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Cultura descentralizada

Agenda da Periferia tenta integrar os rincões de São Paulo através de um guia de cultura

Agenda da Periferia/Divulgação

Por Diogo Rodriguez

em 20 de outubro de 2009

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Agenda da Periferia/Divulgação

Os guia dos principais jornais e revistas das grandes cidades brasileiras e São Paulo trazem diversas opções de lazer todas as sextas-feiras. Por (quase) todas as zonas da cidade, os encartes enumeram e avaliam restaurantes, baladas, filmes, bares e o que mais houver de interessante acontecendo.  Aos olhos dos guias de cultura os eventos estão quase todos concentrados no centro e seus arredores.  Mas no M’Boi Mirim não há uma só sala de cinema. Nenhum teatro. Nada de biblioteca pública. O Guia da Folha, por exemplo não relaciona o bairro na sua listagem de eventos culturais. Mas isso não siginifica que nada esteja acontecendo ali.

Percebendo que haviam partes da cidade sendo deixadas de lado pelas agendas culturais, a ONG Ação Educativa resolveu publicar, no formato de guia, a Agenda da Periferia. Desde maio de 2006, cerca de oitenta eventos em bairros como Capão Redondo, Pirituba, Real Parque, Ermelino Matarazzo e cidades da área metropolitana são listados com seus preços, endereços e telefones para contato. Só não entram mais rodas de samba, shows de rap e encontros literários “por falta de espaço” nas atuais dezesseis páginas disponíveis, conta o coordenador Eleilson Leite, historiador de formação. O que fica de fora da edição impressa vai para o site, que existe desde abril de 2008, onde o número de eventos chega aos 100 por mês.

Sarau da Cooperifa
Sarau da Cooperifa / Créditos: Agenda da Periferia/Divulgação

São 10 mil exemplares distribuídos mensalmente em 114 pontos da Grande São Paulo, incluindo 17 unidades da Fundação Casa. Não há muita lógica na logística: algumas pessoas passam na sede da Ação Educativa para pegar lotes e os distribuem nos bairros, outros deixam nos bares, casas de cultura e pontos de encontro, uma “distribuição miltante”, define Eleilson. O fluxo é tão incerto que fez chegar  uma carta vinda do presídio de Pirajuí, no interior de São Paulo. Tratava-se de um detento, “provavelmente transferido”, que tinha em mãos a Agenda e escreveu: “Gostaria, se possível, está recebendo (sic) um guia cultural da periferia. Eu gostaria de ficar sabendo como anda nossa cultura brasileira”. Ele deixou o endereço completo, com número da cela e tudo. Um dos destaques do mês de outubro deste ano, a nota “Onde os Fracos Não Têm Vez” não se refere ao filme dos irmãos Coen, mas ao Hip Hop DJ 2009, uma batalha de DJs que acontece às quartas-feiras na Galeria Olido. Quando é necessário, a Agenda manda um fotógrafo para fazer o registro, mas os organizadores são incentivados a tirar suas fotos para usar como imagem de divulgação. As seis seções fixas dão uma idéia da diferença entre os guias “normais” e a Agenda; “Hip-Hop”, “Samba”, “Cinema e Vídeo”, “Literatura”, “Outras Cenas”. As capas não exibem mostram festivais com nome de marcas, mas o “rock solidário” da Casa de Cultura de Santo Amaro (fevereiro de 2009); ao invés da Bienal dos Livros, a Mostra Cultural da Cooperifa (outubro de 2009).

Samba do beco
Samba do beco / Créditos: Agenda da Periferia/Divulgação

“Uma das coisas que mais me anima é quando alguém que mora na região central, que pode usufruir da vasta oferta de equipamento culturais, vão ver algo na periferia”, diz o coordenador da Agenda da Periferia. Porém, “esse movimento é menos comum”, apesar de a São Paulo Turismo (empresa que promove o turismo em São Paulo) ter solicitado exemplares para distribuir nos Centros de Informação ao Turismo espalhados por São Paulo, incluindo a avenida Paulista e o Aeroporto de Guarulhos. Comum é a periferia invadir o centro, nos eventos que o Guia enumera na seção “A Periferia no Centro”.

Já no primeiro número da Agenda a iniciativa se mostrou eficaz. Numa roda de samba no Jardim Marília (entre Itaquera e Aricanduva), uma pessoa chegou com um exemplar nas mãos dizendo que morava num bairro vizinho e ficou sabendo do encontro por causa do guia. Eleíson diz que “a idéia é ampliar a noção de cidade” porque “a periferia ficou muito segregada”. Aparentemente, a segregação ocorre tanto no sentido centro-bairro, quanto no bairro-bairro.

Vai lá: http://www.acaoeducativa.org.br/agendadaperiferia

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