por Natalia Guaratto

Negros, gays e da periferia, os integrantes do coletivo Gleba do Pêssego conquistam prêmios, mas
querem mesmo o controle das próprias narrativas

Se depender do coletivo audiovisual Gleba do Pêssego, formado por oito jovens LGBTI+ das periferias de São Paulo, vai ter negro gay da periferia ganhando prêmio de cinema, sim. O grupo, formado na 11ª turma do Instituto Criar, em 2015, acaba de colocar seu segundo curta em exibição e já conta os prêmios. “Bonde” estreou no 30º Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, em agosto deste ano, conquistando o Borboleta de Ouro - Melhor Curta Queer Brasileiro; o Prêmio Canal Brasil de Curtas; e o Favoritos do Público. O curta retrata um dia na vida de três jovens negros da favela de Heliópolis, que, na quebrada, são discriminados por serem LGBTI+s e, no centro, são atacados por serem negros.

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“O processo de fazer o filme partiu de longas conversas sobre as opressões que sofríamos nos lugares em que passávamos”, diz Guilherme Candido, um dos integrantes da Gleba do Pêssego, que atuou como roteirista, assistente de direção e montador. “Bonde” é um filme inspirador sobre como a potência do coletivo pode fortalecer indivíduos, criando famílias unidas não por laços sanguíneos, mas por afetos. Calcado no humor dos memes, na cultura dos grupos de WhatsApp e na valorização da estética negra, o curta integra um movimento de renovação na maneira como o audiovisual representa a quebrada. 

“Queríamos mostrar a violência sofrida por corpos negros em relação à polícia, mas também não queríamos gerar nenhum tipo de desconforto ou gatilho negativo para quem já passou por isso.  Em 2016, as ações de Jair Bolsonaro ainda não estavam tão fortes em contraste com o momento em que o filme de fato começou a ser produzido – período eleitoral de 2018. Em meio ao caos político, encontramos força uns nos outros, transmitindo a mensagem de união encontrada dentro do coletivo por meio do nosso filme”, conta Candido, que também é educador de tecnologias e artes no Sesc.

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Ao colocar em evidência os personagens Raí (Eric Oliveira), um homem gay, gordo e negro, Lua (Alice Marcone), uma mulher trans negra, e Camis (Joyce Brito), uma mulher lésbica negra, o coletivo que reúne jovens com idades entre 22 e 28 anos, vindos de bairros como Grajaú, Arthur Alvim, Heliópolis, Rudge Ramos e Jardim Gustavo – todos na periferia de São Paulo –, quer “tomar o poder das narrativas de volta”. Para Asaph Luccas, diretor e corroteirista de “Bonde”, essa retomada de controle “nunca é falada porque nós [gays, negros, da periferia] raramente temos espaço para falar sobre o 'pacto narcísico da branquitude’”. 

“A gente não precisa ir muito longe, é só olhar a ficha técnica de qualquer filme nacional no cinema hoje. E temos que pensar também em recortes interseccionais, como gênero, sexualidade e classe social. Isso tudo está completamente conectado com a falta da nossa inserção em posições de decisão no mercado de trabalho e a falta de perspectiva que temos por não enxergamos possibilidades de existência além dos arquétipos negativos que foram, e continuam sendo, construídos para nós”, completa Luccas, que veio do bairro Arthur Alvim, zona leste de São Paulo, e atua como pesquisador criativo na agência de publicidade África. 

Além de “Bonde”, curtas como “NEGRUM3”, de Diego Paulino, e “Sem Asas”, de Renata Martins também tem rodado os festivais de cinema do país, conquistando prêmios e mostrando as infindáveis possibilidades de narrativas da periferia. “Dia desses cruzei com a Julia Katharine [cineasta trans, responsável pelo curta “Tea For Two”] e conversamos sobre os filmes que foram produzidos através do Edital Afirmativo, criado pela Spcine, e têm circulado nos maiores festivais do Brasil”, diz a cineasta paulistana Renata Martins, que tem na filmografia a premiada web série “Empoderadas” e a temporada “Malhação – Viva a Diferença”, ganhadora do Emmy International Kids Awards. “No festival de Belo Horizonte, Diego Paulino e eu refletimos muito sobre a importância das políticas afirmativas e de como as salas de exibições e o público dos festivais têm mudado pra melhor. Eu, mulher cis negra, uma mulher trans e uma bixa preta nos reencontramos no palco do 26º Festival de Cinema em Vitória, não presencialmente, mas através dos nossos curtas, pois o nosso trabalho e de toda nossa equipe foram reconhecidos e premiados. Parece pouco, mas em um mundo que odeia pessoas como nós, estarmos vivas e produtivas, é nossa maior vitória”, continua Renata. 

Financiado pela Secretaria de Cultura de São Paulo, por meio do VAI II (programa para a Valorização de Iniciativas Culturais),  “Bonde” foi feito em oito meses e contou com a ajuda da comunidade de Heliópolis para acontecer. “A gente assistiu uma dobradinha de "Cidade de Deus" e o documentário "Cidade de Deus - 10 Anos Depois" enquanto estudávamos no Instituto Criar e ouvir o elenco do filme falar sobre as opressões que viveram em set e sobre suas expectativas de carreiras que jamais chegaram foi uma das razões para buscarmos fazer um cinema mais humano, que pensasse tanto nas pessoas envolvidas quanto no produto final”, diz Carol Santos, produtora executiva e roteirista em “Bonde” e assistente de controller na 02 Filmes. 

Recentemente, durante um debate promovido sobre o futuro do audiovisual pela Faap, a atual diretora-presidente da SPCine, Laís Bodanzky, comentou sobre a importância das políticas públicas continuarem garantindo o acesso a investimentos para cineastas da periferia. “Precisamos lembrar que a gente nunca viveu um ciclo do cinema tão rico e tão interessante pela diversidade como estamos vivendo agora. A diversidade está na tela e está em quem faz. Temos um boom de roteiristas interessantíssimos e audiovisual não se faz sem política pública”, disse

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Em um cenário onde o governo federal pede a suspensão de um edital para fomento a filmes com temática LGBTI+s – ainda que tal pedido tenha sido barrado posteriormente pelo  Ministério Público Federal (MPF) –, os integrantes da Gleba do Pêssego enxergam que a manutenção dos espaços e políticas de incentivo para as histórias que querem contar se faz ainda mais necessário.  

“Para nós, o próprio ato de existir já é uma luta enorme e a gente sempre existiu. Então, vamos continuar existindo e resistindo, sempre juntos. É como Lua fala ao final de Bonde: 'vamos continuar babadeiras sem deixar cair o picumã'. Nos cabe continuar produzindo histórias de nossas particularidades de forma poética e potente, demonstrando que não seremos passíveis a ameaças à nossa existência”, conclui Guilherme.

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