por Marcos Brias
Trip #178

Como a pequena Marfa, no Texas, transformou-se em epicentro da arte contemporânea

Cenário dos recentes Onde os fracos não têm vez e Sangue negro, além do clássico Assim caminha a humanidade, a pequena cidade de Marfa, no Texas, é praticamente uma desconhecida para o turista comum. Quem cruza a paisagem desértica da região conhecida como West Texas (o famoso “faroeste americano”) em direção à cidade sabe bem o que procura.

Com cerca de 2 mil habitantes, Marfa abriga um dos centros de arte minimalista e contemporânea mais importantes dos EUA, a fundação Chinati. Além das instalações permanentes de seu idealizador, Donald Judd, ela tem obras de Dan Flavin, Iylia Kabakov, Roni Horn e Carl André em seu acervo. E recebe exposições de artistas do calibre de Cristopher Wool, Wilhelm Sasnal e Rita Ackerman. Judd não é o único artista que escolheu a cidade para viver. Recentemente, o pintor Jeff Elrod, conhecido por seu estilo com cara de Paint (o avô do Photoshop), comprou o velho prédio do único cinema da cidade e o transformou em ateliê.

Os preços baixos, a vida tranquila e o alto teor intelectual foram alguns dos fatores transformadores da cidade, que passou a atrair jovens em busca de um lugar onde o espírito criativo, a sustentabilidade, a sensação de pioneirismo e a vida em comunidade são os principais vetores. E é isso que se sente no Food Shark, trailer que serve comida de inspiração árabe, como os deliciosos Marfalafel. Seus donos cultivam os próprios ingredientes, de forma orgânica, e compram o que falta de fazendeiros locais.

 

 

A cidade vira uma Woodstock texana nos Open House Weekends, festival de música e artes que já recebeu Sonic Youth, Yo la Tengo, Dean Wareham (do extinto Galaxie 500), Joana Newson, Spoon, entre outros. O Ballroom Marfa também é responsável por shows, exposições e até a famosa PRADA Marfa, instalação dos artistas Michael Elmgreen e Ingar Dragset que reproduz uma loja da marca em meio ao deserto. Quem quer se hospedar com estilo pode ficar no El Cosmico, estacionamento de trailers vintage restaurados, ou nos dois hotéis da cidade, o famoso Paisano e o modernoso Thunderbird – onde você pode alugar uma vitrolinha portátil por US$ 10 e abusar da coleção de vinis da dona. O pico preferido dos novos hippies é o campo de observação das misteriosas Marfa lights – fenômeno natural que acontece no meio do deserto, em que luzes surgem do nada, mudam de cor, voam de lá pra cá e desaparecem.

 

 

A arte, a literatura, o calor humano e o forte senso de comunidade dos moradores são as grandes qualidades dessa Shangri-lá contemporânea. Diferentemente do que o título acima sugere, Marfa pode até não ser terra de velho, mas é definitivamente um ótimo lugar para envelhecer.

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