por alexandre matias

Fernando Dotta e Rafael Farah são amigos, tiveram uma banda juntos e criaram a Balaclava, importante selo do rock independente brasileiro

Quando se conheceram no final de 2009, Fernando Dotta e Rafael Farah mal sabiam que aquele primeiro contato era o começo de uma série de sonhos realizados que ajudariam a reinventar a nova cena do rock independente brasileiro e a trazer algumas das principais bandas da versão estrangeira deste cenário para o país. Com oito anos em atividade, a produtora e gravadora Balaclava Records está às vésperas da realização da oitava edição de seu festival, que trará, neste fim de semana, as bandas norte-americanas Future Islands, Sun Kil Moon e Beach Fossils, a argentina Un Planeta e as brasileiras Rakta, Ombu e Holger, consolidando mais um passo na lenta e firme escalada do selo e produtora como um dos principais agentes da cena indie brasileira deste século. Os dois estavam no Breve, casa noturna na Pompeia, que dividem com os antigos sócios do Neu Club, e conversaram sobre como chegaram até este estágio e quais os planos futuros para o selo.

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O motor dessa escalada não foi articulado e saiu mais da necessidade do que da vontade de realizar eventos e lançar bandas. Em janeiro de 2010, os dois começaram a trabalhar juntos na banda que mais tarde se tornaria o Single Parents — Dotta nas guitarras e Farah na bateria — e foi a partir da fundação do grupo que os dois perceberam que, além de gostar de tocar juntos, também gostavam da parte dos bastidores da cena musical, de eventos, festivais, festas, debates e produções. Muito pelo fato dos dois terem estudado na mesma faculdade, fazendo cursos que refletiam aquele outro lado do fazer música: Farah fez administração e Dotta fez propaganda e marketing, ambos na ESPM, onde se conheceram.

 

 

A semente da produtora já havia germinado com o início do Single Parents, a partir da divulgação de seu primeiro EP. “Na época, tinha uma cena boa de blogs de música, que movimentava bem”, lembra Farah. “O Farah já tinha tido banda antes e tinha uma experiência mínima de como fazer as coisas”, completa Dotta, lembrando dos anos em que o baterista tocou com o Quarto Negro, que depois entrou no selo da dupla. “Eu não tinha circulado tanto, mas já conhecia algumas pessoas e começamos assim, estruturando contatos, entendendo o mercado”, segue o outro sócio.

O primeiro show da banda foi em fevereiro de 2010, na casa noturna Outs, na Augusta, e logo em seguida eles foram convidados para participar da primeira festa do blog Move That Jukebox na Funhouse. Os dois já tinham marcado viagem juntos para assistir ao festival Coachella daquele ano e aproveitaram a viagem para tentar marcar shows nos EUA. “A gente ia passar por Nova York pra comprar instrumentos e conseguimos fazer quatro shows por lá. E assim a gente foi entendendo as coisas, aprendendo a fazer tudo do zero. E desde o começo a gente sacou que tinha uma vontade de tocar o negócio. A gente sempre gostou de trocar ideia e estar ligado em quem é quem na cena”, continua o guitarrista. “A gente também organizou muito show antes e conheceu uma galera de fora de São Paulo que tinha um som parecido com o nosso. E a gente pensou em juntar essa galera, porque tava todo mundo solto, cada um em sua região. Mesmo porque a gente não fazia ideia do que fazia um selo. A gente só queria lançar as bandas que a gente achava que estavam próximas, pra criar uma cena, um circuito.”

Os dois largaram seus empregos no final de 2011, quando começaram a se dedicar em tempo integral à nova atividade. O primeiro passo foi gravar o disco de estreia no exterior, que também foi o penúltimo disco do projeto Álbum Virtual, da gravadora Trama. E o lançamento do álbum foi a primeira produção do selo: além do disco em si, a Balaclava Records assinava pela primeira vez um evento ao alugar um salão de bailes japoneses na Vila Mariana — a Associação Osaka — para marcar o lançamento do disco, no início de 2012.

 

 

“A gente alugou tudo e fez tudo do zero. Montando o evento com os Single Parents, a banda Twinpines e o show do Roger [Paul Manson, norte-americano que produziu o primeiro disco do grupo]”, continua Dotta. “Foi nossa primeira experiência de produção, divulgação, de ter gente no caixa, fazer o bar. Foi aí que deu a coceira de fazer alguma coisa diferente, reforçando a ideia da marca.” “A gente queria essa ideia de coletivo e quis passar isso pro selo, sempre pensando como uma produtora, de fazer festa e, imagina um dia, fazer nosso festival”, continua Farah.

O primeiro Balaclava Apresenta foi realizado no último dia de fevereiro de 2013, no clube Alberta #3, na Avenida São Luiz, centro de São Paulo, e contou com a discotecagem de Lúcio Ribeiro e Fernanda Tedde e apresentação da banda Soundscapes. Foi a primeira edição da festa autoral do selo, que começava a crescer contratando artistas que já vinham com seus discos prontos, característica definida desde o início — produzir artistas que já tinham seus próprios discos em vez de acompanhar o processo de gravação e produção dos álbuns. “O selo ajudava a vender a banda e as ideias como um projeto”, explica Farah, sobre os artistas que começavam a entrar no elenco da Balaclava — bandas como Soundscapes, Medialunas, Terno Rei, Cabana Café, Câmera, Mahmed, Supercordas, Holger, Quarto Negro, Meneio e Frabin, que tocaram em casas como Casa do Mancha, Neu Club, Beco 203, Serralheria, Puxadinho da Praça e Secreto.

Porém, o sonho de fazer seu próprio festival e trazer artistas de fora persistia, além das referências de selos com os quais eles queriam ser associados, como Merge, Sub Pop e Captured Tracks. Foi no aniversário de cinco anos deste selo de Nova York que Dotta teve um insight sobre os próximos passos da banda, em 2014. “Foi um estalo que me deu ao ver aquela fábrica no Brooklyn, só com banda do selo e tudo montado do zero. Foi lá que eu conheci a manager do Mac DeMarco, que ajudou o Garotas Suecas a fazer a turnê deles lá, e lá começamos a falar sobre trazê-lo para o Brasil. E em paralelo a gente vinha tentando fazer um milhão de coisas sem ter a mínima noção de como prosseguir. A gente quase fez um festival em 2014 que até hoje a gente não teria condição de ter pago.”

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E o selo ainda contou com a sorte ao fechar a vinda de sua primeira turnê com um artista gringo poucos meses antes de seu disco projetá-lo para um público maior: “Foi um choque”, lembra Dotta. “Era uma aposta, a gente fechou o show dele um mês antes do lançamento do disco Salad Days e o disco tinha acabado de vazar na internet. No dia do show todas as pessoas estavam cantando todas as músicas no Sesc Belenzinho”. Farah completa ao lembrar de outro momento emblemático com o indie alto astral. “Um ano depois tínhamos a Audio lotada para ver o show dele e uma turnê que passava por sete cidades do Brasil — e isso só um ano depois do primeiro show. E o mais legal foi que o Mac era o único headliner gringo e o povo chegou cedo, pra ver as outras bandas brasileiras”.

A segunda vinda de DeMarco para o Brasil foi na segunda edição do Balaclava Fest, que o selo lançou em abril de 2015 no Centro Cultural São Paulo, ao trazer o fundador do Superchunk e dono da gravadora Merge para apresentar-se sozinho em São Paulo. Em novembro daquele ano, trouxeram Mac DeMarco acompanhado de artistas como Mahmed, Terno Rei, Séculos Apaixonados, Jovem Palerosi e Nuven. As outras edições do Balaclava Fest trouxeram o Swervedriver (no Cine Joia, em maio de 2016), Mild High Club (no Clash Club, em novembro daquele ano), Slowdive, Clearance e Widowspeak (no Cine Joia, em maio de 2017) e Washed Out e Homeshake (no Tropical Butantã, em novembro do ano passado), além de uma edição em Porto Alegre (com Yuck e Tops, em novembro de 2016). Todas as edições do Balaclava Fest contaram com pelo menos duas bandas brasileiras em cada show, e não apenas bandas que pertenciam ao selo. Além dos artistas do festival, também fizeram shows do Sebadoh e do Tycho, além de levar as bandas Câmera e Terno Rei para tocar no festival espanhol Primavera em 2015.

Mas eles sabem que não conseguiriam fazer o que fazem se não fossem os pioneiros do rock independente brasileiro, como o selo carioca Midsummer Madness, que citam como referência. “Um cara que nos ajudou muito foi o [produtor mineiro Marcos] Boffa, que nos ajudou muito e deu várias consultorias, e também o [produtor sergipano] Bruno Montalvão, que já tinha uma expertise de produção, a gente não sabia como começar uma planilha”, reconhecem. Mas mesmo estando numa fase relativamente estável, sabem que não é fácil. “É mais insistência. A gente sabe que não pode deixar a bola baixar, porque senão acaba”, resume Dotta.

Os próximos planos incluem a maior edição do festival para o segundo semestre — “Já está quase toda fechada e deve ter três palcos”, adiantam —, produção de conteúdo audiovisual e a continuação da revista impressa Balaclava, projeto da terceira integrante do grupo, Heloísa Cleaver, que fez seu projeto de conclusão de curso sobre o selo e depois foi contratada para cuidar da comunicação da dupla, incluindo as redes sociais. A veia acadêmica do projeto de Helô é parente do projeto de conclusão de curso do próprio Dotta, que fez seu TCC sobre a própria Balaclava. É um projeto college, afinal...

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