por Ricardo Guimarães
Trip #278

Falamos da chuva e dos ventos provocados pelo furacão Florence, de como cresceram os cogumelos

Caro Paulo,

Para falar de utopia é preciso acreditar, seja qual for a compreensão que se tem dela. Se não acredita, pode acontecer sem você perceber. Sim, Paulo, estou mudando minha compreensão de utopia.

A nova Sociedade do Conhecimento intangibilizou a utopia. Atualmente, tudo muda tanto e tão profundamente que nenhum lugar se estabiliza o suficiente para materializá-la. Ninguém mais tem uma ideia pela qual vale a pena esperar a vida toda – mesmo lutando por ela –, exceto fanáticos de ideologias e religiões. A certeza de um futuro muito incerto descredibiliza qualquer chance de ver uma utopia se realizar.

Isso talvez seja bom. Esse desencanto com o longo prazo pode gerar pessoas mais exigentes e ambiciosas com o curto. E é aí que a utopia acontece de maneira surpreendente. São aqueles momentos em que tudo parece perfeito, tão perfeito que nem passou por sua imaginação e, portanto, não podia ser objeto de desejo.

Simples assim
É uma surpresa, mas também é resultado de muitas ações e decisões que se somaram até aquele momento. Por exemplo: quando eu tinha 20 anos, 70 era o meu longo prazo. Os 70 chegaram, virou curto e motivo de uma experiência que chamo de utópica, algo que nunca imaginei de tão perfeito: a comemoração do meu aniversário, da qual você fez parte.

Dólar a R$ 4,20, muita viagem, muito trabalho, combinei com a Lili que não teríamos nada de especial. Seria um jantar simples na casa do Tiago, com filhos e netos, menos a Leca, é claro, que estaria encerrando o Lollapalooza de Berlim e voando de volta para casa, em Austin, no Texas (EUA).

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Vida que segue, chega o dia do aniversário. De manhã, a Leca me liga para dar os parabéns dizendo que estava chegando em Austin, exausta. Falamos da chuva e dos ventos provocados pelo furacão Florence, de como cresceram os cogumelos do seu jardim e nos prometemos um FaceTime quando a família estivesse reunida.

Chegamos na casa do Ti e os netos já estavam superanimados e agitados, como sempre. No meio da sala, havia um presente surpresa dentro de uma caixa onde podia caber um belo vaso de planta. Percebi que as crianças estavam disfarçando algo que podia ser um teatrinho para enfeitar a noite. Em 20 minutos, todos chegaram. Aí começou a brincadeira de abrir o presente surpresa do vovô: tirei o laço, abri as fitas adesivas e, quando abri a tampa, a Leca saltou lá de dentro como um boneco de mola. Eu não acreditava no que estava vendo. Levei um tempo para realizar e fiquei feliz de ter a Leca nos meus braços e os quatro filhos juntos no meu aniversário de 70.

Passo seguinte, me sentaram com Lili no sofá, rodeados pelos netos, para assistir a um vídeo. Eram 89 depoimentos de familiares, amigos e amigas importantes em minha vida. Você sabe do que estou falando porque sua amizade e carinho estavam lá. Foi uma hora e meia de surpresa, emoção e gratidão, algo que nunca imaginei que pudesse acontecer na minha vida. As pessoas contavam histórias, confessavam sentimentos, muito riso, muito choro e a cara de satisfação dos filhos e da Lili, que tramaram tudo aquilo sem eu desconfiar de absolutamente nada.

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Foi uma noite de gala cheia de amor e surpresa. Em muitos depoimentos, eu não me reconhecia, porque falavam do significado que tive na vida daquelas pessoas e eu não tinha noção. Claro que, se fizessem uma seleção para falar mal de mim, o vídeo teria três horas, não me iludo. Aquilo foi só um corte generoso dos meus queridos.

No fim da noite, estava exausto, como se tivesse levado uma surra de amor, com o Tunico dormindo de um lado e a Tete do outro. Não acreditava que tinha vivido aquela noite extraordinária. Era um momento utópico de tão perfeito. Percebi a beleza e a grandeza daquele momento porque eu acredito em utopia. E acredito que ela não se constrói no futuro, mas no dia a dia.

Eu sei porque vivi. 

Fica com o abraço emocionado do amigo grato,

Ricardo

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