por André Conti
Trip #242

A modelo Flúvia Lacerda é muito mais do que a ”Gisele Bündchen do plus size”. No ensaio a seguir, ela tira a roupa e provoca: ”É hora de assumir nossos biótipos”

Não é a primeira vez que Flúvia Lacerda, 34 anos, conta a história. Ela está num ônibus em Nova York, ouvindo música. Trabalha como babá, depois de passar por todos os bicos típicos de uma jovem que tenta se estabelecer em outro país. Sente que é encarada por outra mulher e fica sem graça. A mulher se aproxima e oferece um cartão: acho que você leva jeito para modelo, venha fazer um teste.

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Foi-se um mês até que ela resolvesse aceitar o conselho. Embora ela diga que não imaginasse um dia seguir carreira na moda, é fácil entender o convite. Seja andando de ônibus, posando para uma campanha ou entrando num café numa quarta-feira chuvosa de São Paulo, Flúvia tem uma presença que nada indica alguém submetida aos rigores emocionais da ditadura do corpo. Não é que ela seja diferente de outras mulheres "acima do peso". Ela apenas não reconhece esse peso específico sobre o qual nossas balanças se equilibram para cima e para baixo.

Por isso, fica irritada quando um fotógrafo tenta disfarçar seu corpo: "Você vai ver as fotos e está de roupa preta num fundo preto, com um pouco de perna e braço à mostra. Cadê minha cintura? Cadê meu quadril?". Por um lado, isso vem da experiência de quase 15 anos trabalhando como modelo profissional. Nos últimos anos, e após sucessivas crises, as marcas perceberam no plus size uma forma de ampliar seus mercados, com as grandes redes passando a oferecer tamanhos maiores para os clientes e contratando modelos para vender essas roupas.

Ainda assim, considera incrível quando, por conta de alguma foto postada no Instagram ou no Facebook, uma das milhares de seguidoras diz que passou a se sentir bem de biquíni ou com um vestido curto.

Acha que o mundo está passando por uma revolução e que é preciso empoderar as mulheres, combater a gordofobia e defender o feminismo. Vê no termo plus size uma forma de levantar a autoestima das garotas, mesmo que ela própria não se incomode em dizer que é gorda. Deixando sempre claro que jamais sobe na balança e que sua escala de beleza só depende de como ela está se sentindo (que ela seja uma das mais famosas e requisitadas modelos plus size do mundo explica muita coisa).

Mercado preconceituoso
Há pouco mais de um ano, Flúvia perdeu o marido, o advogado Wallace Andrade de Araújo. Wallace foi o primeiro amor da vida dela, e o primeiro beijo. Os dois cresceram em Boa Vista, Roraima, onde ele a ensinou a caçar e a pescar.

Depois, Flúvia se mudou com a mãe para Natal, e de lá para os Estados Unidos, e eles passaram 11 anos sem se ver. Ela narra o reencontro dos dois com entusiasmo, e fala da saudade que continua sentindo. O filho Pedro, de quem ela estava grávida quando Wallace morreu, hoje tem 1 ano, e ela mora no Brooklyn com ele e com Lua, sua filha de 14 anos, de um relacionamento anterior. Tenta superar o luto com o trabalho, a família e os amigos. Sua pequena equipe cuida da agenda – pelo menos uma sessão por semana, viagens pelo mundo inteiro, editoriais nas grandes revistas de moda – e ela aproveita para andar de bicicleta e visitar a mãe, que mora no bairro.

Acabou de fotografar para a Vogue italiana e de estrelar uma campanha da rede Marisa. O trabalho no Brasil é um passo grande em um mercado que ela ainda considera preconceituoso. Reclama que poucas lojas trabalham com números maiores e que as peças são despadronizadas: uma garota que mede 46 de repente não cabe em um jeans 46 de uma determinada loja e passa a achar que subiu de tamanho.

Seu trabalho como modelo, acredita, é mostrar como todas as roupas podem e devem cair bem, e que já é hora de largarmos a hipocrisia e assumir nossos biótipos. Não que ela ache ruim ser conhecida como a "Gisele Bündchen do plus size". Apenas gosta de imaginar que, num futuro próximo, ela terá aberto caminho a outras modelos plus size e que, principalmente, elas serão chamadas apenas de modelo.

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