedita e ele, você acha que seria a mesma coisa se qualquer um dos dois ganhasse? Eu acho que sim, embora ache o Maluf péssimo, um dos piores políticos que existem. Mas eu realmente não acredito que a política possa interferir de maneira real na vida das pessoas. É uma espécie de ficção.

E os astros, você acha que interferem? Não acredito.

Você acredita em Deus? Não.

Acredita em alguma força superior? Não.

Como você acha que é a mecânica das coisas, é tudo biológico? Eu tenho uma crença, digamos, científica. Acredito na biologia, na física. Nunca tive gosto por ciências exatas, mas acredito que as coisas funcionem dessa maneira, como a ciência diz que funciona.

E as gafes do jornal? São várias, muitas vezes essas gafes são erros.

E um erro sério que os leitores ficaram putos e mandaram cartas reclamando? Um erro que me deixou bastante aborrecido foi causado por uma repórter da sucursal de Brasília que teve acesso a um relatório de um inquérito da Polícia Federal sobre o caso Magri. Ela leu e concluiu que o relatório incriminava a construtora Odebrecht e mandou uma matéria, confirmando a informação. A Folha deu isso na primeira página e estava totalmente errado. O relatório excluía totalmente a Construtora.

A demissão da repórter também saiu na primeira página? Exato.

Você se sentiu culpado pelo erro ou pela demissão? Me senti culpado por ambos.

O que doeu mais, o erro ou a demissão? A demissão e a decisão de publicar que ela estava sendo demitida. Foi realmente um caso extremo, ela não compreendeu uma frase do relatório e interpretou ao contrário o sentido da palavra “elidir” [eliminar, suprimir, n.r.].

Os funcionários do jornal têm acesso irrestrito a você? Normalmente eu trabalho de porta aberta e sempre fiz questão de mantê-la aberta. Quem quiser falar comigo, em tese marca uma hora. É frequente eu falar com repórteres e redatores, pessoas que não têm o cargo de editor.

 

Qual é o seu objeto do desejo? Ser escritor é o que eu sempre quis.

Quantas mulheres você já amou na sua vida? Acho que algumas. Difícil dizer, porque cada situação é tão particular, tão específica.

Por que você nunca casou? Por várias razões eu acho. Não me adapto muito bem à rotina.

Você se adapta bem às mulheres? Eu acho que sim, mas como disse não me adapto bem à rotina. É uma responsabilidade enorme ter filho. A pessoa precisa se sentir madura e disposta a enfrentar todas as consequências de se ter um filho, e eu tenho um certo gosto por estar sozinho. Pelo menos até hoje tem sido assim.

O seu namoro mais demorado durou quanto tempo? Durou uns três anos.

Porque você nunca é visto com mulheres? Pra começar, eu saio pouco. Exceto ir a alguns restaurantes, praticamente não saio. Nunca vou a boates, raramente vou a festas.

Você assume sua namorada, apresenta para as pessoas? Sim.

Isso é para todo mundo? É, para as pessoas no círculo onde eu ando, que é um círculo de poucos. Quando saio é muito mais para jantar com poucas pessoas ou ir na casa de alguém.

Do que você acha que as mulheres mais gostam em você? Não sei dizer, acho que é uma mistura.

Você já namorou alguém do jornal? Sim.

Na sua vida teve uma mulher mais importante? Não, acho que não. É muito difícil quantificar essas coisas. É o que estava te falando antes, cada situação é como se fosse uma nova situação.

Quando você ficou a fim de alguma dessas garota, quanto tempo demorou para vocês transarem? Cada caso é um caso.

E a importância do sexo na relação? É muito importante. Tem um peso muito grande.

Você já ficou com alguma mulher só por causa de sexo? Não.

Você sente alguma dificuldade em se relacionar com as pessoas? Elas ficam um pouco ressabiadas pelo fato de você ser o Otavio Frias Filho? Acho que a minha pessoa é tão indissociável da minha imagem que seria meio ocioso ficar me preocupando com isso. Vamos supor que uma pessoa que tivesse uma determinada característica qualquer - a pessoa é um gênio em matemática, ou então tem muita sorte no jogo, por exemplo - é muito difícil para essa pessoa dissociar o que ela é dessa característica que ela tem. No fundo, isso forma um todo, então acho um pouco acadêmico ficar pensando coisas do tipo: “Será que é a minha imagem, será que é o que eu represento por causa do jornal, ou será que sou eu, pessoa física?”

Você pensa em sexo todo dia? [Risos] Não sei se eu tenho tempo. Se tivesse, acho que pensaria, sim.

Mas você consegue controlar isso, que dizer, o fato de você estar em uma reunião, e entra uma puta gata? Isso não te abala? Não. Você tem que ter uma autodisciplina, desenvolvida desde criança. Não tem nenhum problema.

E quando você está descontraído, numa festa ou na praia, o que te atrai mais no corpo da mulher? Acho que é o rosto.

Quando você sai do jornal, consegue se desligar? Sim. Eu desligo até em excesso… Se estou em férias, é uma coisa que sai da cabeça.

Você tira férias todo ano? Ultimamente, tenho procurado tirar mais regularmente. Mas houve um período na Folha - que foi de muita dificuldade interna, quando estava procurando impor minha legitimidade - que eu cheguei a ficar quase três anos sem sair.

Que outro jornal você lê diariamente além da Folha. Eu dou uma olhada nos outros jornais, e procuro ler a Folha o tanto quanto possível.

Onde você lê a Folha? Às vezes de madrugada, em casa. Às vezes, eu leio de manhã.

Você gosta de ler no banheiro? Não, na verdade eu não gosto de ler jornal. É um esforço eu ter que ler jornal.

Quanto tempo você gasta lendo a Folha de domingo? O ideal seria gastar umas duas, três horas. Mas eu nunca consigo fazer isso.

Quem você gostaria que estivesse escrevendo para o jornal hoje? Olha, o primeiro nome que me ocorre, assim quase que por uma coisa pessoal é o João Cabral [de Mello Neto, escritor e poeta].

Ele já foi convidado? Sim, ele foi convidado a escrever poemas. Mas ele é uma pessoa muito reservada, tem uma atitude meio refratária em relação à imprensa em geral.

Quantos funcionários a Folha tem hoje? A área editorial, como um todo, tem cerca de 650. Isso significa as redações da Folha de S. Paulo, da Agência Folha, das sucursais de Brasília e do Rio, duas redações menores que são a da Folha da Tarde e do Notícias Populares e uma redação bastante menor, que é o Banco de Dados. Na redação da Folha de S. Paulo, propriamente dita, devem estar trabalhando atualmente cerca de 270, 280 pessoas. Esses números só se referem a jornalistas.

Quantos têm diploma? Não sei dizer.

Você tem algum hobbie? Ir ao cinema.

Quais são os lugares que você frequenta? Olha, como te disse eu saio pouco.

Restaurantes, por exemplo? Acaba sendo uma escolha de quais são os restaurantes que ficam abertos até tarde. Varia muito. Às vezes, vou a uma churrascaria que geralmente fica aberta até tarde.

Você já saiu para dançar alguma vez? Eu não danço. A última vez que dancei, devia ter uns 19 anos. Eu também não sou um bom personagem para entrevistas.

Quais são os três erros que um jornalista não pode cometer? Eu acho que é se envolver emocionalmente com o que está cobrindo, não conhecer a própria língua e não acompanhar a mudança constante das coisas. O mundo está sempre mudando e a pessoa tem que estar “antenada” com o cinema, viagem, costumes, novas modas, novas manias…

E como você faz, já que como acabou de dizer, não gosta de viajar. Que tipo de ferramenta você usa para manter as suas antenas ligadas? Eu não me considero um modelo de jornalista. Acho que tenho vários “handicaps”, que idealmente um jornalista não deveria ter. Eu não gosto muito de viajar, e acho que um jornalista tem que ser uma pessoa que viaje bastante. Mas por outro lado eu me considero um observador muito atento das coisas. Quer dizer, eu tenho boa memória, observo muito os detalhes, leio relativamente bastante - isso em relação ao que a média as pessoas leem.

Você já experimentou maconha? [Pausa] Acho que toda pessoa tem o direito de não responder uma pergunta que a coloque numa posição de tonta ou de mentirosa.

Você acha que a maconha deveria ser tratada pela legislação de forma diferente de drogas como cocaína e heroína? De um modo geral, o consumo de drogas deveria ser descriminalizado. É um erro a política dos Estado em relação a questão das drogas. Deveria haver uma descriminalização do consumo e também mecanismos que regulassem o consumo e repressão ao tráfico.

Como você vê os intelectuais que são a favor da alteração do estado da pessoa, que defendem desde o LSD até a realidade virtual? São opções individuais. Essas decisões dependem sempre de um nível muito íntimo, muito pessoal. Não deveria haver uma coisa normativa para as pessoas de um modo geral. Depende muito de cada pessoa, da sociedade, da cultura, da época.

Você se considera um cara feliz? Moderadamente feliz. Eu me considero, hoje, mais feliz do que fui durante 30 e poucos anos.

Neste mês, qual foi o teu momento mais feliz? Foram vários. Estou passando por uma época em que me sinto muito contente.

Mas isso é profissional ou pessoal? É um pouco uma sensação de que por um lado consegui superar certos desafios profissionais mais ou menos bem. Por outro lado, é uma desenvoltura na atividade de autor, de escritor, que vejo que estou ganhando.

O seu lado profissional chega a sufocar muito a sua pessoa? Bastante.

Você está namorando? Estou.

Quantas vezes você encontra sua namorada por semana? Atualmente, muito raramente, porque ela mora na Venezuela. A última vez que encontrei com ela foi em julho.

Você é fiel a ela? Sou.

E você acha que ela é fiel? Eu acho que sim.

Ela é brasileira? Não, é venezuelana.

Você acha que casamento dá certo, tem futuro? Eu acho que se as pessoas têm uma expectativa de felicidade moderada, há uma boa chance do casamento funcionar. Como hoje em dia as expectativas de felicidade se exacerbaram muito, porque há uma ideia de muita liberdade, de muita possibilidade, de que você tenha muitas coisas ao mesmo tempo ao teu alcance, então, acho que a tendência das pessoas se frustarem no casamento é muito grande. Uma quantidade bem significativa de casais da minha geração se desfizeram bem rápido.

Você já morou junto com uma mulher? Já.

Quanto tempo? O maior período de tempo foi um ano e meio.  

Foi legal? Foi legal. Foi um pouco desgastante, mas foi legal.

Sofreu muito durante? Pouco.

Você acha que sofrimento é importante? Ou você acha que se pudesse não sofrer seria melhor? Eu acho as duas coisas. Sofrimento amadurece e se fosse possível não sofrer seria melhor.

Você consegue ser um pouco criança? Eu acho que num certo plano pessoal, sim, ao contrário das aparências.

E como é que é? Você se pega brincando, fazendo alguma bobagem? Eu me divirto com coisas com que a maioria dos adultos não se diverte. O próprio cinema, eu tenho um gosto pelo cinema que não vejo as pessoas terem.

Você está se divertindo agora durante esse papo ou é mais uma coisa profissional? É mais divertido do que geralmente são as entrevistas. Mas é uma coisa tensa, porque você está sendo submetido a questões, tem que pensar o que vai dizer. Não pode dizer as coisas impensadamente.

Em alguma situação, eventualmente um erro do jornal ou de um jornalista, ou mesmo na sua vida sexual, você teve vontade de matar alguém? Não, felizmente não.

E bater, você já bateu em alguém? Já saiu na porrada? Quando eu era criança. Brigas com colegas.

E apanhar? De mulheres, por exemplo? Felizmente, não.

Em que dia você nasceu? Sete de junho de 57.

Você é apaixonado por São Paulo? Vamos dizer que eu sou habituado a São Paulo. Não acho que seja uma cidade de extraordinária, é cheia de defeitos.

Tem alguma cidade no mundo que você gosta particularmente? Florença é uma cidade extraordinária. Paris também.

Créditos

Imagem principal: Bob Wolfenson

matérias relacionadas