por Autumn Sonnichsen
Trip #253

Em uma tarde quente em Los Angeles, vi a glória da skatista Leticia Bufoni, uma mulher jovem com seu corpo no ápice, forte, confiante

Ela é uma skatista profissional daquelas que já ganhou tudo.

Em 2011 pegou o bronze no X Games; em 2013 foi ouro em três das cinco etapas, em Foz do Iguaçu, em Barcelona e em Los Angeles. Foi eleita a melhor mulher do street skate na Copa do Mundo do Skateboarding e, em outubro passado, levantou o caneco com a primeira colocação na Liga do Skateboard de Rua (SLS).

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Aos 22 anos, Leticia Bufoni está no auge.

Seus olhos brilham quando ela fala da sua carreira. Diz que tem o melhor emprego do mundo: consegue viajar e andar de skate o dia todo, vive bem, malha e anda para cima e para baixo com a sua turma – a maioria brasileiros. Aperto um pouquinho e ela confessa: gosta de competir, mas andar na rua e filmar com amigos em picos naturais é muito mais divertido. 

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A gente fez as fotos em LA no único dia do ano que começou com uma chuva de granizo e com um frio de gelar os ossos de qualquer brasileira – especialmente uma brasileira pelada em cima do capô de um carro.

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Levei a Leticia para a casa de uma amiga em Venice Beach, a dona desse conversível branco, que apesar de ser fotogênico não funciona muito bem. O carro se chama Hannelore. Se a Leticia fosse fazer uma tatuagem para se lembrar deste ensaio, eu gostaria muito que ela escrevesse Hannelore em uma fonte romântica no antebraço. Quem sabe ela faz...

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Já fechou quase um braço inteiro e as mãos estão pingando de tanta tinta. Diz que vai deixar o outro braço mais limpo para agradar o pai. Algumas tattoos servem para cobrir as cicatrizes, outras são dedicadas a pessoas especiais, como os dois sobrinhos.

“A vida dela está escrita em sua pele: hematomas, cicatrizes e muitas tatuagens”
Autumn Sonnichsen

Na batata da perna, sua primeira tatuagem grande, um retrato do Axl Rose, vocalista do Guns N’ Roses, que ela fez aos 17 anos. “Hope” e “Fé” ela leva escrito nos dedos. SP e LA, as duas cidades que ela chama de casa, estão marcadas atrás das orelhas – Leticia cresceu na Vila Matilde, em São Paulo, onde começou a andar de skate antes dos 10 anos, e mudou-se pra Los Angeles aos 13 para começar a viver do esporte. Minha tatuagem favorita está na mão dela: “Trouble”, que ela fez com a amiga Clara Aguilar, ex-BBB, no Hard Rock Hotel em Las Vegas, depois de uma noite daquelas, que acaba com tatuagens provocantes escritas pra sempre na pele.

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Nos conhecemos no dia em que fizemos as fotos. Ela estava de muleta e com uma bota no pé esquerdo. Torceu o pé  enquanto gravava uma manobra para o canal de internet  The Berrics. Ela mal conseguia andar e sentia dor ao ficar de pé, o tornozelo parecia uma bola roxa de tão inchado. Mas ela chegou de sorriso grande, bronzeada, me olhando nos olhos. Se espreguiçou na cama, a chuva fina caindo lá fora. Me contou que estava solteira, que nem pensa em namorar, que viaja demais para ter alguém fixo. Levantou a bunda, ficou descabelada, vestiu uma cueca verde que cabia justinha no quadril dela. Vi a glória de uma mulher jovem com seu corpo no ápice, forte, confiante, no início da vida e já com tanta história. 

Quando o sol saiu, fomos para as ruas de LA, ela de muleta e shortinho, soltando o cabelo, levantando o pé machucado com o maior cuidado. Mesmo com dor, o corpo dela vibrava, o sorriso abria, a mulher está viva, pronta. Do jeito que a gente gosta.

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Créditos

Imagem principal: Autumn Sonnichsen

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