por Nathalia Zaccaro

Campanha Salve a Ilha do Mel chama atenção para o impacto ambiental de um novo porto no litoral do Paraná

Só restam 7% da Mata Atlântica que um dia existiu no Brasil. Boa parte do que sobrevive está no litoral do Paraná, no trecho que engloba a Ilha do Mel, patrimônio natural e segundo ponto turístico mais visitado do estado, perdendo apenas para as Cataratas do Iguaçu. "A Ilha do Mel e a Ilha do Cardoso são portais da maior área continua de Mata Atlântica no Brasil. Guardam a riqueza ecológica da Baía de Paranaguá e são símbolo da luta e resistência pelas Unidades de Conservação no litoral brasileiro", explica Mário Mantovani, diretor de políticas públicas da Fundação SOS Mata Atlântica.

Já faz algum tempo que a região é visada para a construção de um complexo portuário privado em Pontal do Paraná, a três quilômetros da Ilha do Mel, que já é vizinha de outra zona portuária, a do Porto de Paranaguá. Desde 2015, o Terminal Portuário Porto Pontal já tem sua licença de instalação concedida pelo Ibama. Mesmo assim, as obras não saíram do papel. “O funcionamento desse empreendimento está condicionado a construção de uma nova estrada na região”, explica Maria Cecília Abbud, ambientalista e integrante do Observatório de Conservação Costeira do Paraná

A construção dessa rodovia está prevista em um projeto do governo estadual chamado Faixa de Infraestrutura, que propõe 20 quilômetros de pista dupla na região, um canal de drenagem, uma linha de transmissão de energia elétrica, um gasoduto e um ramal ferroviário. A primeira etapa da obra custaria R$ 369 milhões em recursos próprios do governo estadual.

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Em novembro do ano passado, a Faixa de Infraestrutura recebeu a primeira de uma série de licenças necessárias para sua execução e despertou a preocupação de moradores e ambientalistas. “Essa é uma área prioritária para conservação, existe ali uma biodiversidade gigantesca, com espécies endêmicas ameaçadas”, explica Maria. Na região, entre outras riquezas naturais, existe a Baía dos Golfinhos, berçário dos botos cinzas, ameaçados de extinção. Mais de 300 hectares de Mata Atlântica seriam impactados para a execução do projeto. Nessa terreno vivem há mais de 300 anos o povo da comunidade tradicional Maciel, que precisaria ser realocada.

"O estudo atestou a viabilidade ambiental da Faixa de Infraestrutura, considerando que danos ambientais serão mitigados ou compensados, mas os ganhos que virão de sua construção serão grandes e beneficiarão muito a população, o município e o próprio meio ambiente”, explica em comunicado a Secretaria de Infraestrutura e Logística do Paraná. O Porto Pontal do Paraná já anunciou a geração de 7 mil empregos diretos e indiretos. 

O conflito divide os moradores da Ilha de Mel, que se interessam pelas ofertas de desenvolvimento, mas temem as mudanças ambientais e sociais que viriam com as obras.  Uma das preocupações envolve o fluxo da pesca na Ilha, que hoje garante sobrevivência de mais de 100 famílias e possivelmente seria comprometido. “Estamos vivendo um momento muito delicado, esse ano é eleitoral e isso está interferindo para que o governo se apresse para tirar o projeto do papel, todo mundo aqui está preocupado”, explica Suzi Albino, líder comunitária e moradora da Ilha há mais de 20 anos. No site Salve a Ilha do Mel, mais de 100 mil assinaturas contrárias ao empreendimento já foram coletadas, com o apoio de mais de 20 organizações que trabalham pela conservação da biodiversidade e instituições de pesquisa. 

A vontade de ampliar a discussão em torno das obras mobilizou as artistas Gio Soifer e Raissa Fayet, que promoveram o Encosta Urgente, que entre os dias 20 e 30 de janeiro reuniu um grupo de 15 artistas em torno da causa.  “A notícia das obras chegou como uma bomba, as coisas não podem ficar mal esclarecidas como estão. Sentimos vontade de incluir mais os moradores nessa conversa”, diz Gio.

Durante o Encosta Urgente, o grafiteiro Rimón Guimarães chamou atenção para as espécies locais, como o papagaio-de-cara-roxa, endêmico da Mata Atlântica, e que foi estampado na fachada de uma biblioteca pública — no barco de um dos moradores ele lembrou dos botos cinzas, também ameaçados. Filmes, debates e performances ajudaram a acender a discussão." A chegada dos artistas foi importante como um alerta, são pessoas que têm trânsito e é importante o engajamento deles", diz Suzi. O fotógrafo Vinicius Ferreira está produzindo um documentário sobre a questão, que deve ser lançado ainda este semestre, assim como um videoclipe-protesto com a participação de mais de 40 artistas, entre os quais estão, por exemplo, as atrizes Letícia Sabatella, Guta Stresser, Maureen Miranda e Grace Gianoukas.

A campanha #Salveailhadomel segue ativa na internet e no balneário agindo para que decisões atropeladas não prejudiquem a vida e preservação da região. "O que a gente questiona é a viabilidade ambiental desses empreendimentos. Vamos tentar impedir que a Faixa de Infraestrutura avance mais e consiga novas licenças" , explica Maria. 

Créditos

Imagem principal: Eros Hobmeir/Divulgação

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