por Redação
Trip #278

Selecionamos as imagens, ideias, reportagens e personagens que refletem a nossa visão sobre o essencial da liberdade

Neste ano, em que celebramos o 32º aniversário da Trip, decidimos selecionar imagens, ideias, reportagens e personagens que, ao longo dessas décadas, traduzem com graça nossos temas de interesse e nos ajudam a clarear o olhar da revista para o mundo.

São 12 os pilares que fundamentam nosso projeto editorial: Corpo, Alimentação, Trabalho, Sono, Teto, Saber, Liberdade, Biosfera, Conexão, Diversidade, Acolhimento e Desprendimento. Foi um mergulho prazeroso e profundo em nossa história.

Todo este conteúdo foi acrescido de informações e novas entrevistas com personagens que protagonizaram passagens importantes da trajetória da Trip. Seguimos sempre em frente.

2011

#199 | Tema: Controle

Atacante

Por Lino Bocchini, de Norfolk | Fotos de Eliza Capai

Julian Assange é o homem mais vigiado do mundo, mas a Trip furou o cerco e entrou na casa onde ele está preso [à época, ele usava uma tornozeleira eletrônica] na Inglaterra, para revelar sua rotina, suas ideias, na primeira vez que falou, em pessoa, à imprensa do Brasil. Sem cerimônia, Assange nos busca na estação de trem. Desce do carro sorrindo, apresenta-se, pergunta se fizemos boa viagem. A cena não combina com a aura de mistério que envolve o australiano que fundou o WikiLeaks e virou o inimigo público número 1 dos EUA.

A plataforma existe desde 2006 e chegou ao ápice em 2010, quando iniciou a divulgação de mais de 250 mil telegramas diplomáticos que expuseram como a maior potência mundial enxerga e interage com todos os governos do mundo. “Defendemos um conceito simples: a verdade”, explica. Mas essa transparência muda se o assunto é o WikiLeaks: “Transparência é para os governos, para as grandes organizações. Privacidade é para os indivíduos”.

E agora?

Assange está asilado na embaixada do Equador, em Londres, desde 2012, quando se refugiou para evitar a extradição para a Suécia, onde era acusado de crimes sexuais, caso já arquivado. Hoje, seu receio é sair de lá e ser detido pela polícia inglesa por conta de uma violação de condicional de 2012 e ser extraditado para os EUA por conta dos vazamentos de documentos confidenciais.

No mês passado, o WikiLeaks anunciou via Twitter que ele deixará o cargo de editor chefe do site, mas continuará publicando seus textos. O afastamento se deu por Assange estar hoje sem internet e incomunicável na embaixada equatoriana. O novo editor é o islandês Kristinn Hrafnsson.

2015

#246 | Tema: Prisão

Caixa de ódio

Por Bruno Paes Manso

Munir o criminoso em defesa da sociedade e do bem comum. É para isso que as prisões são feitas, com a civilização dando um passo adiante em relação às punições via tortura e morte dos tempos medievais. Mas basta olhar as celas superlotadas para perceber que as prisões continuam dignas da idade das trevas. Existem 607.731 presos no Brasil para um total de 376.669 vagas. O tráfico é o crime que mais aprisiona no país; 63% das mulheres e 25% dos homens foram detidos por esse crime.

Dentro dos presídios, as rebeliões se espalharam por todo o território nacional, produzindo cenas de barbárie. Em dezembro de 2013, três detentos tiveram as cabeças decepadas no Presídio de Pedrinhas, relembrando as cenas macabras protagonizadas pelo PCC em 2005, em São Paulo, quando cinco cabeças foram cortadas e uma delas usada como bola de futebol.

E agora?

Segundo os dados de 2016 do Infopen (Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias), existem 726.712 presos no Brasil para um total de 368.049 vagas; deste total, 62% das mulheres e 26% dos homens estão detidos por tráfico. Já as rebeliões, coordenadas, tiveram cada vez mais destaque no noticiário. O livro A Guerra – A ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil, de Bruno Paes Manso e Camila Nunes Dias, narra a maior e a mais mortal sequência de assassinatos em massa da história do sistema carcerário, do Brasil e do mundo, no dia 16 de outubro de 2016, na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo, em Roraima. “Dez pessoas foram assassinadas [...] Eles foram decapitados e tiveram o corpo jogado em colchões em chamas, num ritual que viraria padrão nos conflitos.”

2013

#218 | Tema: Existe vida com segurança?

Conexão morro asfalto

Por Arthur Guimarães | Fotos de Thelma Vilas Boas

Quatro anos depois [2013] da primeira favela pacificada, as comunidades cariocas são descobertas por turistas, atores, cinéfilos, publicitários. Uma maré sem data para secar varre as comunidades, impulsionada pela força policial dentro do projeto de Unidades de Polícia Pacificadora (UPP). O maior estandarte desse processo é o chamado teleférico do Complexo do Alemão, antigo QG do Comando Vermelho. É um marco porque foi a primeira obra de infraestrutura que o governo fez chegar até o povo carente. Por R$ 1, qualquer cidadão circula por cima de 13 favelas, meio de transporte fundamental para ajudar moradores e interessados a chegar de forma menos insalubre aos becos, antes acessíveis somente após longas e suadas caminhadas.

Coordenador da ONG O Rio Pede Paz, Cacau de Brito acredita que as UPPs não são a cura para os problemas, mas um grande começo. “É porque o problema dos morros não se resume às questões de segurança pública. Tudo melhorou, mas ainda falta emprego, saneamento, muita coisa a ser resolvida. Há corrupção policial mesmo em morro pacificado. E o tráfico vai continuar, menos chamativo, claro, enquanto houver demanda”, explica.

E agora?

O otimismo não existe mais nas UPPs. O então festejado teleférico, por exemplo, está paralisado desde 2016, por questões técnicas e políticas — a construção e a manutenção do equipamento foram mencionadas na Lava Jato. A violência segue intensa. O emblemático caso Amarildo, pedreiro desaparecido depois de ser abordado por policiais da UPP da Rocinha, ocorreu em julho de 2013, três meses depois da reportagem, publicada em fevereiro.

2018 - E agora, Luiz?
#278 | Tema: Especial 32 anos de Trip

Nada feito

Por Luiz Eduardo Soares*

Em 2013, muitos me consideraram um radical pessimista quando escrevi o artigo para a Trip, dizendo o seguinte: “Com a implantação de uma UPP, o Estado afirma que a comunidade deve ser tratada como os residentes dos bairros nobres. Não há invasão policial em Ipanema. O serviço policial ali é prestado dia e noite. Essa presença contínua nas favelas inibe o domínio territorial despótico por grupos de traficantes ou milicianos. O objetivo é suprimir o controle territorial exercido por grupos criminosos. Mas essa liberação deve ser acompanhada pela provisão dos demais serviços públicos. Além disso, a cultura policial tem de ser transformada. Caso contrário, a liberação vai se degradar em novo despotismo e a pacificação será o nome fantasia do arbítrio. O projeto das UPPs não terá futuro nem poderá expandir-se (...) se as instituições policiais não forem refundadas”. Infelizmente, eu estava certo. Não fui pessimista, mas realista.

A promessa, prevista no projeto, era clara: as UPPs trariam para as comunidades métodos de policiamento comunitário ou de proximidade, cujas marcas distintivas são o respeito à população, a identificação de suas funções como prestação de serviço público à cidadania e a estrita fidelidade aos mandamentos constitucionais e aos princípios estabelecidos nas declarações internacionais dos direitos humanos, das quais o Brasil é signatário.

Pois a promessa não foi cumprida. As ações policiais, seus métodos e abordagens da população local, na maior parte dos territórios cobertos por UPPs, depois de dez anos de experiência, nada têm a ver com o modelo evocado. De fato, não poderia ser diferente: como alterar padrões institucionalizados ao longo de décadas sem modificar profundamente a própria polícia, revalorizando os profissionais na ponta, investindo a sério em sua formação para o cumprimento de missões de novo tipo, e alterando as visões estratégicas dos estratos superiores e os mecanismos de gestão? Como instalar unidades de policiamento comunitário sem dialogar, ouvir e pactuar, reconhecendo que a comunidade deve ser beneficiária da segurança pública, não tratada como inimiga, como se estivéssemos em guerra contra os destinatários do serviço policial? Nada disso se fez a sério, como política universal para o conjunto das UPPs – exemplos em contrário tornaram-se casos singulares e exceções.

Hoje, a realidade atesta: a previsão confirmou-se. Ante a ausência de um plano consistente de reforma policial, as UPPs, tais como definidas no projeto, comprovaram-se insustentáveis e refratárias à universalização, isto é, não se converteram em política pública. Condenaram-se a permanecer um projeto localizado e, ainda pior, tendente ao declínio. As forças inerciais da corporação militar acabaram por absorver os componentes inovadores e virtuosos que se encontravam no projeto. Em outras palavras: sem uma política de segurança digna deste nome, que inscrevesse em seu eixo central a reforma policial, o melhor da UPP, enquanto projeto, não se realizou.

Restou para o Rio de Janeiro, em vez de autocrítica que impulsionasse a inovação, a mais obscurantista regressão: a intervenção militar federal, cujos resultados nefastos estão aí, diante de nossos olhos. Os índices de criminalidade permaneceram, em geral, inalterados, mas a brutalidade policial letal, tacitamente autorizada, tem provocado um verdadeiro banho de sangue nas periferias, alimentando a espiral de violência, que atinge também policiais, além do conjunto da população dos territórios vulneráveis.

E segue a marcha da insensatez, na irracional suposição de que, fazendo-se mais do mesmo (isto é, mais ações belicistas, justamente aquelas que o projeto das UPPs buscou superar), e com mais intensidade, seriam alcançados resultados diferentes. Esperemos que as eleições tragam mudanças profundas na direção de mais democracia e respeito à Constituição e aos direitos humanos.

Créditos

*Luiz Eduardo Soares é antropólogo e escritor, especialista em segurança pública. Foi homenageado no Prêmio Trip Transformadores em 2012

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