por Heitor Flumian
Trip #281

Jéssica Souza corre atrás de uma vida que faça mais sentido. Dropar uma ladeira em alta velocidade e se aproximar da natureza fazem parte da receita

A primeira coisa que Jéssica Souza, 28 anos, vê ao abrir os olhos pela manhã, e a última, antes de dormir, é uma frase: “Cansados da eterna luta por abrir um caminho pela matéria bruta, escolhemos outro caminho e nos lançamos, apressados, aos braços do infinito. Mergulhamos em nós mesmos e criamos um novo mundo”. O trecho é creditado ao naturalista norueguês Henrik Steffens no clássico O mundo de Sofia, um de seus livros preferidos, do escritor Jostein Gaarder. E ela o reescreveu na parte de baixo da prateleira de madeira que fica sobre a sua cama. “Essas palavras cabem muito em mim, no modo como vivo e, principalmente, em como me lanço em tudo o que acredito”, diz, com um sotaque que se faz ainda mais mineiro tão perto do mar.

Esses mesmos olhos, de um tom que é qualquer coisa fascinante entre o azul e o verde, muitas vezes são o primeiro contato com os hóspedes que chegam ao portão do Su Casa, guesthouse que há um ano administra junto ao companheiro de vida, Bruno Marra, 34, em uma vila rodeada de mato em Itamambuca (Ubatuba), no litoral norte de São Paulo.

Ao lado das duas suítes disponíveis, o seu cantinho é um despojado sobrado de dois andares, decorado com uma antiga máquina de escrever Remington, um violão encostado ao pé da parede, folhas com desenhos infantis e potinhos de tinta no chão. Não há televisão ou internet, mas há bastante espaço na varanda do segundo andar, ocupada por passarinhos da família saíra-de-sete-cores e pelos galhos de um limoeiro que avançam em seu ritmo. Aos montes, mesmo, além dos livros de filósofos do porte de Nietzsche e Thoreau, estão os shapes de longboard que explicam os joelhos de Jéssica, ralados em carne viva. “O momento em que estou andando de skate é de conexão muito forte com a minha essência, um sentimento de prazer total e de superação. É surreal”, conta.

Parte da sua ida para Itamambuca, porém, foi justamente para se afastar da vida de exposição que o downhill speed, sua especialidade, lhe trouxe. “Eu andava pesado, e como tinha poucas mulheres no Brasil que faziam isso, meus rolês ganhavam muita visibilidade. A real é que venho lutando com unhas e dentes para me tornar uma selvagem.”

Subindo a ladeira

Natural de Juiz de Fora, interior de Minas Gerais, Jéssica cresceu em um ambiente difícil, com um pai alcoólatra e uma mãe que mal a deixava sair de casa. Tímida na adolescência, se considerava acima do peso e odiou seu corpo por muito tempo. Até que, aos 18, ela e Bruno deram à luz Ianm, hoje com 9 anos, e as coisas mudaram. “Quando meu filho nasceu, gerei muito mais do que ele. Gerei uma mulher, uma mãe, foi um momento muito intenso. Era muito nova e até então não sabia nem quem eu era’’, lembra.

Parte do processo de autoconhecimento foi comprar uma câmera semiprofissional e registrar a galera que andava de skate em sua cidade, onde as ladeiras são bastante inclinadas. Com o tempo, começou a se aventurar nas descidas nos horários menos concorridos e logo passou de fotógrafa a fotografada.

Os posts de Facebook com suas manobras, acompanhados de textos que escrevia sobre as sensações despertadas no esporte, chegaram à Califórnia, curtidos e compartilhados por nomes que são referência nesse universo. Não demorou a ser convidada pelo canal Off para participar de uma temporada do programa Curvas e ladeiras, em 2013. Durante três meses, rodou pelos principais picos de skate do Brasil e chegou a atingir 90 km/h com seu longboard. Com a exposição, vieram os convites de lojas, propostas de reportagens em revistas e jornais e o patrocínio de uma conhecida marca paulistana de skatewear.

“Começaram a bombar minha imagem, mas me exibiam apenas como linda e loira, sentada com meu skate na mão, nunca mostrando como eu andava. Isso gerava uma cobrança muito grande de pessoas questionando se eu merecia estar ali”, lembra. “Nunca quis ser profissional ou modelo de alguém que anda bem. Sempre fiz skate por amor, ele foi meu primeiro instrumento de autovalorização e me mostrou que sou capaz de fazer algo que eu achava incrível”, diz.

Fora do eixo

Mesmo alheia à badalação midiática já há algum tempo, a mineira segue sendo procurada por marcas de skate para posar com equipamentos em suas redes sociais; e recusando convites. É que o skate voltou ao seu lugar de origem: o de não material e, sim, de “feeling’’ e intensidade, como revelam as fotos deste ensaio, feitas na praia da Almada, em Ubatuba, e em trechos da BR-101. 

“Quando era adolescente, me sentia mal por estar fora dos padrões estéticos vendidos como ideais. E, ao me tornar mãe, minha barriga se encheu de estrias, porque fiz de tudo para o Ianm nascer de parto normal; mas não consegui. Então, pensei: ‘Por que não vou ter orgulho da cicatriz que gerou meu filho?’’’, lembra Jéssica, que fez questão de ter seu corpo retratado como ele é. “É muito louco ouvir alguns comentários de homens e mulheres sobre um nojo de estrias. É apenas um corpo, não é? Ele é o que me guarda, não o que eu sou”, reflete.

Embora as rodinhas continuem sendo o seu grande tesão – ainda sonha em descer as ladeiras californianas e as da África do Sul –, esse corpinho de 1,63 metro de altura, 13 tatuagens e incontáveis ossos quebrados tem se jogado cada vez mais no surf. Não sem levar técnicas do skate com ele. “Existem alguns vícios que me atrapalham muito, como pesar no pé da frente e acreditar que é possível fazer a curva com ele, o que é totalmente errado. Já o ganho está na experiência com o equilíbrio na aceleração e com o preparo físico que o skate me deu”, explica. “É incrível poder sair da zona de conforto e me sentir uma aprendiz de novo”, diz Jéssica, como quem vê o mundo pela primeira vez.

Créditos

Imagem principal: Autumn Sonnichsen

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