por Bruna Bittencourt
Trip #279

Com uma alta dose de polêmica e um olhar sarcástico para a indústria, o jornalista americano Chas Smith escancara em livro a relação entre cocaína e surf

No banco de trás, dois surfistas profissionais, que se aproximam do fim de suas carreiras, discutem, com alguma agressão física, sobre os mais variados assuntos, enquanto Chas Smith tenta dirigir. Quando chegam a um hotel em Huntington Beach (Califórnia), um deles tira um pó branco do bolso, enrola uma nota de dólar, alinha três carreiras, que divide com o amigo, e agradece ao jornalista pela carona.

A passagem acima resume a abertura de Cocaine + Surfing – A Sordid History of Surfing’s Greatest Love Affair (Cocaína + Surf – Uma sórdida história do maior caso de amor do surf, em tradução livre), lançado em junho deste ano, nos Estados Unidos, com prefácio de Matt Warshaw, ex-editor da Surfer e autor da Enciclopédia do Surf. Como o título adianta, Smith defende no livro uma intensa relação entre o surf e a droga, apesar da tão propalada ligação dos surfistas com a maconha e em contraponto à imagem “limpa” de Kelly Slater e Laird Hamilton, entre tantos outros protagonistas do esporte. “O surf e todas as drogas têm uma história rica, mas acredito firmemente que a cocaína tem a mais forte delas”, afirma à Trip o autor.

Descrito como “encrenqueiro profissional” pela Surfer, “brilhante e hiperirônico” pela Enciclopédia do Surf, Smith foi editor-contribuinte da extinta revista Surfing e é cofundadador do site BeachGrit, que trata o surf com um humor bastante ácido. Antes, foi correspondente no Iêmen, Líbano, Somália, Azerbaijão e Colômbia e acabou sequestrado pelo Hezbollah, em 2006, durante a guerra entre Israel e Líbano.

Não é a primeira vez que o americano escreve um livro provocativo: em 2014, lançou Welcome to Paradise, Now Go to Hell – A True Story of Violence, Corruption and the Soul of Surfing (Bem-vindo ao paraíso, agora vá para o inferno – Uma verdadeira história de violência, corrupção e da alma do surf, em tradução livre), em que faz um relato sobre a costa norte de Oahu (Havaí) durante os meses do inverno, quando a região recebe uma horda de surfistas atrás de suas ondas perfeitas e poderosas, “um lugar sobre o qual ninguém da indústria realmente fala porque é violento”, escreveu. É nessa época que acontecem as competições da Tríplice Coroa Havaiana (que inclui o Pipe Masters, etapa final do circuito mundial masculino). “O fato de as pessoas terem gostado do livro me chocou. E o mesmo aconteceu com Cocaine + Surfing”, diz. Chas conta que os surfistas receberam “surpreendentemente bem” a nova publicação.

Já o bicampeão mundial do WQS, Teco Padaratz, 47 anos, discorda em “gênero, número e grau” da tese de Smith. “A relação do surf com as drogas é nenhuma. Nada a mais do que seria no futebol, no tênis ou na Fórmula 1. Muita gente insistiu nessa ligação por muitos anos. Tive que responder a essa pergunta muitas vezes, em vez de contar sobre como fiz para ser campeão mundial. Foram casos totalmente isolados, acho lamentável que ainda façam essa relação.” O veterano Picuruta Salazar, 58 anos, não vê da mesma forma: “Acho que a cocaína e as drogas sempre estiveram ligadas ao surf. Essa relação existe há anos, vem desde as competições no Rio, o Waimea 5.000, nos anos 80, quando os americanos, australianos vinham correr o campeonato aqui, mas muito mais para cheirar e fazer festa do que pra surfar, tanto que os melhores resultados eram dos brasileiros”, lembra. “Mas já mudou bastante. A partir da década de 90, [o consumo] começou a diminuir muito, não vejo nenhum nome desta nova geração sendo como alguns surfistas do passado. Temos hoje um número maior de campeões preferindo levar uma vida mais saudável do que na night.” Primeiro brasileiro campeão mundial amador, Fabio Gouveia, 49, divide a mesma opinião: “Essa relação [entre o surf e as drogas] faz parte da cultura, mas o surf caminha para o profissionalismo e isso tende cada vez mais a se dissipar”.

Boa onda

Escrevendo em primeira pessoa, com uma dose de autoironia e um olhar sarcástico para a indústria, Chas fez da pesquisa sobre a relação entre surf e cocaína sua narrativa, mesclando suas incursões neste universo – festas, eventos, competições – à ideia que defende.

O livro ganhou forma quando ele se deu conta de uma coincidência: segundo teorias difundidas, tanto o surf quanto a folha de coca têm origem no Peru. A sacada aconteceu quando Chas visitou o Museu Internacional do Surf, em Huntington Beach, que remonta o nascimento do esporte ao país andino, em 3000 a.C. Ainda que a cocaína só tenha sido sintetizada séculos depois, a casualidade serviu para que a tese e a narrativa de Cocaine + Surfing deslanchassem.

A partir daí, ele relembra episódios como o tráfico por parte de alguns surfistas para sustentar a vida de freesurfer, a resistência aos testes antidrogas, a expansão de uma importante marca de surf a partir do dinheiro oriundo da cocaína, o vício na droga e em metanfetamina e a superação do bicampeão mundial Tom Carroll, além da morte do tricampeão mundial Andy Irons, em 2010, vítima de um infarto somado a uma combinação de drogas (que incluía cocaína), segundo autópsia. 

Na época, o patrocinador de Irons chegou a afirmar que sua morte havia sido causada pela dengue. “Houve casos semelhantes a essa tentativa de encobrimento dos reais motivos da morte de Andy nos últimos anos, mas ninguém quer falar sobre eles. De certa forma, entendo. As pessoas não leem sites ou revistas de surf para um jornalismo investigativo contundente, mas porque são escapistas. Eles são um ótimo oásis para a loucura do mundo. Mas simplesmente não entendo e nunca entendi porque não podemos ser honestos. Acredito que há uma maneira de contar histórias verdadeiras, honestas e reais sem sacrificar as pessoas”, opina Chas.

O autor ainda vê a presença de drogas no circuito profissional. “Todo mundo ainda gosta de usar. Mas os brasileiros, pelo menos os melhores, têm uma visão diferente. De fora, parece que para eles o campeonato é menos uma festa ambulante e mais um estado honesto de competição”, conta.

O big rider Carlos Burle, 51, opina: “Minha impressão é que a droga realmente não tem espaço no ambiente profissional. Ela só consegue se desenvolver neste cenário quando a pessoa está enfrentando algum distúrbio. Senão, entra só em momentos de relaxamento”, diz. “Tem gente que aguenta, que bebe e cheira pra caramba. Mas essas pessoas não duram muito, têm um tempo limitado de performance, talvez tenha sido o caso do Andy Irons”, completa. “A cocaína não faz parte do surf ou do esporte de alto rendimento em que você precisa usar tanto a parte física quanto a mental. Seria um passo para o abismo”, comenta Rodrigo Coxa, 39, dono do recorde da maior onda já surfada.

O big rider chama a atenção para a visibilidade que os surfistas têm hoje: “Se um nome importante usar alguma droga, não vai demorar para se falar sobre isso porque tudo é muito dinâmico. Anos atrás, era possível esconder”, diz. “Minha droga é esse prazer de sair em um dia de onda grande e falar ‘amanhã tem mais’. Sou viciado nessa adrenalina.” 

Entre o sucesso e a dor

Na primeira vez que disputou o campeonato mundial de surf, em 1998, aos 20 anos, Andy Irons fez questão de levar seus amigos havaianos para a Austrália para assistirem a sua estreia. Depois da prova, sumiu e, quando reapareceu na casa onde todos se hospedavam, fechou todas as cortinas e disse que “eles” estavam lá fora. Era um dos primeiros sinais do transtorno bipolar do qual Irons sofria, como mostra Kissed by God.

O documentário, que estreou em maio nos cinemas americanos e está disponível nas plataformas digitais no Brasil, relembra a ascensão do tricampeão mundial de surf (2002, 2003 e 2004) e mostra sua nem tão conhecida batalha contra o transtorno bipolar e as drogas, que provocaram sua morte em 2010, aos 32 anos.

O filme relembra o talento precoce de Andy e seu irmão mais novo, o hoje freesurfer Bruce Irons, na ilha havaiana de Kauai (Havaí), onde cresceram e foram descobertos ainda adolescentes por patrocinadores. Bruce evoca a rivalidade que sempre teve com o irmão, dono de um temperamento imprevisível. Anos depois, Andy transferiu esse antagonismo para Kelly Slater, uma competição explorada pela mídia.

Fora do mar, Andy surfava em águas bem mais turbulentas. No filme, seu transtorno bipolar é contextualizado por especialistas. Mas ele também sucumbia ao vício em opioides. Sofreu uma overdose na Indonésia, onde chegou a ser considerado morto por alguns minutos, 
e venceu etapas sob o efeito de drogas.

Sua mulher, Lyndie Irons, conta como eles escolheram a Austrália, onde estavam alguns amigos próximos, como o tricampeão mundial Mick Fanning, e “onde as pílulas ainda não haviam chegado”, para um ano sabático, em 2009.

De volta às competições um ano depois, Andy retornou às drogas. Desistiu da etapa de Porto Rico e, em vez de disputar sua bateria, pegou um avião. Quando chegou a Dallas, numa escala para o Havaí (seu destino final), deixou o voo, onde passou mal, em uma cadeira de rodas. Do hotel, ligou para o irmão e para a mulher, grávida de oito meses. Disse que sentia muito e que estava voltando para casa. Não conseguiu: foi vítima de um infarto somado a uma combinação de drogas, segundo autópsia.

Dirigido por Steve e Todd Jones (que preferiram bancar o filme com financiamento coletivo para evitar influências da indústria do surf), Kissed by God faz um retrato honesto e humano de Andy, suas virtudes e fraquezas, que não deveria interessar só aos fãs de surf.

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