Dá-lhe injeção, Tirar sangue para exame, desespero em filas intermináveis. As dores e seus horrores

Contraí o vírus da hepatite C há cerca de 30 anos. O sistema imunológico reagia à invasão e o vírus se escondia em meu fígado. Com o tempo, ele foi destruindo a resistência do fígado, tornando-o cirrótico. Descobri cerca de dois anos atrás, quando já havia desenvolvido um tumor maligno naquele órgão. Resumindo, fizeram uma cirurgia e removeram o tumor.

Passei por um tratamento de seis meses contra a hepatite C, em que eu tomava de oito a dez comprimidos todos os dias. Cheguei até a perder a consciência de mim mesmo várias vezes, cuspir sangue uma semana seguida – e, de lá para cá, perdi 8 quilos. Alguns meses depois, apareceu outro tumor. Os especialistas indicaram a queima do nódulo por rádio frequência e transplante em caráter de urgência. O cirurgião me explicou que querem queimar para que ele não surpreenda (cresça rápido demais ou dê cria) e inviabilize o transplante. Quer dizer: se aparecer outro tumor cancerígeno, não haverá mais recursos.

Então é só esperar um mês (o tumor pode me surpreender, afinal), ou dois a três anos, no máximo, para o desenlace de todo o drama que atende por Luiz Mendes. Passei meses fazendo exames quase que diariamente. E dá-lhe injeção. E fura no braço, na perna, na veia do coração e na bunda. Tira sangue para exame duas ou três vezes por semana. Um desespero de filas e esperas intermináveis. Passava o dia no hospital. As dores e seus horrores...

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Estou falando sobre isso tudo para contar que dia desses, às 5 horas da manhã, meu celular tocou. (Eu havia passado mal a noite toda com diarreia. O fígado funcionando mal causa problemas em todos os outros órgãos. É comum ter dor de cabeça, de barriga e diarreia. Quando não dá barriga-d’água.) Acordei com a companheira me sacudindo. Era do Hospital das Clínicas. Atendi ainda meio sonolento. Uma enfermeira do setor de transplantes me convocava a seguir imediatamente para o hospital. Os médicos iam fazer a captação do fígado de uma pessoa que acabara de morrer, cuja classificação sanguínea era a mesma que a minha. Eu receberia aquele fígado, caso estivesse tudo certo com ele no exame que os médicos fariam.

Não sei a razão – talvez pelo bom condicionamento físico ou pelo meu coração que está forte (assim atestou o cardiologista) –, de repente eu estava no topo da lista dos transplantes. Esperava para o ano que vem, mas havia chegado minha vez.

MONTANHA-RUSSA

A companheira, como sempre, me levou até lá de carro. Não conhecíamos o caminho – vamos sempre de metrô –, mas conseguimos chegar. Em horas assim aparecem as proteções. Foi aparecer para que me colocassem em um quarto, nu, debaixo de um chuveiro e me esfregando com uma escovinha que já continha um líquido que espumava. Depois, me rasparam de cima a baixo, tudo, só ficou o cabelo. E tome injeção, tirar tubos de sangue. Desconfortável, no mínimo. Pelado, vestido só com uma camisolinha, escutava as enfermeiras, anestesistas, médicos, que me esclareciam sobre o que ia acontecer.

Teve uma hora que deu vontade de ser surpreendido e nem saber de nada, tal a quantidade de dores possíveis e sofrimentos contidos naquela história toda. Nada de muito bom. Eu podia não morrer, mas, em compensação, trocaria uma doença por outra. Remédios diários, risco enorme de rejeição, exames e revisão médica constante – e para o resto da vida. Seriam oito horas de cirurgia e havia riscos. Quase 50 centímetros aberto, todo costurado como uma bola de futebol, dreno dentro de mim e pendendo, cheio de urina, soro na veia e ficar grudado àquela árvore de aço. Só ir ao banheiro já seria horroroso.

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Eu caminhava pelo quarto, a companheira ficou supernervosa, dava dó. Me vieram até lágrimas de “arrependimento” por estar doente. Ela não merece isso. Aguardamos por dez angustiantes horas naquele quarto. Eu estava em um jejum em que nem água podia tomar, mas tranquilo. Naquele momento, nada importava tanto quanto o momento que passava. A parceira estava ansiosíssima e querendo briga quando o cirurgião entrou. O transplante havia sido cancelado. Estava tudo certo para abrir o homem morto e verificar a compatibilidade do fígado. No entanto, a família não assinou o termo de doação e o homem seguiu para o enterro.

Voltamos frustrados, cabisbaixos e cansados.

Créditos

Imagem principal: Antonio Lafreri

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