por Rosaldo Cavalcanti
Trip #216

Favela Surf Clube faz das ondas uma opção para as crianças do morro do Cantagalo (RJ)

O Favela Surf Clube, fundado por Denilson Thyola, faz das ondas uma opção para os meninos do morro do Cantagalo. Quatorze mil beneficiados depois, também o futebol, a música e o vôlei entram na receita contra os apelos do tráfico

É manhã no morro do Cantagalo. Moradores sobem e descem freneticamente os degraus que ligam a maior favela da zona sul a Ipanema. Denilson Estacio Cruz, o Thyola, é um deles. “Minha mãe foi umas das primeiras moradoras do morro”, conta. “Tenho 11 irmãos, todos bem-criados, gente de bem. Ninguém foi para o tráfico”, garante. Nessa batalha pra não “perder” os jovens do complexo para o canto da sereia do comércio ilegal de drogas, Thyola, aos 40 anos, é ponta de lança. Em 2000 fundou a ONG Favela Surf Clube, que oferecia aulas do esporte para garotos da área. Mais de 14 mil meninos e meninas de diferentes idades já passaram pelo projeto, que cresceu e se transformou. “Hoje atendemos 600 crianças e jovens em quatro frentes: surf, vôlei de praia, percussão e futebol de areia”, contabiliza João Paulo Veiga, diretor executivo do FSC e velho amigo do fundador da organização não governamental.

Para entender melhor como surgiu a entidade, voltemos a um passado distante, quando nosso personagem tinha 11 anos. “De cima do morro eu ouvia as ondas. Mas só vi o mar pela primeira vez quando subi numa laje e, lá de cima, descobri o que fazia aquele barulho.” Até então Thyola não podia ir à praia sozinho, sua mãe tinha medo de que se afogasse. “Eu não sabia nadar, mas não tinha medo.” O encontro rendeu frutos: o garoto não saiu da praia, aprendeu a nadar e a pegar onda e, nos anos 80, firmou-se como surfista respeitado no Arpoador, competindo em categorias amadoras e acumulando troféus.

O caminho para a profissionalização parecia natural, mas aí veio o futebol. Adolescente bom de bola, Thyola passou numa peneira e jogou nos juniores do Fluminense. Ficou pouco tempo, mas o suficiente para chamar a atenção de um olheiro e ir parar na Alemanha. Lá jogou num time pequeno, também nos juniores, mas a saudade o fez voltar logo. “Quando voltei formei família e fiz quatro filhos. Minha vida mudou.”

O futebol, contudo, permaneceu forte em sua vida. Além de esse esporte ser outro dos pilares do Favela Surf Clube, hoje Thyola ainda tira dele parte de seu sustento. Há dois anos assumiu a direção do Dínamo, um dos times de futebol de praia mais tradicionais do Rio. Logo em seu primeiro ano, a equipe foi campeã carioca na categoria até 23 anos. “Há 18 anos o Dínamo não vencia um campeonato. Teve um sabor especial.”

Além do surf, do futebol de areia e do vôlei de praia, a percussão é ferramenta de inclusão social. Para se ter uma ideia, em 2013, a bateria da entidade, formada por garotos entre 7 e 17 anos, vai abrir pelo segundo ano consecutivo o desfile das campeãs do primeiro grupo do Rio de Janeiro.

Profissão: prancha

Outro benefício especialmente importante para a molecada do complexo Cantagalo-Pavão-Pavãozinho – onde vivem quase 30 mil pessoas – são as oficinas de capacitação profissional da ONG. Os jovens aprendem a montar e consertar pranchas de surf e depois são contratados por empresas parceiras, como a Pranchas TBC ou a fabricante de barcos Holos do Brasil, onde trabalham na lixação.

Mais: como pré-requisito para todos os meninos e meninas, está o bom rendimento escolar. “Aqui eles podem escolher entre virar atleta profissional, fabricante de pranchas ou professor de surf, entre outras atividades”, enumera Thyola, antes de ressalvar: “Mas pra participar não basta estar na escola. Tem que ter notas boas”. E o controle é sério. Boletins são conferidos a cada dois meses, e as notas são repassadas até para a Federação de Surfe do Rio de Janeiro. Ou seja, assistir às aulas, estudar, fazer a lição de casa e conquistar boas notas é exigência não apenas para ser atendido pelo FSC, mas também para competir. “Se as notas vêm ruins, chamamos o garoto pra conversar, os pais... fazemos o acompanhamento”, explica João Paulo, o JP na entidade desde sua fundação, há 13 anos.

Thyola já esteve nas páginas da Trip duas vezes: ao lado de amigos surfistas do Cantagalo, em 1988, anos antes de a ONG existir, nos primórdios da revista (#8), e em 2010 (#186), quando Luciano Huck levou um dos garotos, Naamã, então com 14 anos, pra surfar no Havaí e conhecer Kelly Slater. Foi também no Caldeirão do Huck que o Favela Surf Clube ganhou reforma completa, na estreia do quadro “Lar, doce lar”, em 2010. A vitrine chamou a atenção de grandes empresas, como a Nike, que patrocina a escola de surf, e a rede de hotéis Accor, que apoia a oficina de pranchas. “É dessa forma que conseguimos manter as atividades, todas grátis, para a comunidade.”

“Pra participar tem que ter notas boas”. Todos os boletins são conferidos

Os membros da ONG, contudo, ainda não conseguem viver do trabalho social. O fundador do FSC ganha um extra como técnico de futebol amador e juiz de surf.
JP, por sua vez, é advogado. Nascido e criado no Arpoador, enturmou-se desde cedo na areia com a garotada do Cantagalo.

Guerra e paz

Hoje o Cantagalo é “pacificado”. Uma UPP foi aberta no morro no final de 2010, e outras iniciativas fortes, como o AfroReggae, também atuam por lá, ajudando a equilibrar o jogo contra o tráfico. Mas nem sempre foi assim. “Vi gente que eu conhecia morrendo na minha frente”, lembra Thyola. Nesse período pré-Unidade de Polícia Pacificadora, o maior problema eram as invasões. “Bandidos de outras facções vinham de outros morros e chegavam aqui dando tiro”, conta o fundador do FSC. Com a polícia, relembra, também não era fácil: “Muitas vezes subiam o morro dando tiro sem mirar, muita gente inocente morreu por bala perdida... era horrível. Mas agora, depois da pacificação, as senhoras podem ficar conversando na rua até mais tarde, e as crianças brincam nas ruas sem medo. O tráfico não tem mais o poder de antes”.

“Nunca tivemos problemas com traficantes”, diz JP. “Acho que eles mesmos acabam vendo os benefícios pro morro e, às vezes, até pra própria família deles. O filho de um soldado do tráfico pode estar sendo atendido por nós.” Mesmo antes das UPPs, segundo Thyola: “Eles nos respeitavam. A gente não se metia na vida deles e eles não se metiam na nossa”.

“Na praia não existe diferença entre rico e pobre, preto ou branco. Somos todos iguais”

Thyola e JP contam que vitórias sobre o comércio de drogas são comuns na ONG que coordenam. “Tinha um garoto aqui no morro que tava indo pro lado errado. Um dia o encontrei carregando um fuzil e falei do nosso time de futebol. No começo, não mostrou interesse. Até o dia em que o campeonato começou e ele apareceu no local do jogo”, conta Thyola, que conseguiu inscrevê-lo, mas só depois de fazê-lo prometer trocar o fuzil pela bola. “Ele virou nosso lateral direito e juntos fomos campeões cariocas.” Mas nem tudo dá certo. Um grande amigo dos nossos entrevistados, conhecido como Doidão (e também citado na Trip #8), largou o surf, caiu no tráfico e foi preso. Cumpriu 12 anos de cana, saiu, voltou pro crime e foi preso de novo. “Era um garoto bom, mas infelizmente escolheu o caminho errado e se perdeu”, lamenta Thyola. Hoje, Doidão está preso em Bangu. “Ele se arrependeu das escolhas erradas que fez, mas agora é tarde.”

Boas histórias

O que ilumina mesmo o rosto do nosso entrevistado, contudo, são boas histórias, como a do surfista profissional Simão Romão, duas vezes campeão de etapas do WQS (mundial de acesso à categoria principal, o WCT) no Arpoador. Romão nasceu no Cantagalo e começou no esporte apoiado pelo Favela Surf Clube. Hoje articula o Bonde do Simão, projeto que pretende levar ao Havaí, em janeiro de 2013, Pikachu, Mancini e Nem, três adolescentes promissores do FSC. “Estamos conseguindo doações de empresas, vendendo camisetas especiais, fazendo de tudo. Acho que vai dar”, anima-se JP. “Os moleques mal podem esperar, não tão nem dormindo direito. Comigo também foi assim, quando fui surfar na Indonésia voltei com outra cabeça”, diz Thyola.

Posando para as fotos que ilustram esta reportagem, Denilson Estacio Cruz analisa um dos ingredientes do sucesso do Favela Surf Clube: “Na praia não existe diferença entre rico e pobre, preto ou branco. Somos todos iguais”. A seu lado, o amigo do peito JP, nascido no lado rico daquele pedaço, concorda: “Na areia tá todo mundo de bermuda, sem camisa e uma prancha embaixo do braço. É o ambiente mais democrático de todos”.

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