por Paulo Cezar Soares

Ele queria ser banqueiro do jogo de bicho e ficar rico. Mas não realizou seu sonho. Foi assassinado a tiros ao estacionar seu carro numa rua do centro do Rio.

A vida do ex-policial Mariel Araújo Mariscot de Matos (1940-1981) que marcou época na crônica policial carioca vai virar filme. A frente do projeto, está o cineasta Mauro Lima, autor de Meu Nome Não é Johnny, que além de dirigir, também vai assinar o roteiro. “O  projeto não nasceu comigo. Fui procurado pelo Breno Weiner da Downtown Filmes, que por sua vez tinha sido procurado pelo Rodrigo Brandão, filho de Mariel”, revela (Rodrigo, músico e produtor, é fruto de um romance da ex-atriz Darlene Glória com Mariel).

Há algum tempo, chegou a circular o boato de que Cauã Reymond estava cotado para o papel. “Essa notícia, não sei de onde veio. Ainda não tenho o ator certo e nem havia sondado o Cauã, nem ninguém. Estranhei quando li”, assegura Mauro Lima, um apreciador de histórias e romances policiais. “ Gosto bastante, mas não sou um aficcionado. O que me atrai são as histórias reais e que têm uma importância histórica. Esta, no caso, é muito emblemática e pode ser entendida como o útero de muito do que se vê hoje em dia do crime organizado e na maneira como a sociedade enxerga a segurança pública. Muitos enxergam, infelizmente, apesar do país ter regime democrático, por um viés autoritário, violento. São condescendentes com a violência policial que se institucionalizou no período da ditadura militar como forma de combate à violência. 

“Polícia e bandido são como água e azeite. Não podem se misturar." 

Mariel Mariscott foi forjado neste ambiente. De temperamento afoito e determinado, foi paraquedista, leão de chácara nos inferninhos de Copacabana, Zona Sul do Rio, e lutador de luta livre. Com esse perfil, nada mais natural que seguisse a carreira de policial. Ingressou na polícia por concurso público em 1963. Escolhido para ser um dos Homens de Ouro da polícia carioca, grupo de elite criado em 1969 pela Secretaria de Segurança, comandada pelo general Luiz França de Oliveira. No ano seguinte foi criada a Scuderia Le Cocq, homenagem ao policial Le Cocq, morto em 1964 durante um tiroteio envolvendo policiais e membros da quadrilha do assaltante Manoel Moreira, o Cara de Cavalo que, caçado pela polícia, foi morto na cidade de Cabo Frio, município do Estado do Rio de Janeiro. 

De tanto matar, provocou processos que geraram condenações. O policial matador viu-se transformado em policial foragido.

Amante da boemia, homem de várias mulheres, Mariel jamais entendeu a função social da sua profissão. Enveredou pelo caminho do crime e acabou expulso da polícia. Foi preso e fugiu do Instituto Penal Candido Mendes na Ilha Grande. Foi parar até em outros países. Entre idas e vindas, acabou ganhando o benefício de preso albergado por bom comportamento e passou a prestar serviços burocráticos na Vara de Execuções Penais, sob a responsabilidade do juiz Francisco Horta, que ganhou notoriedade como presidente do Fluminense. Entre outras coisas, foi acusado de fazer parte de uma quadrilha de roubo de automóveis, comandada pela família de Lúcio Flávio Vilar Lírio, cuja vida virou filme - Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia - de Hector Babenco, baseado no livro do jornalista, escritor e roteirista José Louzeiro. “Lúcio Flávio Vilar Lírio foi um lendário ladrão de bancos. Quando seu bando assaltava, por “coincidência” não havia patrulhamento algum na área. Ele foi sábio ao filosofar: “Polícia e bandido são como água e azeite. Não podem se misturar”. Lúcio não seguiu seu próprio conselho: morreu apunhalado na prisão. Mariel fez de conta que não entendeu: morreu fuzilado na rua. Os dois eram bem ligados. Mariel chegou a ser chamado de “missionário do general França”, então secretário da Segurança no Rio, pelo jornalista David Nasser. Depois, foi eleito como o um dos “dez homens de ouro” da Polícia. Pertencia a um esquadrão da morte. De tanto matar, provocou processos que geraram condenações. O policial matador viu-se transformado em policial foragido. Conseguiu localizá-lo no Paraguai, entrevistando-o para o extinto Jornal da Tarde paulista, conta o jornalista Percival de Souza, um dos melhores repórteres de polícia do país. “A entrevista foi uma verdadeira bomba. Quando terminei, Mariel Mariscott de Matos levou-me até o aeroporto de Assunção. Despediu-se de mim calorosamente: “Se precisar de mim, já sabe qual é a minha especialidade”. Agradeci, sensibilizado. Mas nunca mais nos vimos ou falamos” - frisa Percival, que trabalha na TV Record.

 Entrevista para o semanário Pasquim

Na opinião do experiente comissário de polícia Daniel Gomes, com passagens por diversas delegacias do Rio de Janeiro, Mariel se destacou muito no combate ao crime, fato que lhe rendeu participação na galeria do grupo dos “Doze Homens de Ouro”. Daniel lembra que Mariel tinha fama de “Ringo de Copacabana”, pois armado com uma pistola calibre 45, agia como um xerife naquele bairro, construindo sua trajetória na prisão de bandidos famosos, acabando por se envolver no chamado “Esquadrão da Morte”. “Foi preso e expulso da polícia na década de 70 e posteriormente contratado pela contravenção que procurava um homem de punho forte para moralizar o jogo do bicho. Porém, Mariel, com sua liderança e violência, passou a assustar o capo, que vendo um risco iminente na perda da liderança, contratou um pistoleiro em 1981, para matá-lo, quando estacionava seu carro para uma reunião com bicheiros no centro do Rio de Janeiro”, ressalta Daniel que, além de policial há 29 anos, é também advogado e escritor (Veja lista de crimes esclarecidos por Daniel Gomes).

O sonho de Mariel de ser um banqueiro do jogo do bicho e ficar rico - como declarou numa entrevista para o saudoso semanário Pasquim - acabou de forma trágica em 8 outubro de 1981. Um crime jamais esclarecido. Seu enterro, no cemitério do Caju, Zona Norte do Rio, além do comparecimento de grande número de policiais, teve até salva de tiros.  

O fotógrafo Alcyr Cavalcanti, com passagens por várias redações, cobriu o fato. “Mariel foi uma figura emblemática e uma lenda na história da criminalidade no Rio  de Janeiro. O sepultamento foi um acontecimento na cidade. Mariel era muito querido e temido. A bandeira da “Escuderia Le Coq” foi hasteada durante a cerimônia fúnebre e salvas de tiros prestaram a última homenagem ao herói. Para companheiros de Mariel “foi a morte de um herói de maneira torpe. Não teriam coragem de enfrentá-lo de peito aberto” - relembra Alcyr, que tem mestrado em Antropologia, trabalha como free lancer e dá aulas na Sociedade Fluminense de Fotografia, e na pós graduação da Candido Mendes

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