por Caio Ferreti
Trip #216

A atriz que anda em um caminho entre os estúdios do Projac e os assentamentos do MST

Há um caminho entre os estúdios do Projac e os assentamentos do MST, entre os tapetes vermelhos dos globais e a tribo Krahô. É neste raro espaço que a mineira Letícia Sabatella pretende conduzir não apenas sua carreira, mas sua vida. Nada foge de seu radar. Do trabalho escravo à agricultura orgânica, a “musa das ONGs virtuosas” (como definiu Paulo Betti) compartilha com a Trip seus sonhos mais distantes e seus planos mais imediatos, como voltar a ser “mais atriz” e, surpresa, ser cantora.

Toca o telefone na redação numa prosaica tarde de terça-feira. No outro lado da linha, uma mulher de voz suave e tranquila começa a falar. “Oi, é a Letícia Sabatella, tudo bem? Sabe o que é, tem um negócio que está me envolvendo bastante agora. É essa ameaça aos índios Guarani-Kaiowá. Você acha que tem espaço na nossa entrevista pra falar desse caso para ajudá-los?” Letícia se referia aos 170 índios que pediram para ser mortos depois que a Justiça Federal de Naviraí ordenou a retirada de todos eles de suas terras no Mato Grosso do Sul. Conforme o caso ia tomando as redes sociais na internet, aumentavam as ligações para o celular da atriz, com pedidos de ajuda para divulgar a história.

Dias antes de ligar pessoalmente para a redação para falar dos Guarani-Kaiowá, ela havia passado uma manhã inteira com a reportagem da revista para a entrevista das páginas a seguir. E deixou claro que, apesar de quase nunca levantar o tom de voz, é ouvida e faz barulho sempre que entende ser necessário.

Assim foi, por exemplo, este ano, quando Letícia esteve diversas vezes na Câmara dos Deputados em Brasília para fazer um corpo a corpo pela aprovação da PEC 438, proposta de emenda constitucional que prevê, entre outras coisas, a expropriação de terras e propriedades onde for encontrado trabalho escravo. “Os artistas foram muito importantes no processo de constrangimento da câmara para que fosse votada a proposta”, diz o deputado Cláudio Puty, presidente da CPI do trabalho escravo. “Nós achávamos que não íamos conseguir aprovar a PEC. Mas a presença deles lá, chamando a atenção da mídia e da opinião pública, virou o jogo, foi impressionante. ”

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Letícia sabe que, como artista consagrada que é, pode turbinar a opinião pública em volta de qualquer causa que lhe pareça justa defender. Aliás, já foram muitas as histórias que fizeram Letícia se engajar. Quando tinha apenas 20 anos de idade, ainda iniciante em trabalhos na televisão, ela fez as malas e foi para o sul do Pará acompanhada do padre Ricardo Rezende. Queria chamar a atenção para os constantes assassinatos de pessoas vítimas dos conflitos por terra na região – o próprio padre Ricardo, diga-se, era um dos ameaçados de morte. Detalhe: na época Letícia estava grávida. Carregava na barriga a Clara, hoje com 19 anos, filha do ator e então marido Ângelo Antônio, de quem se separou 12 anos depois – Letícia hoje namora o também ator Fernando Alves Pinto. Mais tarde ela foi para uma aldeia no norte do Tocantins, dos índios Krahô, e ficou 15 dias vivendo por lá. Repetiu a incursão à aldeia outras três vezes até gravar o documentário Hotxuá, sobre um dos personagens da tribo. E, entre uma ida e outra à comunidade indígena, ela participou de uma ocupação do Movimento Sem Terra no interior de São Paulo. “Conversei com pessoas que realmente me emocionaram muito. Vi o MST como uma escola de guerreiros”, ela conta. 

“O artista pode muito bem viver naquele universo das revistas de celebridade. Mas também pode provocar uma transformação social com seu posicionamento”

Aparentemente, não era o suficiente para Letícia ser uma das atrizes mais ativas no Movimento Humanos Direitos, uma organização que reúne vários artistas engajados em causas sociais e ambientais. E não bastavam as temporadas no sul do Pará, a convivência com os índios Krahô, a experiência com o MST. Letícia queria colocar a mão no arado, literalmente. Montou uma fazenda que produzia alimentos orgânicos e chamou as famílias carentes da região para trabalhar em forma de cooperativa. O projeto sobreviveu por três anos. Só acabou porque, como Letícia diz: “Putz, eu preciso ser atriz também”.

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Sim, é bom lembrar: antes de ser ativista, Letícia é atriz. Ela assume que já desistiu da carreira algumas vezes, principalmente quando se envolveu na fazenda de orgânicos. Mas, neste preciso momento da vida, aos 40 anos, ela prefere ser reconhecida mais como artista. “Não gosto de ter essa imagem de ser ‘a politizada’. Acho que isso tem que ser mais ordinário na vida de todo mundo. Quero ser mais atriz”, ela fala. “Mas volta e meia essas questões me tomam apaixonadamente.” A frase remete à ligação que ela fez à redação da Trip para falar dos Guarani-Kaiowá.

Letícia já está tomada por mais uma causa.

Você já se engajou em diversas causas ao longo de sua carreira. Você consegue dimensionar o retorno que a sua imagem proporciona aos movimentos sociais? Assim como o rosto de alguém vende produtos, também divulga uma ideia. Todos temos um poder de imagem pública como cidadãos, e acho que qualquer pessoa, independentemente de ser pública, na sua microssociedade, é uma divulgadora de ideias.

Como acontece no seu caso? Deixa eu dar um exemplo: eu tinha essa curiosidade e preocupação com o que acontecia no sul do Pará. Me preocupava com a questão agrária porque a terra e os valores ligados a uma produção saudável de alimento e à preservação da natureza são muito naturais pra mim. A primeira vez que fui para aquela região foi em 1992, com o padre Ricardo Rezende. Fui porque sabia da existência de trabalho escravo e que pessoas estavam sendo ameaçadas de morte. O próprio padre Ricardo era uma delas. E, como tenho uma imagem pública, acaba que o que eu acredito é divulgado. Só procurei ser coerente.

Não a incomoda que seja preciso que artistas famosos falem sobre trabalho escravo para finalmente darem atenção a um assunto desses? Tinha uma época em que não se falava da existência de trabalho escravo. Mas é aquela coisa: existem revistas e revistas, artistas e artistas... Talvez um artista possa viver muito bem aparecendo só num determinado tipo de mídia, uma que fale da carreira dele, das festas, das roupas que ele veste, dos carros que ele dirige... Mas, quando serve a alguma causa, ele traz um pouco do seu olhar para pessoas que eventualmente acreditem que a vida é só aquela da revista de celebridades. Ele provoca uma transformação social. Isso é uma coisa que, por exemplo, acontece na aldeia. O hotxuá, que é o palhaço entre os Krahô [etnia com a qual a atriz teve contato], é fundamental pra saúde emocional e estrutural do local. Com o riso e o entretenimento, ele desconstrói a rigidez e, ao mesmo tempo que melhora o humor da aldeia, promove ações transformadoras, acaba sendo uma liderança natural por causa do carisma. A partir daí fica mais fácil ouvi-lo sobre assuntos sérios.

O hotxuá faz mais ou menos o que vocês fazem... Sim, mas não precisa ser ator pra isso. Na Grécia Antiga – gosto muito de reler coisas que vi na escola, fiz isso mais por causa da minha filha – o cidadão oferecia metade do seu tempo pra sua carreira pessoal e a outra metade ele oferecia para a vida pública. E política não era emprego de ninguém, era a condição de viver na pólis. A condição de você viver na sociedade é participar da construção dela. Quando falam que vivemos em uma democracia eu questiono. Será que é mesmo uma democracia?

Como assim? Será que estamos mesmo numa democracia? Será que as pessoas estão sendo educadas de fato para ser cidadãs? Escuto muito: “Ah, o ator que começa a se envolver muito com política ou com essas questões pode se esquecer de ser ator”. Por quê?! O ator tem que ser apolítico? Tudo não é postura política? A educação que a gente recebe está mais preocupada em aprovação no vestibular do que na formação de um cidadão. Quando você tem que decorar um monte de coisas que talvez não sirvam pra nada, mas podem fazer você passar no vestibular, você não está se formando como alguém que pode participar da vida em sociedade de fato. Não é só ver campanha política na televisão e votar em um candidato. Não é isso. É pra pensar. Ou então estamos só formando tecnocratas, pessoas para trabalhar na manutenção de um modelo de desenvolvimento que pode se esgotar logo.

Você acha que a sua presença e a de outros artistas em Brasília influenciou na aprovação da PEC 438 (conhecida como PEC do trabalho escravo, que prevê, entre outras coisas, a expropriação de terras e propriedades onde for encontrado trabalho escravo)? Influenciou, certeza. São palavras de amigos políticos que estavam lá. Representamos o “olhar do Brasil”, um olho de fora lá dentro, dizendo “nós estamos vendo”. Isso com certeza influencia, a pressão popular faz a transformação em todos os lugares. E antes de ir lá telefonamos muito para os políticos, mandamos telegramas, conversamos com todos os líderes de partidos, olho no olho. Fomos no dia que seria votado – e não foi, eles adiaram. Mas a gente continuou, e continuou, e continuou...

Quer dizer, precisa alguém ali para constranger os deputados... Temos que perceber que na verdade as coisas se fazem com participação, com pressão mesmo. Na vida é assim. Uma pessoa não vai reconhecer seu limite se você não colocar, se você não disser “chega!”. E esse tipo de desequilíbrio é inerente à humanidade, o limite tem que ser lembrado pelo outro. Sou a favor dessa participação mesmo, desse olhar que não deve ser o meu, deve ser o de todos nós. Todo cidadão deve ser educado pra exercer esse direito, quem está lá governando o país é um funcionário público.

Foi numa dessas idas a Brasília que você conheceu a Marina Silva? Acho que foi quando estive em uma conferência de meio ambiente em Brasília e ela me chamou pra ir ao gabinete dela. Daí a gente conversou, fez uma oração junta. Naquela época eu levei pra ela questões com as quais era envolvida. Ela estava no Ministério do Meio Ambiente e levei a questão da transposição do rio São Francisco. E do manejo da floresta. Depois, volta e meia a gente se encontrou, ela me convidou pra outra conferência e pra participar de campanhas de meio ambiente. Ela é uma pessoa que muitas vezes eu procuro pra me informar. Mesmo que depois eu vá por outro caminho, nunca deixo de escutá-la.

Você segue alguma religião específica? Não. Já li coisas do budismo, do kardecismo, coisas cristãs, zen-budistas, taoistas... Gosto muito do taoismo. Ele fala desse equilíbrio de opostos complementares. Acho que é uma síntese perfeita do que a gente é, do que a vida é. Tem uma simplicidade boa, não cria muito dogma.

“Não posso dizer ‘eu sei como as coisas devem funcionar’. Pelo contrário, eu sei o quanto nós somos cegos, e ao mesmo tempo podemos estar em uma busca constante de aperfeiçoamento e consciência”

Mas seus pais eram católicos? Minha mãe é de família católica, mas completamente livre de religião. E meu pai é de família kardecista, a mãe dele era espírita, médium. Minhas avós são pessoas muito especiais, muito iluminadas. Uma avó me levava ao centro kardecista e a outra, à igreja. A mãe do meu pai se medicava pela alimentação, usava muito do kardecismo para cuidar da saúde mesmo, da saúde mental, equilibrando o espiritual e o emocional. Era uma pessoa muito lúcida até a morte, aos 100 anos. E minha avó materna é uma raiz mineira, superforte, espiritualmente muito iluminada também.

E como era viver essa mistura de centro kardecista e missa? Eu gostava. Gosto de rezar junto, de cantar junto, de dançar junto. Essa coisa de eu ir deitar e a avó sentar ao lado para rezar... eu pedia isso pra ela, para me ensinar a rezar. E essa hora da oração era uma hora de muita visualização. Pra mim era como uma reconexão. Passava o dia inteiro, muitas coisas aconteciam, correrias, brigas, desafios, perdas, frustrações e quando chegava a hora de encontrar com a minha avó e fazer uma oração era uma transcendência, uma meditação, algo que decantava a poeira para ir resolvendo essas questões do dia a dia.

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O que você acha da ala do feminismo que usa o corpo, a nudez, para protestar, como o Femen ou a Marcha das Vadias? A princípio, não vejo obscenidade. Vejo como um gesto poético. Não sei exatamente quais as causas que demandam nudez. Mas isso de usar o corpo... Os Guarani-Kaiowá, por exemplo, estão agora usando o corpo sacrificialmente para chamar a atenção para uma coisa que é bem mais ampla, para a preservação de um patrimônio, de uma cultura. Eles estão expondo o corpo deles ali. Já vi monge vietnamita que chamou toda a imprensa e ateou fogo ao corpo para acabar com o bombardeio ao Vietnã. É um gesto violentíssimo, mas por que as pessoas não viam o problema antes de isso acontecer? Chama a atenção, quebra uma lógica viciada.

No seu caso, você acha que a beleza interfere de algum modo em seu lado ativista? Sinceramente não penso nisso na hora de assumir uma postura, é algo que sai da minha essência. Nessas horas não é o que importa, acho que essa questão da beleza convencional não ajuda nem atrapalha. Acho que a beleza está no gesto poético, não nos traços de alguém. O belo é a busca por uma transformação, é acreditar nisso.

Você passou algumas temporadas com os índios Krahô, no norte do Tocantins. Como foram essas experiências? Fui quatro vezes. Sempre ficava 15 dias, depois mais 15... Eu tinha uma sede, uma vontade muito grande de ir para uma tribo. Achava o máximo ver aquilo de perto, e tive a chance ao ser convidada pelo [indigenista] Fernando Schiavinni. Foi ele que orientou todo o contato. Foi um encontro, eles têm muito a nos ensinar. Os Krahô têm os mesmos problemas existenciais que há em qualquer lugar. Tem pessoas mais generosas, outras menos, pessoas que passam a perna no outro... Só que tem um sistema que consegue absorver e neutralizar isso para preservar uma igualdade maior. Bem diferente do nosso sistema, que valoriza a desigualdade, valoriza um ser maior que o outro. O ideal Krahô é ser conciliador e preservar a comunidade. Lá, os mais admirados pela sociedade são os mais pacíficos, os mais amorosos. Não o mais forte, o mais competitivo ou o mais rico.

“Será que vivemos mesmo numa democracia? Será que as pessoas estão sendo educadas para participar da sociedade ou apenas para passar no vestibular? É para se pensar”

Como era seu cotidiano entre os índios? Quando chegamos, já éramos esperados. Participamos de vários rituais, do nascimento de uma criança, da morte de um ancião, de reuniões e festas. Dormíamos como todos eles, em redes dentro das casas feitas com folhas de palmeira, ao som das cantigas que continuavam a noite inteira. Também comíamos o mesmo que todos, as suas comidas típicas, como o paparoto, que é mandioca e carne assados debaixo das brasas de uma fogueira. Durante todo o cozimento, que leva um dia inteiro, eles cantam e dançam. A alimentação era à base de carne, legumes, milho, mandioca... Tudo muito saboroso, mas não havia muita comida – essa foi uma das dificuldades, eles enfrentavam problemas de desnutrição. Nós inclusive levamos suprimentos e dois bois, que foram usados para a festa que fazia parte dos rituais.

O que você acha que eles têm a nos ensinar sobre a relação com a natureza? Equilíbrio. Eles falam muito essa palavra.

Nós perdemos esse equilíbrio? Muitas vezes, sim. É só olhar. Se você só quiser tirar vantagens sobre a natureza e sobre o outro, vai haver desequilíbrio e acontecer uma reação em algum momento. Eu vejo a vida muito alquímica, sabe? De algum modo, tem uma alquimia regendo tudo isso. E a gente se desequilibra o tempo inteiro, todos nós. E não posso dizer: “Eu sei como as coisas devem funcionar, vocês têm que aprender”. Pelo contrário. Eu sei o quanto somos cegos e ao mesmo tempo podemos estar numa busca constante, num autoconhecimento e num autoaperfeiçoamento, tentando ter mais consciência. Uma hora a natureza fala e chama a nossa atenção.

E sua experiência num acampamento do MST, como foi? Fui pra gravar um momento de ocupação. O objetivo era conhecer de perto, entender o movimento. Depois fiz um curta documentário com o Ângelo [Antônio, então seu marido], chamado A cerca. Fomos com eles até o prefeito de Paranapanema (SP), onde disseram que fariam a ocupação. Aí vimos o processo todo de escolha da terra, com a orientação de vários advogados. Acompanhamos o comboio de famílias se formando ao longo da estrada, chegamos até a tal terra que estava improdutiva e participamos do rompimento da cerca, que é uma mística deles. Nesse momento tem uma oração e eles rompem a cerca gritando “Por um Brasil sem latifúndio!”. Depois entramos e passamos a madrugada com eles em volta da fogueira. Geralmente essa madrugada é muito sofrida, as pessoas ficam ali no escuro, no meio de um descampado, uma certa tensão no ar... Depois o dia veio amanhecendo, e as lonas de plástico foram subindo. E eu lá entrevistando as pessoas, querendo saber por que elas tinham entrado no movimento, quais seus sonhos, em que elas acreditavam. E é muito emocionante... Conversei com pessoas que realmente me emocionaram muito, gente que poderia estar numa situação degradante de vida, mas conseguiu se encontrar em uma organização social que dá sentido a uma vida solidária. Vi o MST como uma escola de guerreiros, de pessoas que enfrentam juntas uma situação de extrema pobreza e saindo dela por meio de uma organização social. Buscam justiça e querem que o governo faça a parte dele, melhorando a distribuição de terras e de renda.

E essa experiência também transformou você de alguma maneira? Sim, é uma vida em que tem igualdade de bem-estar, em que não quero estar melhor do que ninguém, mas também não quero estar pior. Eles queriam o direito de pertencer, de ser incluídos dignamente nesse sistema de produção. E pra isso tem que mudar esse sistema. E como você muda isso? Como você dá a educação necessária pra eles pertencerem com dignidade?

Como você acha que é? O que eu vi na tribo acho que explica uma parte. A forma como eles se organizam, se unem, trabalham pelo bem comum, seguem bons princípios éticos. Aí a gente transforma. Limites colocados precisam ser respeitados, valores básicos também. É o único jeito.

“Vi o Movimento Sem Terra como uma escola de guerreiros, de pessoas que estão enfrentando juntas uma situação de pobreza e saindo dela por meio de uma organização social”

De onde você acha que vem essa sua preocupação social? Desde criança eu tinha uma coisa de gostar muito da natureza, cuidar dos bichos... Tive uma educação humanista. E, na adolescência, de algum modo tinha essa coisa do movimento estudantil. Não como nos anos 1970, totalmente diferente da minha época, mas também tinha isso. Então já existia essa busca de consciência, de que eu terei uma responsabilidade social por tudo o que eu vier a fazer.

Seus pais tiveram alguma influência? Meu pai é engenheiro, um grande engenheiro. Uma pessoa com a cabeça voltada para cálculos, projetou usinas hidrelétricas. Hoje em dia trabalha também com energia solar e eólica. É um superconhecedor, fez trabalhos com comunidades de energia renovável, sustentável e ao mesmo tempo projeta usinas hidrelétricas, foi diretor na construção de Itaipu no lado paraguaio. Mas também sempre foi muito zen em relação à natureza, tem muito respeito, muita busca de equilíbrio. Ao mesmo tempo que era um construtor, sabia que as coisas tinham que se equilibrar. Precisamos de energia elétrica e de desenvolvimento. Mas, ao mesmo tempo, precisamos de preservação. Então tinha esses dois olhares.

Não era conflitante na sua cabeça pensar em preservação ambiental e ter um pai que projetava usinas gigantescas? Não. Cresci em Volta Grande, onde meu pai estava fazendo a hidrelétrica de Foz do Areia. Vivi ali dos meus 2 aos 4 anos. E tinha muito bicho. Certo dia, quando brincava em frente às nossas casas na vila de engenheiros, encontrei uma cobrinha viva em meio às flores amarelas de um ipê que estavam caídas no chão. Peguei ela com um punhado de flores e levei de presente pro meu pai. Eu pescava, comia peixe do rio, seriguela do pé, tamarindo. Tive ali uma grande amiga, irmã, que foi a Marcinha. Sete anos mais velha que eu, ela morava com a gente e foi a melhor irmã mais velha que uma menina poderia querer. Era muito aventureira e viva, como as pessoas da família da minha mãe, festeiros e desbravadores. Sempre fazíamos excursões pela floresta, rio acima. Era essa vida. A gente tinha mania lá em casa de cuidar de bichos machucados, tivemos tartaruga, cobra, morcego, gambá, coelho, gato, cachorro, peixe, até aranha. A construção daquela usina teve uma preocupação com a região, com os animais. Isso existia. Mas é lógico que existem situações que... bom, como dizem os Krahôs, o equilíbrio tem que ser buscado. Mas de que maneira? Existem outras saídas? Meu pai é um cara que está sempre buscando alternativas. Mas aí você pensa: “Por que a gente precisa dessa energia?”. Mais tarde fui questionar o modelo de desenvolvimento e pensava: “Pra que serve essa obra, que modelo de desenvolvimento é esse? Pra que serve Belo Monte?”. Será que precisamos pensar em tipos de produção em tão larga escala? Não podemos pensar em outras formas de produção e de economia?

E você chegou a alguma resposta? Acho que podemos pensar em alternativas além da hidrelétrica, pensar a produção de energia de uma maneira mais sustentável. Uma vez, conversando com a Marina Silva, eu perguntei: “Marina, desenvolvimento é contrário à preservação?”. A pergunta foi assim, bem simples. E ela me deu uma resposta maravilhosa, disse que o Brasil é o lugar no qual temos condições para os dois caminharem juntos, porque tem matriz energética para criar um desenvolvimento sustentável, num mundo que está pedindo soluções para isso. Esse protagonismo a gente pode buscar, pode exercer, e não repetir o mesmo velho sistema, servindo a um modelo de desenvolvimento que já faliu ambientalmente em muitos outros lugares.

Você teve um sítio em que plantava alimentos orgânicos em sistema de cooperativa. Como foi essa experiência? Me liguei ao MST, vi áreas de conflito de terra, me envolvi com tantas questões sociais... eu precisava materializar tudo isso de alguma forma. Então passei um período morando no sítio que tenho em Nova Friburgo (RJ), e ali oferecemos aulas de agricultura orgânica para a comunidade local e chegamos a formar uma associação de agricultores orgânicos. Pra mim era uma coerência com minha história de vida. As famílias nos arredores do sítio estavam semiabandonadas, os pais bebendo muito, sem emprego, vivendo de bicos. Eles achavam difícil vender a produção, achavam tudo longe... Então falei: “Vamos fazer uma cooperativa. Somos poucos, mas juntos vai dar certo”. Eu tinha o sonho de criar uma cadeia sustentável completa. De sair do produtor, passar pelo cara que transportava, até o consumidor, todo mundo fazer parte, não ter patrão lucrando mais. Só que, putz, preciso ser atriz também, né? [risos]

Você sente que às vezes se engaja tanto que o trabalho de atuar acaba ficando em segundo plano? Nessa época da cooperativa eu estava pensando assim: “Não quero mais ser atriz. É muita vaidade”. Aí o Luiz Fernando [Carvalho] foi me chamar pra fazer Hoje é dia de Maria [minissérie de 2005 da TV Globo] e eu falei pra ele: “Luiz, acho que eu não sou mais atriz!”. Mas mudei de ideia, claro... Trabalhar com ele sempre dá vontade de ser atriz de novo! É uma das pessoas que me fazem ter vontade de ser atriz todas as vezes que eu desisto.

"Eu tinha o sonho de criar uma cadeia sustentável completa. De sair do produtor, passar pelo cara que transportava, até o consumidor, todo mundo fazer parte, não ter patrão lucrando mais. Só que, putz, preciso ser atriz também, né?

Você já desistiu outras vezes, então? Algumas vezes, já... Por estresse, por estar fazendo alguma coisa que estava me desvirtuando, por achar que tinha que pesquisar mais... Acho que até por uma necessidade de reciclagem, de descobrir outros caminhos, me desconstruir e construir outras coisas, me reafirmar, sabe? Preciso trocar. Quando sinto que estou ficando viciada em alguma coisa penso: “Preciso me limpar disso”. Deve ter sido assim, como naquela época em que nada foi melhor do que plantar e colher. Foi uma preparação incrível de corpo e mente.

Quanto tempo durou essa história dos orgânicos? Três anos. Eu ficava muito lá, também trabalhei. Mas não consegui ficar mais de um ano sem ser atriz. Chegamos a ter 20 pessoas trabalhando no sítio, mas não consegui plenamente fazer daquilo um negócio sustentável. Não consegui me dedicar mais, o documentário que eu estava fazendo ao mesmo tempo me exigiu muito. Mas as famílias tiveram uma boa formação em produção de orgânicos. Atualmente seguem utilizando esse conhecimento, mas do seu modo pessoal, e acredito que hoje estejam mais aptas para exercer sua cidadania, têm mais ferramentas pra discutir demandas com a prefeitura e tiveram a oportunidade de se conhecer como uma comunidade que se organiza e consegue resolver seus problemas.

E você pretende resgatar esse projeto em algum momento? Não sei... Agora preciso ser atriz. Estou com muita vontade de ser atriz do melhor jeito, fazer mais cinema, música. A música é um negócio que está me despertando muito interesse.

Música? Sim, sempre cantei e a música foi muito presente na minha formação. Agora tenho brincado de compor e tem sido muito bom. Estou trabalhando em um projeto autoral, teatral e musical com o título provisório de Volta ao centro, que tem a parceria do Fernando Alves Pinto, ator, multi-instrumentista, meu amigo e colega há alguns anos. Estou bem feliz com esse novo espaço criativo. Mas tenho uma ligação muito forte com a terra, e tenho que resolver isso. Acho que pode ser um futuro pra mim, mas tenho que ver como vai ser. Gosto de viver perto da natureza e, quando eu projeto a velhice, penso em viver perto do mato.

Como você define essa sua ligação com a terra? Quando você fica no meio da mata o dia inteiro – e isso eu sempre faço –, você sai transmutado, sua energia transmuta. É bem pragmático. Os bichos se aproximam de você, tudo muda mesmo. A natureza é muito generosa, ela está o tempo inteiro doando.

Além do contato com a natureza, sua busca do autoconhecimento envolve fazer análise? Sim, faço análise há uns dois anos, e isso me ajudou mais claramente a reconhecer o meu limite. E também a saber colocá-lo antes de explodir. A análise me deu força emocional. Tem algumas mudanças que são meio crises, e a análise ajudou a me segurar, a entender, a ter mais compreensão de mim mesma. Sempre ajuda estar mais equilibrada, ser melhor com o mundo. Não dá pra falar das questões de fora, sociais, e estar totalmente desorientada, emocionalmente sobrecarregada.

“Não dá para eu fazer propaganda de uma loja e depois descobrir que ela faz uso de trabalho escravo. Eu me preocupava tanto com isso que preferi abrir mão da publicidade”

Li que você não faz comerciais. É isso mesmo? Não fico divulgando isso, embora muita gente me pergunte. Acho que é tão pessoal... foi uma escolha que eu fiz em determinado período. Mas, por exemplo, se eu vou fazer um trabalho no teatro e uma empresa apoiar, terei o maior prazer em divulgar o apoio dessa empresa. Acho que essas parcerias existem, vivemos num mundo que tem essas trocas. Mas eu evito mesmo, realmente não fiz mais. Acho que eu precisava de credibilidade para dar mais confiabilidade às causas. Mas não cheguei a dizer “nunca mais vou fazer”. Sempre reavalio essa posição, mas eu gosto dessa preservação da palavra e da imagem, principalmente quando tenho uma responsabilidade assim. Não dá pra eu fazer propaganda de uma loja e mais tarde descobrir que ela tem trabalho escravo na sua cadeia produtiva. Seria uma incoerência. Me tornar independente dessa coisa de vender produtos me dá mais possibilidade de escolher a que vou associar a minha imagem. Fiquei muito tempo associada a causas em que acredito, e pretendo continuar assim. Quando vinha uma proposta de propaganda eu tentava me cercar de tantas informações, ficava tão preocupada de saber sobre aquilo que eu estava vendendo que preferi abrir mão. Não posso perder tempo com isso, sou uma atriz! E foi muito coerente, muito legal. Foi uma decisão meio como “agora parei de comer carne!”.

Você também é vegetariana? Fiquei 14 anos sem comer carne. Agora eu como. Convivendo com os índios e vendo essa coisa do equilíbrio, vendo plantações de soja destruindo o cerrado, percebi que uma maneira até mais ecológica é equilibrar o que você come.

Passa pela sua cabeça entrar na política partidária? Não. Eu quero ser atriz, cada vez mais atriz. Acho que não preciso também, já é político o suficiente ser uma pessoa conhecida. Posso apoiar uma posição e as pessoas vão ver isso, a política como carreira não me interessa. Como atriz e como cantora eu posso fazer mais, de uma forma poética, sem discurso, sem panfletagem. Tenho vontade de falar através da arte, não através de discursos políticos.

Você teme ser encarada como a ativista, e não como a artista? É isso também... Quero ser mais atriz. Mas volta e meia algumas questões me tomam apaixonadamente. E são questões presentes de qualquer maneira na vida de todos nós.

Não a agrada falar tanto de política e questões sociais como fizemos agora? Não [risos]. Eu começo a me construir demais como essa persona. Não gosto de ter essa imagem, de ser “a politizada”. Acho que isso tem que ser mais ordinário na vida de todo mundo. Isso é o mínimo que todo mundo deveria ser.

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