O axé de Carlinhos Brown

por Pedro Alexandre Sanches

Antes da pandemia, batemos um papo com o artista sobre seu primeiro disco solo inteiramente devotado à axé music, racismo e televisão

Figura decisiva do movimento musical conhecido como axé music, o baiano Carlinhos Brown levou 57 anos para compor um trabalho todo dedicado ao estilo que o formou e que ele próprio ajudou a formar. Seu álbum, Axé Inventions – Àjààlà, lançado em fevereiro, é o primeiro de uma trilogia pensada especificamente para explorar as relações do gênero com o Carnaval, e conta com as participações especiais dos pioneiros Luiz Caldas e Sarajane. 

Àjààlà chegou em mais um dos momentos em que se especula sobre a decadência, talvez o fim da axé music, ideia que Brown combate com fervor. Em seu modo de ver, estilos musicais como o funk e o sertanejo atuais são tributários do axé e dão continuidade ao movimento iniciado 35 anos atrás. “Anitta, pra mim, é Carla Perez, Daniela Mercury e Ivete Sangalo, tudo numa só”, exemplifica. Ele estende esse vínculo à nova cena baiana, de nomes como BaianaSystem e Àttøøxxá: “Dentre esses, a maioria dos meninos que tocam percussão são meus alunos. Eu formei mais de 15 mil músicos”. Antes da pandemia, batemos um papo com Brown sobre axé e MPB, os sete filhos e o ex-sogro Chico Buarque, The Voice The Voice Kids, racismo e enfrentamento dos preconceitos. Só se recusa a comentar a política brasileira: “Não tenho nada a dizer, nem quero”. 

Trip. O que é Àjààlà?

Carlinhos Brown. Àjààjà chama-se fazedor de cabeça. É um canto para àjààlà. Luiz Caldas é um àjààlà. É pelo fato de nós sermos integrantes do mesmo grupo e termos formatado o que se chama de axé music. O axé music é o último nicho e vem num veio de semi-analfabetos, por isso o Alfagamabetizado [álbum de estreia de Carlinhos Brown, de 1996]. Mas isso não significa que nós não tenhamos discurso, tanto que terminamos levando em prática ações sociais jamais vistas no país, com resultados enormes. Conseguimos trazer uma cidade ao índice zero de violência, que a ONU queria saber como era, e depois a política terminou levando tudo pro caminho que era. Nem estou falando de política partidária. Para nós, a estética é a política, embora tenham poucos músicos que façam políticas culturais. Todo mundo se assusta quando digo que estou fazendo política. Estou. Não estou fazendo política partidária, mas estou fazendo política cultural, como quando digo “tá na mulher, o amor tá na mulher”. Não precisou nenhum partido dizer isso, porque está dentro da nossa consciência enquanto movimento. Também tenho uma autocrítica: acho que a gente gastou mais dinheiro fazendo camarote e não fez uma casa de shows decente ainda em Salvador. Temos boas casas? Temos, mas não tem uma casa de shows que combine com a nossa trajetória. Penso até no Museu do Ritmo. Peguei uma casa, um espaço de 1837, mas não consegui concluir ainda. Mas vou dizer que o que se gasta num camarote hoje no Carnaval sustentaria uma casa de shows por 30 anos ou mais. Estamos falando de àjààlà, se é pra fazer a cabeça vamos fazer a cabeça.

O disco é uma homenagem à axé music? É, porque na verdade é meu primeiro disco de Carnaval. Eu nunca gravei um disco de Carnaval, só escrevi pra todo mundo. Eu no máximo botei uma ou duas músicas nos meus álbuns solo, porque não queria me perder da canção e do experimentalismo. Fiz grandes sucessos de Carnaval com Daniela Mercury, com Chiclete com Banana na voz de Bell, com Ivete Sangalo, Margareth Menezes e tantos outros que a gente imaginar. Acho que fui até axé music quando fiz “Uma Brasileira” (1995) com Herbert Vianna, com Os Paralamas do Sucesso. Agora, nunca gravei um disco de Carnaval, porque também tinha criado a Timbalada, colocava as músicas de Carnaval ali. Quando vi que o axé fez 35 anos, eu disse: agora eu vou trabalhar o Axé Inventions, com o meu DNA. E as experiências carnavalescas vindouras também estão associadas, como quando faço um funk-carnaval [“Fofoqueira”] e convido uma menina de São Paulo [Lele Tridico].

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Essa faixa não é exatamente axé, é um axé misturado, não? Essa é a mais axé de todas. A rítmica atrás é toda axé music. Não tem coisa mais axé music que o funk carioca e paulista. Eles todos começaram como batidão, tamborzão, Timbalada, Olodum. A base é axé music. Os próprios sertanejos, a base é axé music, a forma de cantar, a melódica menor. Nós temos um superstar, um fenômeno, que é Anitta. Ela pra mim é Carla Perez, Daniela Mercury e Ivete Sangalo, tudo numa só. Isso pra mim é axé music, por mais que queiram desvencilhar-se. E agora a pergunta: onde é que o axé music deságua? No Carnaval. E onde está todo mundo desaguando? No Carnaval. O axé é um híbrido que juntou a música popular brasileira, sobretudo o samba. Trouxe o samba pra perto, trouxe o rock, trouxe tudo pra dentro. Se você for ver hoje nos trios, em todos eles, de igreja ao sertanejo ao funk, tem aqueles três surdos, tem bacurinha, tem timbau. A gente sabe o que está fazendo, e como sabemos. Faço essa afirmação, falando politicamente, porque tem muita sobrevida. Agora é que sinto que o país começou a absorver, embora o Brasil não conheça o fino do axé. A Timbalada e o Olodum ainda são muito sofisticados para muitos ouvidos. O que quero dizer é que estamos na vanguarda ainda. Na frente. Ninguém pega. Eu estava vendo um programa na Itália falando de dois grandes discos da música heavy metal, um deles era o Roots, do Sepultura. Por quê? Por causa daquelas percussões, aquilo mudou o heavy metal. Que bom que era eu com Max Cavalera. Que bom que a música que foi o grande hit daquele disco fui eu que escrevi, “Ratamahatta”. 

A nova geração da Bahia, puxada por BaianaSystem, é mais híbrida ainda que o axé. Como você os avalia? É muito bom, a gente precisava ter um crossover eletrônico, já que começamos eletrônicos. Nós precisávamos do Àttøøxxá, do BaianaSystem, de Tony Salles, de Léo Santana, que seguem uma cadência rítmica que se chama de neo-pagode. Eles todos usam bacurinha, um instrumento que eu inventei, uma sonoridade que eu inventei. Dentre esses, a maioria dos meninos que tocam percussão são meus alunos, Márcio Victor, fora uma legião. Eu formei mais de 15 mil músicos. É evolução social mesmo, evolução com elegância. Não é revolução, é evolução.  

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Seus filhos já estão na música? Quantos são? Tenho um total de sete filhos, mas os mais velhos é que fazem música. Nina Freitas mora nos Estados Unidos, compõe, toca todos os instrumentos. Chico Freitas, que é Chico Brown, é um grande músico, não é à toa que ele escreveu com o avô [Chico Buarque] e ganhou o Grammy Latino. Miguel Freitas, além de ser um monstro tocando bateria, toca todos os instrumentos bem, está arrasando com o grupo [Neotribais]. Clara, que fez o musical dos Novos Baianos junto com Miguel, também tem incursões precisas na música. Gravou com o avô, gravou comigo, tem uma voz incrível. É seguidora assídua da educação musical de Marisa Monte, então não tem como dar errado. 

Como o avô Chico Buarque se relaciona com a música dos netos e com a axé music? Ah, esse é um doce. Ele é inteligentíssimo, dá força. Viu tudo antes da gente. Ali tem um olhar, um terceiro olho.

Como você diria que o axé ajudou a promover a consciência negra no Brasil? Ah, total, muito. Nós todos encorajamos a vestir roupas mais coloridas, a não ficar mais podendo ter apenas um padrão social. Gosto muito do discurso de aproximação social. Eu, como negro, preservo tudo do negro, mas quero aprender o do outro também. Nada do que é meu é só meu, e nada do que é do outro é só do outro. É tudo nosso. O que nós precisamos é enriquecer, trabalhando arduamente para que erros cometidos no passado, como escravidão, e erros presentes que persistem, como preconceitos, não façam parte da nossa existência. 

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O que você, pessoalmente, sofreu por causa de racismo? Ah, rapaz, sofri pra caramba, e caguei pra tudo. Continuo cagando pra tudo. E não falo, não dou like ao que não presta. Eu não me vitimizo, nunca me vitimizei. Se estou sofrendo, lasco a mão, sangro no tambor, a alma está lá. 

Você viveu alguns choques culturais que na época a gente não relacionava com racismo, mas tinham a ver, como o episódio do Rock in Rio. É, mas nunca liguei, não. Tinha que acontecer mesmo. Fui pro Rock in Rio, se eu fosse burro e ficasse numa visão preconceituosa, eu não chegava ao Sepultura, às pessoas do rock que eu amo, não chegava a gravar com Rita Lee, a tocar com Pepeu Gomes, ou com Living Colour, que ainda me convida pra participar da banda.  

Falta muito ainda para superarmos o racismo? Rapaz, tem coisas que ainda são antigas. Muitas vezes, se ouço alguma coisa que eu considere racista, uma risada desaba mais o cara que se eu me zangar. O preconceito é uma coisa do ser humano, a gente tem que levar as coisas com mais leveza. O que a gente tem que evitar é a violência. Isso é que anda forte. Tem aí essa dicotomia de que queremos evitar a violência através de discurso verbal. Isso está se aprimorando ainda, precisa crescer no homem.  

Você tem tido uma atuação grande na televisão. Ela afetou sua música? Tenho a idade da televisão praticamente. Nasci vendo TV. A TV não me abala em nada. Acho que inclusive a TV ainda não chegou na minha música. Apesar do The Voice, a televisão ainda está atrasada com a minha música. E foi a TV que me ensinou a música. Se eu vi Wilson Simonal, Jair Rodrigues, Elis Regina, vi coisas de extrema qualidade. Aprendi com essa sigla que Elis deu pra todos nós, que é MPB. Nós temos dois The Voice, e todo mundo fica perguntando de onde vêm esses artistas e como se dá a continuidade deles. Eu digo: se preparem pra esta geração de crianças. Vai vir de caminhão. A título de longevidade, The Voice Kids vai surpreender em algum momento. Os meninos estão se preparando, e aí, sim, será histórico.

Você começou falando de política. Poderia fazer uma avaliação sobre o cenário político brasileiro? Comecei falando de política cultural, não partidária. Não tenho nenhuma, mas nenhuma, nada o que dizer. Nem quero. Estou ajudando o meu país da minha forma, amando. A política está levada muito pro âmbito pessoal, eu não quero briga com ninguém. Então vou trabalhar como cidadão, dentro de uma retidão, respeitando o espaço de cada um.

Isso quer dizer que você tem suas opiniões, mas elas não são públicas? Não são pra ser distribuídas. Eu guardo pra mim, por que vou dar opinião? Vai dividir mesmo, pra quê? Opinião você não precisa dizer na internet. Diga na ação, no seu dia a dia. Essa coisa de discutir na internet é muito vazio.  

Créditos

Imagem principal: Iza Campos/Divulgação

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