por Alê Youssef

A cidade bomba no seu underground e desse universo precisa ser canalizado um movimento de mudança, respeito às diferenças e valorização da cidade.

Recentemente assisti pela segunda vez o filme MILK, que conta a história do primeiro gay a se eleger a um cargo público nos Estados Unidos. Ativista de vanguarda, Harvey Milk - interpretado brilhantemente por Sean Pen - liderou uma verdadeira revolução em São Francisco, despertanto o interesse político em pessoas absolutamente alienadas e excluídas do sistema, lutando por direitos civis, desbancando preconceitos e criando um jeito diferente de fazer política. Baseado em Castro, bairro decadente que abrigava imigrantes e loucos, Milk conseguiu usar todas as expressões comportamentais do universo gay e canalizá-las brilhantemente para um movimento de afirmação e um projeto de poder que se mostrou possível.

Para quem vive no turbilhão da recente explosão da cultura alternativa de São Paulo e, mais especificamente, respira o dia a dia do Baixo Augusta - nome que escolhemos para identificar o trecho em torno da famosa Rua que liga a Avenida Paulista à Praça Roosevelt - impossível não  identificar semelhanças com o ambiente retratado no filme. Assim como Milk e seus amigos sofreram violência, resistência e foram privados de direitos pela sua opção sexual, todos os grupos de comportamento que frequentam o Baixo Augusta convivem à margem do sistema político e são ignorados pelo poder público. Como escrevi no texto CIDADE BIPOLAR, postado também nesse blog, os jovens e novos protagonistas da cidade, que deram a ela o brilho e a beleza que nenhum banco, mega empresa ou empreendimento imobiliário conseguiu dar, encaram uma cidade que ignora solenemente o potencial humano e econômico da sua noite e da sua diversidade cultural. Os orgãos públicos insistem em dificultar licenças para funcionamento de bares e clubes, muitas vezes tomam medidas arbitrárias e violentas, criam dificuldades para vender facilidades e permancem distantes dos movimentos culturais e urbanos. O governo olha a cidade de cima pra baixo e não presta atenção nas suas epecifidades, no molho que da o sabor da verdadeira São Paulo. Uma vez por ano, fazem a Virada Cultural, evento bacana mas isolado de uma política estruturada de valorização da vocação maior da cidade.

Vale repetir um conceito que venho falando: toda uma geração está chegando ao poder econômico, judicial, criativo etc. Entretanto, não temos referência dessa escalada social em termos políticos. Os escândalos, a caretice, a imobilidade e todos os outros defeitos que sabemos serem inerentes à política, afastam os jovens dela. Não existe renovação e não temos qualquer sinal de mobilização de massa crítica qualificada em busca de um projeto de tranformação das instituições e de conquista de corações e mentes para tornar a política mais moderna e antenada aos anseios da nova geração. Assim como parte da geração de 60 e 70 se mobilizou contra a ditadura, é preciso que pessoas agora se juntem por uma tranformação comportamental da política e por valores fundamentais como transparência, simplicidade e cabeça aberta para o novo.

Andando ontem pela Augusta, pensei muito nisso. Lembrei de Milk e do Castro, das fachadas das lojas meio detonadas, dos grafites nos muros, dos tipos circulando pela área. A cidade bomba no seu underground e desse universo precisa ser canalizado um movimento de mudança, respeito às diferenças e valorização da cidade. Não podemos mais ver os mesmos tubarões de sempre se elegendo às custas da nossa indiferença e dos seus currais eleitorais comprados por caminhões de dinheiro dos poderosos e conservadores de plantão.

Que o Castro inspire a Augusta!

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