Os médicos que fizeram meu transplante de fígado disseram-me que essa foi uma das operações mais perfeitas ocorridas nos últimos tempos

Cerca de uma semana antes, fui chamado às pressas ao Hospital das Clínicas. Eles estavam em vias de captar um fígado cujo dono havia morrido, e fariam um transplante em mim com ele. Convém ressaltar que o meu fígado estava cirrótico por conta do ataque sistemático da hepatite C. Vivi mais de 30 anos com esse vírus em meu organismo, sem saber.

Já havia feito uma cirurgia anterior que retirara um tumor cancerígeno e pedaço do fígado. Agora aparecera outro, e tudo indicava que era uma recidiva, ou seja: um tumor que não adiantava tirar que ele renasceria de qualquer jeito. E estava crescendo. A única solução seria o transplante do fígado. Meu lugar na fila estava longe. Esperava-se somente para o ano que vem e não era possível prever o desenvolvimento do tumor. Ele tanto podia ficar como estava, crescer devagar, ou de repente. Minha vida estava à mercê dessa incógnita.

Fui raspado, lavado com uma substância antisséptica, e fiquei esperando. Eu não sabia se preferia a operação ou voltar para casa e morrer em paz, tal a angústia que foi me tomando. Após dez horas de agonizante espera, a família do morto decidiu não doar o órgão e enterrar o corpo com ele. Meus respeitos e nenhuma crítica. Somos livres em nossas decisões.

Voltei para casa frustrado, ao mesmo tempo em que aliviado; não seria tão já. Dá medo da delicadíssima cirurgia. Podia não levantar mais da mesa de operações. Mas não demorou uma semana e novamente, de madrugada, telefonaram para que eu corresse para o hospital. Novamente banho, raspagem total, avental que mostrava a bunda e tudo mais. Havia uma fila enorme de pessoas a serem operadas. E eu fui chegando e já colocado em maca e sendo levado à sala de cirurgia.

Os médicos anestesistas deitaram-me na mesa e esticaram meus braços como naquela cena em que são mortos os condenados à morte nos Estados Unidos. O que aconteceu já expus em crônica anterior que está em meu blog no site da revista. Estou até agora, 22 dias após o transplante, já em minha casa e, por incrível que possa parecer, estou bem, tirando os mais de 15 comprimidos e uma injeção anticoagulante diários. Já trabalhando e vivendo quase normalmente. Estou andando bem, ontem fui ao shopping almoçar e olhar vitrines.

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Cirurgia dupla

Como o tumor podia crescer descontroladamente, eu tinha que operar com urgência. Então os cirurgiões me apresentaram uma alternativa. Existe uma doença chamada polineuropatia amiloidítica familiar (PAF). Ela se manifesta geralmente após os 20 ou 30 anos de vida.

Como não tenho tal doença, um fígado de alguém que a tem se regeneraria ao contato com meu sangue. Mas depois de 15 ou 20 anos, o PAF se manifestaria em mim e eu teria fraqueza nas pernas, nos braços, perda sexual e afetaria o coração. Como tenho 65 anos, assinei o termo autorizando.

E foi o que se deu. Os médicos decidiram fazer uma cirurgia dupla. Tiraram o fígado de um rapaz com o PAF já manifesto e colocaram um que fora captado. E, assim imediatamente, retiraram o meu fígado cheio de pontos de tumores e colocaram o do rapaz que tinha o tal de PAF em mim. Como eu não tinha a doença, o fígado foi regenerado e funcionou perfeitamente. Os médicos que fizeram a cirurgia, doutores José Brasileiro e Vinícius, disseram-me que essa foi uma das operações mais perfeitas ocorridas nos últimos tempos.

O único problema foi a minha coluna que foi lesionada pela posição de horas na maca com os braços esticados e amarrados… Sofri desesperadamente na UTI com a coluna. A dor era tamanha que, com os analgésicos, tive até alucinações.

Vi um menino me ameaçando com uma faca e discuti com ele aos altos brados. As enfermeiras precisaram me segurar. O pior é que, alucinação ou não, eu ainda vejo agora o menino com a faca na minha memória e em detalhes. Fui até expulso da UTI rapidamente para o quarto de recuperação.

O que tenho a ressaltar neste texto é que, se uma família não permitiu que eu usasse o fígado do ente morto, no fim, foi até um fato interessantíssimo de se pensar. Caso permitissem, salvaria minha vida, sem dúvida. Mas era só uma vida. Negando, uma semana depois, o fígado de outro ser humano que morrera salvou duas vidas. A do rapaz com PAF que ganhou um fígado novo e a minha que recebi o fígado tirado dele. Não é uma questão de economia da providência? Seria o acaso, a sorte, ou o quê? Você decide.

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