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por Luara Calvi Anic

Quando Walter Casagrande parou de jogar, foram as drogas que ocuparam o espaço da adrenalina de estar em campo. Foram três overdoses até se recuperar. Hoje, ele fala abertamente sobre a dependência

Três overdoses, um acidente de carro e uma internação compulsória. Foi ao sentir a morte cada vez mais próxima que Walter Casagrande Jr., 56 anos, se deu conta de que precisava de ajuda. Junto com essa sensação veio a necessidade urgente de recuperar o amor dos filhos e a confiança das pessoas próximas. “Para você entender e assumir que é dependente químico demora muito tempo, você fica achando que está no controle. As pessoas olham e veem uma coisa. Mas você olha no espelho e vê outra”, diz à Trip na sala de seu apartamento, de frente para uma parede cheia de pôsteres de bandas de rock. “Eu só via a parte destrutiva dos grandes ídolos da música. E queria ser igual a eles.” Hoje, sua busca é inspirar pessoas com problemas parecidos com os dele.

“Coloquei isso na minha cabeça. Se não morri até agora é porque tenho que passar essa história pra frente.”
Walter Casagrande

Casagrande cumpriu duas jornadas diferentes em sua relação com a droga, do interesse e descoberta na adolescência à busca por sanar problemas que, na verdade, só ficariam piores com as diversas substâncias que consumia. “Conheci, gostei e já usei muito. Nos anos 70, existia um glamour por trás da droga, de você ficar mais criativo, de ter uma elevação espiritual. Era parte de uma filosofia de vida”, conta, lembrando que, com o tempo, essa ideia foi ficando cada vez mais distante da realidade. “A droga começou a tapar um buraco. As pessoas que me viam sorrindo não imaginavam que eu era melancólico. Meu dia não era legal se eu não fizesse nada para acabar com essa tristeza. Acordava, usava e ia fazer as minhas coisas.”

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Na época, ele ia equilibrando duas realidades antagônicas: ser jogador de futebol profissional e dependente químico. “Tinha uma força física muito grande e mantinha essa vida paralela. Continuava jogando bem e não sentia nada.” Como atacante, Casão jogou pelo Corinthians, contemporâneo de craques como Zenon, Biro-Biro e Sócrates. Foi escalado para a Copa do Mundo de 1986 e, de lá, seguiu para o futebol europeu. De volta ao Brasil, jogou pelo Flamengo, em 1993, retornou ao Corinthians, em 1994, e, aos 33, em 1996, se aposentou jogando pelo São Francisco, da Bahia. Foi nesse momento que as drogas passaram a ser uma jogada de risco para ele.

“Entrei em uma reta destrutiva, era um vazio horrível. Quando você deixa o futebol, fica mais esquecido pelas pessoas, não sente mais aquela adrenalina, não tinha mais aquele gol, o Morumbi lotado, aquela coisa gostosa.” Como conta na biografia Casagrande e seus demônios (Globo Livros, 2013), em uma noite cheirava três carreiras de cocaína, aplicava uma dose de heroína na veia e completava tudo com um cigarro de maconha e meia garrafa de tequila. 

Descontrole

Os filhos – Symon, 26, Ugo, 30, e Victor Hugo, 33 –  e a família também sentiram essa crise. Casagrande já não conseguia ficar em casa porque vivia sob o efeito da droga. “Antes eu levava eles ao clube, íamos para o parque e fazíamos um monte de coisas, mas teve uma hora que não dava mais. As pessoas se afastam quando você fica totalmente descontrolado – meus filhos começaram a ficar distantes.” Em setembro de 2007, o desequilíbrio o levou a um acidente de carro. Foi da UTI a uma clínica de tratamento para dependentes químicos, sem saber quando poderia sair. Seu filho mais velho, Victor Hugo, assinou o termo de responsabilidade pela internação compulsória do pai. Ele passou um ano internado.

 

““Entrei em uma reta destrutiva, era um vazio horrível. Quando você deixa o futebol, não sente mais aquela adrenalina daquele gol”
Walter Casagrande

O processo foi difícil, arrastado. Por vontade própria, em 2015, passou mais sete meses na clínica para “resolver as partes que ainda não estavam resolvidas”. Durante um bom tempo, ia ao cinema ou ao teatro acompanhado de psicólogas. “Não bebi mais, nunca mais, e a coisa começou a andar. Até o momento em que eu passei a dar conta sozinho.” O ponto alto foi a Olimpíada do Rio de 2016, “o primeiro evento grande em que trabalhei sóbrio”. A meta seguinte era passar a Copa da Rússia, em 2018, limpo. “Quando chegou o final da Copa, a França ganhou, vi os caras dando a volta olímpica e veio aquela emoção! Lembrei que esse era meu objetivo.”

Casagrande encarou a sua sobrevivência como uma missão. “Coloquei isso na minha cabeça. Se não morri até agora é porque tenho que passar essa história pra frente.” Ajudar a sociedade a entender melhor o que é a dependência química e o tratamento se tornou um trabalho. Ele já palestrou para jogadores de base do Corinthians, do Santos e em breve falará para os do São Paulo. “Não é só ajudar as pessoas, é me ajudar. Tenho que ter sempre na memória o que aconteceu comigo.”

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“Para você entender e assumir que é dependente químico demora muito tempo, você fica achando que está no controle. ”
Walter Casagrande

Hoje, Casão se reaproximou dos filhos e das pessoas. Logo que saiu da clínica, seu caçula, Symon, deu um depoimento emocionado dizendo que o pai teria que reconquistar sua amizade. “Eu entendo, ele se sentiu traído pelo melhor amigo dele. Ao mesmo tempo que foi chocante ouvir isso, foi maravilhoso. Mexeu comigo para que eu continuasse na estrada da sobriedade para ter a amizade dos meus filhos, das pessoas e também a minha credibilidade de volta.”

 

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Créditos

Imagem principal: Mario Ladeira

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