Milly Lacombe: Meu encontro com Manoel Soares

por Milly Lacombe

”É dessa troca de aprendizados que vai nascer uma nova possibilidade de país, uma nova possibilidade de existirmos no mundo”, escreve Milly

Conheci Manoel Soares através de meu parceiro de vida e de trabalho Antonio Amancio. Não precisei de dois minutos para ser sugada pelo campo gravitacional de Manoel que, como ele mesmo atesta, fala pra caramba. E nesse dia ele falou. Falou e falou e depois falou um pouco mais. E quando ele fala a gente escuta porque o pensamento dele é precioso e necessário.

Leia a entrevista de Milly Lacombe com Manoel Soares

Se, como ensinou James Baldwin, o preço da libertação da branquitude é a libertação dos negros – a libertação total: nas cidades, nas vilas, perante a lei e na mente –, Manoel está em campanha para que todos e todas nós nos libertemos de nossas mentes e desse Brasil tão atordoado em seus preconceitos.

“O Brasil institucional é um projeto de ódio que deu certo”, explica o historiador Luiz Simas. “Um projeto colonial de ódio, de horror e de exclusão”. Para Simas, o Brasil verdadeiro, um Brasil que se representa no que ele chama de brasilidade, é um caldo de cultura que opera nas frestas desse Brasil institucional, e que, como ele disse em entrevista recente ao professor Silvio Almeida, “está presente na música do Gonzaga, na voz de Cartola, na caranda de dona Lia, na capoeira de mestre Bimba, no samba de roda do recôncavo”.

Esse é o Brasil que vai sair das frestas para ofertar a todos nós um futuro possível. Um Brasil liderado por movimentos negros, movimentos feministas, movimentos LGBTQs e vozes indígenas.

A trajetória de Manoel é uma improbabilidade e não pode ser romantizada. Segundo o IBGE, a taxa de mortalidade para jovens brancos entre 15 e 29 anos é de 34 para cada 100 mil habitantes. A mesma taxa considerando jovens negros é de 185 para cada 100 mil habitantes. Dito de outro modo, a cada 23 minutos o Brasil institucional mata um de seus jovens de pele negra.

“O racismo constrói subjetivamente o negro mas também o branco”, ensina o professor Silvio Almeida. Não é a raça que cria o racismo, mas o racismo é que criou a raça. E quando a gente fala de raça é preciso entender que não se trata de um conceito biológico, porque biologicamente falando não existem raças – o conceito de raça é uma criação histórico-cultural que nem sempre existiu. O branco é, portanto, uma identidade. Assim como o machismo, o racismo é o que funda nossas subjetividades e é também o amálgama das nossas relações sociais.

“Para o racismo funcionar ele precisa ser reduzido a uma questão moral”, ensina Silvio Almeida. Mas o racismo é muito mais do que um desvio ético: ele é uma estrutura de poder que organiza as nossas relações e nos fundamenta enquanto sujeitos no mundo. O racismo deve ser abordado politicamente, e no Brasil não se pode falar de raça sem falar de classe.  

Por isso a luta antirracista inclui a defesa do SUS e inclui a luta para que não se destruam todas as estruturas sociais de cuidado, como carteira de trabalho, aposentadoria, ensino gratuito, creches públicas.

É dessa troca de aprendizados que vai nascer uma nova possibilidade de país, um novo circuito de afetos (obrigada, Safatle), uma nova possibilidade de existirmos no mundo. É com a noção de que talvez nem toda a pessoa branca seja racista, mas toda a pessoa branca se beneficia da estrutura social construída pelo racismo; de que talvez nem todo homem seja machista, mas todos se beneficiam da estrutura social construída pelo machismo; e de que nem todo hétero é lgbtfóbico, mas todos se beneficiam da estrutura social construída pela lgbtfobia.

Assumir nossas identidades no mundo – todos temos uma –, lutar por igualdade de direitos e oportunidades, entender como nosso comportamento reproduz essas estruturas de opressão e então batalhar para que todo o marcador identitário seja superado. Não em busca de uma sociedade de iguais – porque jamais seremos –, mas em busca de uma sociedade onde esses marcadores sejam abolidos.

Nas palavras do professor Jones Manoel: “A verdadeira perspectiva emancipatória é a destruição do signo do negro e do branco, construindo uma sociedade desrracializada onde a cor da pele não constitua marcadores sociais estruturantes das relações, onde todos sejam plenamente humanos a despeito de suas características físicas”.

A lógica vale para gênero e sexualidade: lutar para que esses signos sejam superados e deixem de fundar as estruturas sociais que organizam nossas relações. Até que esse dia chegue, a luta identitária vai ser importante, ainda que ela apenas não nos conduza à liberdade. Para que a gente exploda a jaula de todas as opressões precisamos encarar a batalha pela ampliação das estruturas de cuidado social, de novas relações de trabalho, de consumo, de produção e de distribuição.

A escritora bel hooks escreveu que a linguagem nos levará para além das fronteiras da dominação, por isso termino com a sabedoria do grupo Inquérito, que em um pequeno verso ensina universos sobre o que é o racismo estrutural (letra da música Eu só peço a Deus): É um país cordial, Carnaval, tudo igual. Preconceito racial mais profundo que o Pré-Sal. Tira os pobre do centro, faz um cartão postal. É o governo trampando, Photoshop social. Bandeirantes, Anhanguera, Raposo, Castelo. São heróis ou algoz? Vai ver o que eles fizeram. Botar o nome desses cara nas estradas é cruel. É o mesmo que Rodovia Hitler em Israel”

Créditos

Imagem principal: Arquivo pessoal

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