Halder Gomes, um
cabra da peste

por Heitor Flumian

Conversamos com o diretor do sucesso Cine Holliúdy sobre seus filmes falados em ”cearensês” que se tornaram referência no cinema nacional

Em 2013, o cineasta Fernando Meirelles usou o Twitter para falar de uma cena do filme Cine Holliúdy, lançado no mesmo ano, que “deixaria Charles Chaplin de boca aberta”. Nela, Francisgleydisson, o dono de um cinema no interior do Ceará que luta para manter sua paixão relevante diante da chegada da TV nos anos 70, assume a tela quando o projetor falha em plena exibição. O protagonista, então, conta o que resta do filme, uma espécie de artes marciais lado B, por meio de muita improvisação, interação com a plateia e uma simulação de luta oriental...cinematográfica. O público vai à loucura; e assim foi também na vida real.

Apesar do baixo orçamento, de ser falado em “cearensês” – é legendado em português – e de apostar em atores e humoristas regionais, como o até então desconhecido Edmilson Filho no papel principal, o longa foi visto por 487 mil espectadores; 300 mil só no Ceará, onde foi lançado primeiro. Na época, das 184 cidades do estado, apenas cinco contavam com uma sala de cinema. Hoje, em parte por sua repercussão, são nove. “É um grito de resistência, consciente ou não, à soberania cultural de um povo que quer mais espaço para se ver”, diz o cineasta Halder Gomes, 52 anos, que escreveu e dirigiu o projeto. “Foi muito legal ver pessoas que estavam há décadas sem ir ao cinema voltar a frequentá-lo. No Ceará, o filme conseguiu uma proeza que foi unir filhos, pais e avós, que o receberam com muito orgulho e gratidão. Eles sempre veem em primeira mão o que fazemos.”

Foi assim com O Shaolin do Sertão (2016), uma história de kung-fu que se passa em pleno semiárido, e, agora, com Cine Holliúdy 2: A chibata sideral, que na última semana estreou nas regiões norte e sudeste depois de dar uma “pêia’’ em grandes produções como Dumbo e Capitã Marvel nas bilheterias cearenses. Ambientado na década de 80, dessa vez Francisgleydisson, por falta de público, se vê obrigado a vender o cinema para um pastor inescrupuloso. Desolado, e bêbado certa noite, é surpreendido pela aparição de extraterrestres que o inspiram a fazer um filme de ficção científica baseado num duelo entre Lampião e alienígenas, usando a população como atores e se aproveitando, segundo o roteiro,  da falta de beleza de alguns para interpretar os ETs.

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“O filme é uma homenagem aos cineastas mambembes que viveram à margem da exibição cinematográfica do país e, mesmo sem recursos e com uma produção trash, encontravam o seu público à base de muita criatividade”, conta o diretor. A ideia de incluir seres de outro planeta na sequência, no entanto, não exigiu tanto brainstorming. “São figuras que também fazem parte da cultura popular do Ceará. A cidade de Quixadá, por exemplo, é uma das principais referências no país em ufologia. Nos anos 50, a escritora Rachel de Queiroz, que era bastante cética, escreveu na revista O Cruzeiro um relato detalhado de um óvni que viu na cidade”, ressalta.

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Com a participação de Vanessa Schmütz e Milhem Cortaz, o filme mantém o elenco de seu antecessor (destaque para o cantor Falcão, como o cego Isaías) e a fórmula de explorar um humor popular e ingênuo que já havia rendido comparações ao cinema de Mazzaropi. As legendas também seguem. “O cearense carrega um histórico de secas terríveis, fome, sede e miséria. É um povo que ficou entre a opção de rir e chorar e optou por rir.  Por isso, o humor aqui é exercido no cotidiano e, para deixar o outro sem a piada, basta tirar sarro de si mesmo”, reflete o cineasta. “No Ceará, o bullying é mais para gente da geração nova que nasceu sem os anticorpos da fuleiragem [risos]. Mas não é uma coisa exagerada como em outros lugares, porque as pessoas resolvem suas questões na comédia mesmo, na resposta imediata, ao invés de guardar mágoa e se lamentar no Facebook.’’

O sertão vai virar mar

Halder nasceu em Fortaleza, mas cresceu em Senador Pompeu, a 300 quilômetros da capital, à época com 20 mil habitantes, recorrendo à criatividade infantil das brincadeiras de mão inventadas e à rinha de galos para ocupar o tempo – a TV de casa só sintonizava um canal e em horários específicos. No modesto cinema da cidade, ao estilo Cine Holliúdy, com cadeiras de madeira, ventilador capenga e mosquitos a rodo, assistiu a aventuras de Hércules, Sansão e muito western. Ao se deparar com Bruce Lee em A fúria do dragão (1972), deixou a sala querendo ser faixa preta, cineasta e chinês. “O primeiro Cine Holliúdy é extremamente autobiográfico”, reconhece.  

A faixa preta em taekwondo veio em 1990, aos 23. Dois anos depois, abriu na capital cearense uma academia de artes marciais na qual Edmilson entrou como faixa branca (o protagonista chegou a disputar um Campeonato Pan-Americano), e passou a viajar para Los Angeles, onde seu professor de artes marciais iniciava uma carreira no cinema. “Lá nos tornamos amigos de dublês e coreógrafos bastante conhecidos no cenário, como J.J. Perry [Django Livre e franquia John Wick] e Clay Barber [coreógrafo de Pantera Negra]. Entre treinos e competições de taekwondo, comecei a trabalhar como dublês de luta em filmes B de artes marciais”, lembra Halder.

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A experiência em Hollywood foi o empurrãozinho que faltava para se aventurar na direção. Em 2004, lançou Cine Holiúdy: O astista contra o cabra do mal, curta que inspirou os longas e foi bem recebido em festivais. O cineasta rodou pelas locadoras de Fortaleza distribuindo cópias do filme, que tiveram mais saídas que títulos como Matrix Revolutions na época, e fez mais dois filmes com coprodução americana até conseguir incentivo, por meio de um edital, para fazer o projeto que o tornou conhecido.

“Halder faz uma versão mais pop da comédia regional, uma atualização, ao deixar de lado a história mais tradicional, do matuto e do caipira”, diz o cineasta pernambucano Guel Arraes. “Além disso, leva para dentro do filme essa questão do enfrentamento com o cinema estrangeiro, questiona o que é nacional e o que vem de fora, promovendo uma narrativa que explora a paródia do cinema americano e a comédia regional renovada, duas linhas de conversa que combinam”.  

O diretor de O Auto da Compadecida é um dos responsáveis pela série homônima baseada no primeiro filme que estreia em maio na Globo, dirigida por Halder e por Patrícia Pedrosa. Com 10 episódios, cada um passando por um gênero do cinema, mostra Francisgleydisson voltando a ver seu cinema ameaçado depois que o prefeito da pequena cidade Pitombas (papel de Matheus Nachtergaele), instala uma televisão na praça, onde os moradores passam a se juntar para acompanhar as novelas. É a vez da TV contar sua versão da história do embate.

Créditos

Imagem principal: Ethi Arcanjo/Divulgação

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