NA PRAIA DE OBAMA
Por Alê Youssef
em 13 de janeiro de 2009
A edição dezembro/janeiro da Trip, traz a cobertura que fiz sobre as eleições americanas em Nova Iorque e Chicago. Para quem não acompanhou o dia a dia da cobertura nesse blog, publico abaixo, a íntegra da matéria.

INVADIMOS A PRAIA DO OBAMA
Depois de ir aos EUA para entender o papel dos jovens na criação da Obamamania, o cluninsta de política da TRIP conseguiu se descolar e entrar na festa da vitória do novo Presidente Americano em Chicago.
POR ALE YOUSSEF
Make an offer or tell me a good story. Faça uma oferta ou me conte um a boa história. Isso estava escrito em um dos vários links da Craiglist que negociavam o convite ao Grant Park em Chicago para a festa da vitória de Barack Obama. Naquela altura o site de classificados era a única maneira de se conseguir acesso ao evento. A lista de espera oficial já ultrapassava 70 mil nomes e mesmo grandes veículos de imprensa não estavam mais sendo credenciados.
Só convidados do Partido Democrata poderiam entrar no Hutchinson Field, uma área descampada do Grant Park, acostumada a receber grandes eventos (foi lá que acontecera meses antes o mega festival Lolla Palooza, por exemplo). Cada convidado tinha direto a um acompanhante e muitos resolveram faturar o que poderia ser um momento histórico. O preço variava entre 1 mil e 2 mil dólares.
Contei uma história verdadeira: brasileiro, que veio aos EUA para cobrir a eleição para uma revista independente. Engajado em política, ex coordenador de juventude da Prefeitura de São Paulo que assistiu de muito perto a vitória de Lula, o operário presidente.
Bob Lyons, um filiado ao Partido Democrata de Chicago, respondeu quinze minutos depois: “ Gostei da história, me mande links comprovando”. Sem acreditar muito no que estava acontecendo, respondi e recebi de volta: “OK. Encontre-me amanhã (dia da eleição) na esquina das ruas State e Jackson e entramos juntos no parque”. Incrível.
Depois da correria para arrumar um vôo (estava em Nova Iorque) e da incerteza pelo caminho, cheguei na esquina no horário combinado com um baita medo de levar bolo. Bob – que por sinal é muito parecido com ator americano Forest Whitaker – estava lá. Alívio. Seguimos em direção ao Parque, entramos na fila, passamos por 4 pontos de checagem de documentos e detectores de metais para, enfim, chegarmos ao Hutchinson Field. Tapinha nas minhas costas e “Enjoy”. Bob sumiu na multidão e percebi que estava dentro do local da festa, pertinho do palco, no meio dos eleitores mais próximos de Obama.
A imensa maioria no parque era jovem – 35 pra baixo. Clima de festival de rock feito por gente que participava de sua primeira campanha presidencial e que tinha forte relação com Obama. Imaginem aqueles freqüentadores da Cave em Liverpool que costumavam bater ponto nos shows semanais do Beatles, vendo seus amigos se tornarem os maiores do mundo. O Grant Park estava repleto de eleitores de primeira hora de Obama, político local que já havia despertado neles – desde sua eleição para deputado estadual em 1996 – a mesma mobilização que envolvia a juventude de todos os Estados Unidos na eleição presidencial.
Antes daquela noite pude comprovar isso em muitos blogs, sites clubes, bares e bairros que visitei em Nova Iorque e em várias conversas que tive em busca de exemplos de mobilização dos jovem em torno do processo eleitoral.
A primeira grande surpresa foi o Rock The Vote, movimento não partidário que usa música, cultura pop e novas tecnologias para engajar e incitar os jovens a se registrarem e votarem em cada eleição. O lema é construir o poder político do jovem. Promovem festas, concertos, criam anúncios de TV e controlam uma impressionante rede de formadores de opinião. Madonna, Snoop Dogg e Cristina Aguilera, por exemplo, são engajados no movimento que reúne praticamente todos os artistas – famosos e desconhecidos.
Em 2008 o Rock the Vote atingiu sua maior marca: inscreveu no processo eleitoral cerca de 2,5 milhões de jovens. Heather Smith, diretora executiva do movimento, se tornou figura disputada por políticos e imprensa. Segundo ela, ao contrário do que aconteceu em 2000 e 2004 – quando o voto jovem se dividiu em 50% para cada partido – esse ano Obama venceria MacCain com cerca de 80% da preferência jovem.
Isso era visível.
ENGAJADOS
A Rua St. Marks Place, em East Village é uma espécie de Galeria do Rock de Nova Iorque. Freqüentada por punks, metaleiros, hyppies, skatistas e malucos em geral , o local é ponto de encontro de uma galera muito nova, sem grana e que passa os dias e noites bebendo cerveja e comendo pizza. Símbolo do que poderíamos chamar de juventude alienada, a cena jovem de St Marks fez campanha de um modo particular, mas não ficou alheia a ela, como sempre ocorreu. Punks com bottons e shapes de skate com adesivos, cartazes de apoio à Obama e críticos aos republicanos nos estúdios de Tatuagem, cabeleireiros trash, lojas de camisetas de bandas. Estavam todos ligados.
Williansburg – área descolada do Brooklyn – reúne a grande parte da arte de vanguarda da cidade: músicos, produtores, artistas plásticos, arquitetos, estilistas. É como se todos os formados nas faculdades de comunicação e arte de São Paulo ou Rio morassem em um mesmo bairro. Pelos bares da Beford Street, é comum encontrar músicos de bandas como MGMT, The National e LCD Soudsystem. Lá, se notava a interpretação que o bairro fazia da campanha. Stickers dos artistas da área espalhados por todos os lugares faziam Obama se misturar com a arte de rua. A Brooklyn Industries – marca da região – criou até manequins Obama para expor suas roupas.
A noite também estava engajada. Clubes como Studio B, The Annex, Santos Party House, Nublu Café, Galapagos declaravam seu apoio com cartazes já na porta. Todos os DJs faziam questão de se manifestar. Afrika Bambataa, por exemplo, dedicou a Obama todo seu set em uma das noites. B’52, Bruce Sprigsteen, Beck, Jay Z, Will.i.am, MGMT, Beyoncé fizeram concertos em favor do candidato em locais como Hemmerstein e Roseland Ballroom.
Vendo tudo isso acontecer de maneira espontânea, a campanha de Obama espertamente adotou a imagem de apoio feita pelo grafiteiro e artista plástico Shepard Fairey – conhecido até então apenas pela cena da arte underground pelo seu famoso sticker Obey. A arte de Shepard rapidamente virou hit em todo o país e foi adaptada à cartazes, bottons, camisetas e adesivos. A estética da stencial art totalmente conectada com o jovem americano desde os tempos de Andy Warhol, virou símbolo maior da campanha, o que potencializou ainda mais a conexão entre juventude e candidato.
A iconografia de Shepard criou uma imagem cool de Obama – coisa inédita em uma campanha política – e isso atiçou o mercado americano, famoso por transformar tudo em um bom negócio. Era possível encontrar qualquer produto Obama em bancas de camelôs, em grandes lojas como Urban Outfitters, ou mesmo nas badaladas grifes do Soho – onde artistas e celebridades como Seal e sua esposa modelo Heide Blum, podiam ser encontrados passeando com seus bottons, manifestando seu apoio ao candidato.
A Union Square, praça no coração de Manhattan que abriga uma simpática feira de produtos orgânicos nos finais de semana, se transformou numa espécie de Obama Market. O estilista Carl, por exemplo, estava desempregado e criou sua marca de camisetas engajadas Grassroots. Feitas a mão e seguindo um design moderno, cada peça saia por 24 dólares. A campanha se tornou uma opção de geração de renda para muita gente.
A preferência jovem por Obama estava também relacionada à transparência e ao conteúdo de sua campanha. A arrecadação de fundos pela internet, com possibilidade de identificação fácil, rápida e desburocratizada dos doadores, fez com que todos se sentissem confiantes em doar. A comparação com as campanhas de Bush – quando os conglomerados petrolíferos constavam como principais doadores, era inevitável. Dos U$ 650 milhões arrecadados, a maior parte vinha de pequenas doações de menos de 100 dólares. Até hoje emails solicitam mais doações para cobrir os gastos extras de última hora. No dia da eleição vi filas em bancas do Partido Democrata para doar.
As opiniões reflexivas de Obama sobre temas espinhosos e questões cruciais e polêmicas, também cativaram o jovem. De Marco, operador do mercado financeiro e morador de Midtown, até Daniel, artista de Williansburg – todos com quem conversei, citavam o célebre discurso sobre racismo – em que ele comentou as polêmicas declarações do pastor de sua congregação, Reverendo Wright – e suas reflexões dobre terrorismo e socialismo – feitas depois dos ataques da governadora do Alaska e candidata a vice na chapa republicana, Sarah Palin.
Houve uma mistura de campanha ultra profissional com um jeitão “sincerão” que analisa e encara todos os tipos de assuntos. Não é pouca coisa, por exemplo, o fato de Obama ter tornado púbico que usura drogas e bebia muito na juventude. Anos antes, outro presidente democrata, Bill Clinton, disse ter fumado maconha, mas não tragado. Diferente.
FESTEJO EM GRANT PARK
No Grant Park, vários telões transmitiam ao vivo a cobertura da CNN. Com as votações se encerrando (o que ocorre em horários distintos em cada estado por conta dos diferentes fusos) a rede anunciava suas projeções, baseadas nas pesquisas de boca de urna. Como são 50 estados, a lista de projeções era imensa e dava à noite uma sensação de disputa interessante: cada resultado era um gol em um jogo de futebol: as pessoas deliravam de alegria ou mergulhavam na aflição.
“Texas sucks”, gritava o povo quando surgiu no telão a vitória de MacCain no estado do presidente Bush. “Atlanta is Atlanta” cantava outro zombando do conservadorismo histórico da Georgia. Em compensação a cada vitoria de Obama sobrava alegria.
E foi assim que os americanos descobriram que Barack Obama foi eleito: uma espécie de contagem regressiva: FLORIDA, OHIO, MICHIGAN, PENNSYLVANIA até chegar em NEVADA (estado que fez Obama atingir os votos necessários no colégio eleitoral para vencer).
Coube a Wolf Blitzer, apresentador da CNN – a tarefa que Alexandre Garcia da Globo, exerceu quando celebramos a vitória de Lula em 2002. “Agora já podemos dizer o que todos esperavam…Barack Obama is the 44th President of the United States”
Assisti cenas de comoção verdadeira dos americanos. Um grito de basta que estava entalado na garganta, o alívio por tirar das costas o peso de George W. Bush e ao mesmo tempo eleger uma figura tão popular no mundo todo. Os telões exibiam as festas na França, Japão, México, Quênia, Itália…
Quase todos os afro-americanos choravam. Mesmo os famosos, como o reverendo Jesse Jackson, a apresentadora Oprah Winfrey e o rapper e Will.i.am, estavam visivelmente encantados. Esqueceram a pose de super celebridades para compartilhar aquele momento.
Pouco depois do anúncio John MacCain fez seu discurso de reconhecimento da derrota. Muito aplaudido (ta certo que é fácil aplaudir quem perde) o republicano exaltou simbolismo racial da vitória.
Nesse ponto a festa estava liberada. O som bombava canções bem populares, que eram entoadas como hinos: Born in the USA, Sweet Home Chicago, America e Beautiful Day.
E como um bom festival, chegou o momento do headline entrar em cena: o Presidente eleito, a futura primeira Primeira Dama, Michele Obama, e suas duas filhas surgiram no palco: “First Family”, gritavam todos.
O Presidente discursou de um púlpito cercado por um vidro de proteção que fora instalado logo após o anuncio da vitória. A informalidade da campanha já não era permitida pela CIA.
Tive uma sensação de “déjà vu”. “ A mudança chegou na América” de Obama no Grant Park me lembrou demais “A esperança venceu o medo” de Lula na Avenida Paulista.
A fala de Obama foi pautada pela história de Ann Cooper, uma senhora negra de 106 anos que viveu a luta pela emancipação dos negros, a busca pelo direito ao voto das mulheres, a grande depressão e o new deal de Roosevelt, sofreu com todas as guerras, se inspirou em Martin Luther King, viu o homem pisar na lua, o muro de Berlim cair, descobriu a internet e naquela noite, tocou o dedo na tela de um computador para votar. Depois do discurso, a própria Ann Cooper apareceu no palco.
A história que presenciei nos Estados Unidos está relacionada com a capacidade de se atingir os mais distantes objetivos. Em 2000 Obama sequer conseguiu a credencial para a convenção do Partido Democrata que escolheu Al Gore candidato, e apenas 12 anos atrás ele era deputado estadual em Illinois.
A explicação para o êxito de Barack Obama e a impressionante participação dos jovens americanos em sua campanha envolve o marketing, a estética inovadora e o conteúdo do candidato, mas vai muito além disso tudo. Trata-se, antes de mais nada, de um sentimento que contagiou o pais, de que tudo é possível e que mesmo em um mundo repleto de dificuldades, se pode sim sonhar grandes sonhos em relação ao futuro. Yes, we can.
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