Há 45 anos uma multicolorida multidão viaja pelos EUA atrás de uma banda - o Grateful Dead

 

Há 45 anos uma dispersa e multicolorida multidão viaja pelos EUA atrás de uma banda - o Grateful Dead. Largam família, escola, empregos para acumular centenas de shows no currículo. Em nome de música, transcendência e êxtase, os Deadheads transformam meros shows de rock em um grande evento espiritual. Trip foi - e viu a luz

De braços erguidos e olhar vidrado, cabelos longos e barba caótica, um rapaz coloca-se como um profeta. “Eu preciso de um milagre!”, ele suplica. “Faça um milagre por mim e eu te levo para a igreja!”, propõe. “Eu GARANTO. Hoje mesmo eu te mostro Deus!”, promete. Centenas de almas em tie-dye fluem vagarosas na entrada do anfiteatro Shoreline, em Mountain View. Todas, o repórter incluso, sabiam qual era a jogada do sujeito. Ele queria um ingresso grátis (eis o milagre) para o show que começaria em 15 min. Em troca, oferecia uma dose (eis a igreja, eis Deus) de um decente LSD californiano. Talvez a única moeda que não falte no bolso de um autêntico Deadhead como ele. O problema é que quase todos por ali também eram Deadheads. E, de tão sedentos por um dia de culto como aquele, muito provavelmente tinham seus sacramentos lisérgicos reservados. Afinal, há cinco anos o Grateful Dead não fazia um show. Era dia de culto para todos ali. E dos grandes.

Epiphany Rocks

Cincos anos pode parecer pouco para fãs convencionais de grandes bandas de rock. Mas o Grateful Dead não é uma banda convencional. E menos ainda são seus fãs mais xiitas, os já citados Deadheads. Os amadores já viram 20, 30 shows. Os mais radicais perderam a conta há tempos, mas arriscam 300, 400, 500 shows no currículo. Pois para eles a música do Dead transcende o folk-rock-psicodélico do rótulo. É a trilha de uma vida espiritual nada ascética, contraditória, e carregada pelas palavras de ordem que fundaram o movimento hippie e jogaram milhões de jovens americanos em uma estrada de paz, amor, hedonismo – e drogas. E, independente de como levam suas vidas mundanas, é ao vivo, com a banda no palco, que se dá o arrebatamento. Onde gentileza, pensamentos positivos, respeito ao próximo e ao planeta se misturam com altas quantidades de ácido, ecstasy, cogumelos, maconha, óxido nitroso e danças estapafúrdias. Um passaporte para o inferno, diriam padres e pastores. O expresso para o paraíso, rezam milhares naquela fila.

Para mim o dia era solene. Estava aproveitando meu último mês como correspondente da Trip na Califórnia. E a música do Grateful Dead embalava meu espírito desde minha primeira experiência psicoativa aos 19 anos de idade. E uma de suas músicas, “Ripple”, havia sido o maior gatilho de epifanias durante a mais importante experiência psicodélica que tive. Sem rodeios: mudou minha vida. E mesmo sem o tie-dye e sem um mísero show do Dead no carma, me considerava um Deadhead no coração – para mim a banda era mais do que rock.

Era uma... religião? Nem tanto, confesso. Mas eu sentia, sim, a transcendência no som e na mensagem da banda. Quando cruzei a roleta, arrepiei. Estava feliz. E decidido a ir para a igreja como tantos por ali. Antes do culto, a hóstia. Seja o que Deus quiser...

Faça-se o Dead!

Nenhuma religião se mantém de pé sem um belo mito fundador. E, no caso do Grateful Dead, a mitologia é bem mais do que mera lenda. Grande parte do imaginário que ronda a banda é fato verificável, amplamente registrado em fotos, livros e relatos de muita gente viva até hoje. Muito mais do que Beatles, Stones ou Hendrix, o Grateful Dead tem a biografia musical mais messiânica e sincronística do rock.

Eles eram apenas uma banda folk de San Francisco no começo dos anos 60. Mas tiveram a sorte, ou a marca do destino, de terem sido a primeiríssima leva de músicos pop a experimentar LSD. Na época, 1964, quase ninguém sabia o que ácido era. E apenas a Sandoz, o laboratório que tinha a patente do ácido, o vendia sob o nome de Delysid. Mas não foi a viagem precoce de Jerry Garcia e seus comparsas que lançou a banda ao púlpito. Foram os meses e anos que se seguiram após suas primeiras trips.

O Grateful Dead não é uma banda convencional. E menos ainda são seus fãs mais xiitas, os Deadheads. Os amadores já viram 20, 30 shows. Os mais radicais já perderam a conta, mas arriscam 300, 400, 500 shows

Não havia hippies nos EUA. Nem o termo existia. Apenas uma turma muito pequena de pessoas sob a anárquica liderança de Ken Kesey que carregava o nome de Merry Pranksters. Eles se vestiam com roupas bizarras e carregavam apelidos à altura. Faziam amor entre eles sem muita culpa ou ciúme. Rodavam o país em um ônibus escolar todo pintado à mão, com mensagens surrealistas e incompreensíveis para o povo em preto e branco daqueles tempos na América. Seu motorista era Neal Cassidy, o lendário muso dos beatniks nos anos 50. Na bagagem do ônibus, o Furthur, eles tinham muito, mas muito LSD. E, quando decidiram, na costa oeste, começar uma revolução cultural através do ácido, escolheram o Grateful Dead como a banda da casa.

Foram os famosos testes do ácido. A substância ainda não era ilegal, então não havia legislação nenhuma que proibisse os Pranksters de distribuírem milhares de doses indiscriminadamente. Na praia, por exemplo, ao som ao vivo do Grateful Dead. Dois problemas aqui. Como conseguir tanto ácido e plugar a banda em um sistema de som grande o suficiente para dar conta de entreter milhares de pessoas, ao ar livre, transtornadas pela primeira experiência de LSD? A solução foi a mesma: Owsley Stanley.

O peculiar rapaz de 30 anos tinha duas habilidades raras: criava equipamentos de som e sabia fabricar LSD. Foram dele o setup do Grateful Dead e o ácido que abasteceu San Francisco e boa parte dos EUA até 1967. Milhões de pessoas tiveram revelações psicodélicas, bad trips, deixaram o cabelo crescer, abandonaram suas casas, se engajaram contra a guerra no Vietnã, trocaram todo o guarda-roupa e refizeram suas ideias de Deus. E a trilha sonora era da banda que agora entra no palco do anfiteatro de Shoreline.

Jerry é meu pastor

Desde que Jerry Garcia, fundador, guitarrista e principal vocalista da banda, morreu em 1995, o Grateful Dead se recusa a usar o nome completo. Já foram The Other Ones. Agora são simplesmente The Dead. A falta que Garcia faz, ao som e aos fãs, mantém no discurso da velha guarda Deadhead a saudade – e certa soberba: “Você não viu Jerry ao vivo? Não é a mesma coisa...”, é o que escuto toda vez que confesso minha virgindade em cultos gratefuldeadianos. Até os shows que os fiéis testemunharam eles contam sob esse parâmetro. Quantas performances com e quantas sem Garcia.

”Em muitos shows a gente nem entra.Fica no estacionamento, nos corredores, conhecendo gente e escutando de longe. Você sabe, estamos aqui por outro motivo”. Qual? “Hmmm, amor. Eu acho...”

Jerry foi vítima de um ataque cardíaco dias após se internar em uma clínica de reabilitação. Segredo nenhum... O culto a que a banda foi submetida só é comparável a outra reputação do Grateful Dead: a do ostensivo e intensivo uso de drogas. A revelação psicodélica do LSD e similares deu lugar, logo no começo dos anos 70, a quase qualquer substância disponível. Não demorou para Jerry preterir o ácido em favor de drogas mais sedutoras – e viciantes – como ópio e heroína. Os camarins do Grateful Dead eram lendários festins. Assim como a pista de seus shows. Essa combinação, bem sabida de ambas as partes, criou também outra característica crucial dos shows do Dead. Longos, muito longos, para dar conta das muitas horas de psicoatividade de banda e público. Quando sobem ao palco eles sabem que grande parte do público está sob o efeito de substâncias que vão levar horas até trazer o fã de volta à Terra. E, como verdadeiros ph.D.s em trips, o Dead sabe como ninguém ajudar na navegação de sua audiência. Quem conta é Bob Weir...

O tempo do Bob

Bob é o vocalista e guitarrista remanescente. Sempre dividiu com Jerry as canções e, desde 95, assumiu a voz em quase todas. Cresceu uma bela e densa barba grisalha e, pelos últimos 15 anos, vem ganhando a imagem de profeta que sempre foi de Jerry. Quatro meses antes do show de Shoreline tive a sorte de conhecê-lo. E, depois de muita resistência de Weir, consegui uma entrevista.

O papo que era para durar uma hora acabou se esticando pela tarde inteira. “É interessante conversar com um brasileiro”, ele admite, “você não me faz as mesmas perguntas de sempre”. Normalmente jornalistas querem saber dos velhos tempos, das drogas, dos causos com Timothy Leary e turnês chapadas pelo mundo. Quando comecei a entrevista falando de Obama, ele se animou. Mas se esqueceu do relógio quando perguntei sobre Deus e o caráter religioso dos shows.

Você tem a consciência de que boa parte de sua plateia está buscando uma experiência espiritual? “Não penso nisso diretamente”, ele começa, “mas o caso é que eu também estou na mesma busca. O que estamos tentando no palco, e nem sempre conseguimos, é criar um acontecimento maior do que nós mesmos. E o que faço é não pensar no público nem em mim. Eu tento esquecer que estou ali, que sou o Bob, e ser o veículo de outras forças. Meu corpo é só um ator, um veículo”. Essas palavras me voltam à mente quando Bob começa a cantar em Shoreline a faixa um do primeiro disco do Grateful Dead. The Golden Road (To Unlimited Devotion).

Por amor

A pista abriga umas 10 mil pessoas. É justo que se diga, nem todos são devotados Deadheads. Há famílias, casais convencionais e fãs, simplesmente, das canções do Dead. Apesar de ser necessariamente atrelada às drogas psicodélicas, a música em si é simples, melódica, sutil. Nada das estranhezas sonoras, das letras intermináveis da psicodelia do Pink Floyd e afins. Visto de longe, o Grateful Dead soa como um country rock, e dos leves. Muitas baladas, timbres simples e solos curtos. Mas quem se dispõe a entrar mais fundo nos temas da banda entende por que é a mais psicodélica delas.

As letras (quase todas do poeta Robert Hunter) costumam evocar histórias nada comuns no rock. Resumos de pensamentos de Lao Tzu, descrições de lugares selvagens vistos em perspectivas cósmicas, o amor visto como uma manifestação espiritual, nunca romântica, pensamentos perdidos em uma trip de ácido, dívidas com traficantes como questões morais, o diabo como um personagem banal em uma mesa de jogo, a saudade de um pai falecido em metáforas vagas... Tudo isso provocando, ali no Shoreline, crises de choro, risos em êxtase, gente cantando ajoelhada de mãos postas. Gente em completo estado de graça, prestando atenção em tudo... menos na banda!

“Era poderoso! Vi um festival de Dionísio. Era mais do que música, acendia algo estranho no coração, a própria energia da vida. Eu vi coisas assim, mas nunca com gente tão jovem, nunca nos EUA”, disse Joseph Campbell

O poder de Campbell

Outra peculiaridade que faz do Dead um grupo único. Os mais fiéis fãs, que rodam o país e abandonam tudo em nome dos shows, não olham para o palco, não se espremem jamais para um lugar mais perto da ribalta. “A gente não tem uma relação de ídolo e fã”, explica Matthew Pop, um dedicado Deadhead de 36 anos de idade que, desde os 13, segue a banda. Depois de mais de cem shows na manga, postula: “Em muitos dos shows a gente nem entra. Fica no estacionamento, nos corredores, conhecendo gente e escutando a música de longe. Você sabe... estamos aqui por outro motivo”. Qual, então? “Hummm. Amor, eu acho.”

Antes de acreditar no suspeito repórter, preste atenção no que disse o professor Joseph Campbell. Famoso pelo seu livro e série de TV O poder do mito, Joseph é considerado o mais importante intérprete de mitologia e religiões do século 20. Nunca deu bola para rock nem para as revoluções culturais dos anos 60. Mas, em 1985, conheceu Jerry Garcia e Mickey Hart (o baterista) e foi a um show deles em Berkley. Teve, ele também, uma revelação:

“Uma experiência maravilhosa. Fui a um auditório ver a banda Grateful Dead. Sempre achei rock simples e sem graça demais para o meu gosto. Mas quando vi 8 mil jovens flutuando no ar sob o comando daqueles músicos... Era poderoso! Vi um festival de Dionísio. Era mais do que música, acendia algo estranho no coração, a própria energia da vida! Eu vi coisas assim antes, mas nunca com uma plateia tão jovem, nem com americanos. E nunca vi gente em arrebatamento por cinco horas seguidas! Era como o México no dia da Virgem de Guadalupe, como no templo de Jagannath na Índia. Não interessa se é um pastor ou um grupo de rock. Eles acharam aquele acorde da unidade, do Deus que está em todos.”, resume Campbell.

Dionísio na pista

Bem... a banda já tocou por 40 min e acaba de fazer seu primeiro intervalo. Mais três horas, pelo menos, me esperam. Já achei meu canto, joguei a toalha no chão e deitei a olhar o céu enquanto o sacramento mais típico dos Deadheads começou a fazer efeito. Uma decolagem turbulenta, que logo estabiliza em um voo alto. Bem alto. O sol se põe e o céu derrama cores que vão ao chão. Procissões de hippies não dão a menor pelota para meu semblante torto e olhos arregalados. Do meu lado uma moça faz ioga. Do outro três garotos dançam loucamente sem que música alguma saia das caixas. A luz apaga. O Dead está de volta. Nesse ponto, eles sabem, a plateia já decolou como eu. É noite. Hora de chamar Dionísio para a pista.

Nenhuma palavra é dita antes de um acorde explodir em volume mais alto do que no primeiro ato. As luzes... Oh, meu Deus... AS LUZES! Feixes de rosa estroboscópicos e ondas radiantes de verde tomam toda a vista, e pensamentos desconexos em perfeita harmonia navegam por cima de mim. Por cima de mim? E que luzes e cores são essas já que meus olhos estão fechados e nem me levantei da toalha na grama? Sim, são luzes e estão todas aqui, comigo. Alucinações só existem para quem não as teve... São rosa e verdes e roxos e amarelos que nascem como... como... qualquer pensamento. Como a grama que está abaixo de mim. Se bem que, agora, não sinto mais a grama. Bob Weir se cala e emenda um solo... Estou longe, no vazio. Não tenho corpo, não há cores nesse lugar. Nem preto. Só o nada que de alguma forma se curva sobre mim. Sinto uma presença. Meu terceiro olho olha pra cima e vê uma gigantesca abelha. Uma abelha do tamanho de um planeta. Entendi tudo! Estou dentro de uma flor. No espaço vazio dentro de uma magnólia do tamanho do universo. Abro os olhos.

Sem teto no universo

No palco aqueles homens quase parados, dedilhando instrumentos. Sobre mim, as estrelas. Não era céu... era o espaço sideral. Ficou claro, profundamente óbvio, que a Terra não tem teto. E que aquela música, sendo tocada naquele instante, era, literalmente, um acontecimento absurdamente raro no cosmo. Que as vibrações das ondas sonoras, das luzes, dos pensamentos daqueles milhares de pessoas celebrando o amor tinham necessariamente um parentesco com o Big Bang. O universo todo é feito de música e isso não era metáfora. A harmonia perfeita entre o espaço, o tempo e a matéria que produziu aquele momento não era nada mais do que música. Olhei minhas mãos e eram música. Respirei fundo e senti reais o ar, meu pulmão. Eram música. Caí de joelhos e desatei a chorar. Quando uma mão toca o meu ombro. Era um senhor descabelado, vestido na mais surrada das camisetas psicodélicas. “Aqui”, estende a mão que segura um gomo de tangerina. “Sorria, irmão! Seja grato.” Eu sou. Eu SOU.

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