SURF, SOL E SANGUE
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Cena 1:
Época e ambientação – Segunda metade da década de 70. Surfar ainda era uma espécie de manifesto, uma atitude no sentido de experimentar um tipo de vida diferente do que era planejado para a moçada da época. Independência, contato com o corpo, desenvolvimento físico, contato com o sexo oposto, descoberta de lugares fantásticos muito pouco conhecidos e explorados pela massa consumidora, viagens para praias, cidades, Estados, culturas e países diferentes. Resumindo, uma alternativa muito atraente ao modelo ‘escola, clube, cinema, televisão, shoppings’.
Cenário – Itamambuca, ainda extremamente distante, um verdadeiro surfari, como se dizia na época, estradas de terra, polícia rodoviária dando geral em todo mundo, mata atlântica agressiva debruçada sobre o pico, águas doces do rio batendo de frente com as ondas no canto direito. Areia branca e fofa pegando fogo com o calor do sol de verão. Brasílias, Fuscas e alguns poucos Fiats 147 todos com racks Pinguim ou Weekend de metal. Pranchas mono e bi-quilha de marcas como Acqua, Rico, Lightning Bolt e Squalo espetadas na areia faziam as únicas sombras na faixa que separava a mata da água. Cabelos descoloridos por suco de limão. Calções de popeline e cintura baixa. Biquinis de lacinho e modelagem estranha.
Tatuagens de dragão e águia marcando seis em cada dez braços que remavam na água.
Ação – umas vinte e cinco cabeças no pico. Silêncio. Clima tenso. Ninguém se sente muito à vontade. Um pico famoso pelo localismo quebrando clássico com um metro e meio nas rampas de água abrindo para a direita.
No meio do silêncio, apenas alguns pios de pássaros e o barulho de água se movimentando tensa e viva. De repente, alguns gritos são ouvidos bem ao longe. Viro meu pescoço e vejo um vulto se alongando e amarrando a cordinha. Os gritos iam aumentando de volume enquanto as veias saltavam por todo corpo.
Na época, com menos informação sobre alimentação e preparação física, era menos frequente ver gente com massa corporal avantajada e com baixíssimo coeficiente de gordura.
Conforme aquele animal sarado entrava na água, via-se a musculatura definida fazendo mover a tatuagem do dragão empurrada por tríceps e bíceps. Cabeleira descolorida como era de praxe e pele castigada pela terrível S.S., sal e sol sem dó sobre a epiderme.
A cada braçada de remada, o volume dos gritos aumentava. ‘Vamo saindo de perto, seus bostas. Não quero ver ninguém perto de mim. Se entrar na minha onda vai entrar na porrada…’ Silêncio em volta. Todo mundo com cara de não é comigo. Aos poucos, vão todos saindo de fininho. A lenda da malvadeza ubatubana Arthur Scatena Junior era o protagonista de mais uma manhã de surf em ‘seu’ pico.
Cena 2:
Época e ambientação: cerca de 1987. Itamambuca cheia de carros para mais um campeonato. O SUNDEK atraía bastante gente. Os carros já eram outros. Passats, Escorts, Ipanemas, Paratis, pranchas triquilhas, tatuagens mais elaboradas, calções com materiais modernos, palanque bem estruturado. Fotógrafos na praia. Área reservada para os carros da organização cercada por cordas, bem atrás do palanque do campeonato. Repórteres e fotógrafos do Rio, do Sul e de São Paulo usam seus carros como pequenos armários para guardar equipamentos, roupas etc… Vai e vem constante na área.
Ação – Um sujeito grande, gordo barrigudo, suado, de calção adidas como aqueles que dão para os índios na hora de pacificá-los. O elemento vem meio cambaleante, a feição desfigurada. Pára diante de cada um dos carros estacionados, olha fixamente para as portas e desfere um chute com a sola do calcanhar, daqueles que na capoeira chamam de benção. O resultado é um afundamento brutal na lataria dos veículos. Um por um, os carros são golpeados pelo ostrogodo sem dó. Assim, ele prossegue com sua bolsa de couro a tiracolo, trespassada sobre o peito oleoso.
Nesse momento, estou pegando filmes no porta-malas do meu Passat azul comprado com o dinheirinho suado do trabalho. O animal vem na minha direção, sem perdoar a Parati branca estacionada na vaga bem ao lado da minha. Por algum motivo, em vez da porta, acerta o capô. A tampa cede diante do impacto do murro. Adrenalina. O que fazer? O débil mental caminha na minha direção. Tento argumentar e ganhar sua simpatia. ‘Será que não dá pra liberar o meu? Acabei de comprar…’ A resposta vem seca e grossa. É desses que eu gosto. Carro de playboy fortinho. O sujeito arma um chute na direção da porta do Passat. Meio no reflexo, acerto um direto na região entre o nariz e o lábio superior daqueles bem encaixados. O pitecantropus recua uns dois metros e cai de costas no chão, meio sem entender o que acontecia. Minha cabeça tomada por adrenalina e medo tenta organizar as idéias. O que fazer? O cara vai levantar. Está doidão, é bem maior que eu e agora pra piorar está com ódio.
De repente, sem mais nem menos, sinto um braço forte me pegando pela cintura, me virando de lado e saindo correndo comigo, como se meu corpo de setenta e tantos quilos fosse uma prancha levinha.
O cara me arremessa para baixo do palanque do campeonato. Só tenho tempo de dizer ‘Qualé, Arthur’. Resposta: ‘Cala a boca e fica aí. Não sai daí enquanto eu não mandar’. Ninguém em sã consciência desobedece uma ordem do tenente Scatena no quartel general de Itamambuca.
Fiquei por ali por longos e frios vinte minutos sem saber o que estava acontecendo.
De repente, vejo chegando as batatas das pernas musculosas e cheias de veias que só podiam ter um dono. ‘Muleque, você é louco. O cara que você derrubou é cana. Cheirou a noite inteira, tá doidaço. Naquela bolsa de couro dele tem uma sete meia cinco carregada. O cara ia te matar…’
Vinte e tantos anos dando e levando porrada, vivendo coisas boas e ruins, mas sempre leal aos camaradas e procurando aquilo que seu coração mandava, o ex-motoqueiro cabuloso, ex-black trunk medonho, terror do Objetivo, professor de Educação Física, segurança de campeonatos, competidor de longboard etc… etc… cativou centenas de amigos e ganhou o carinho de meio mundo. Uma espécie de Charlie Chaplin com corpo de Charles Bronson, para quem vida e surf são sinônimos, tem de encarar a onda mais pesada da vida, uma briga dura, mas que dá pra encarar. Só que dessa vez, vai ter que chamar a galera pra ajudar.
O velho Tenente Scatena, o cara que me salvou a pele e que ajudou a fazer do surf o que ele é hoje no Brasil, está com um tipo grave de diabetes.
Tem que fazer hemodiálise três vezes por semana e precisa de um transplante de rim urgente. Como professor e surfista, suas duas profissões não são exatamente fontes de renda milionárias. Scatena precisa de ajuda.
Deposite o que puder na conta nº. 01-000784-5 do Banco Banespa, agência 502.
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